quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O comércio externo de Timor Leste em 2008

Apresentamos aqui alguns dados do comércio externo de Timor Leste neste ano. Melhor: apresentamos dados sobre as importações (as exportações foram de cerca de 9,9 milhões USD nos primeiros 11 meses do ano, na quase totalidade café) relativas aos primeiros 11 meses deste ano. I.e., foram de cerca de 5% das importações, resultando num défice da balança comercial enooooorme!

No período referido as importações "comerciais" totalizaram 200 milhões USD (mais exactamente 203 milhões). As "importações comerciais" excluem o valor das importações de bens para uso das Embaixadas e das forças militares estrangeiras bem como o dos bens importados pela UN e suas agências.

De notar o padrão resultante da análise do gráfico: as importações no segundo semestre aumentaram bastante relativamente às do primeiro semestre. Justificação para tal? Parte dela surge mais adiante mas outra é, quase de certeza, o facto de em Julho, no início do segundo semestre, ter entrado em vigor a nova pauta aduaneira, com taxas alfandegárias muito mais baixas que anteriormente e, por isso, mais favoráveis a um aumento das importações. O resultado aí está...

Dos 203 milhões de USD das importações, 59,3 milhões (29%) foram de combustíveis e 31,7 milhões foram de veículos (15,6%). Quer um valor quer outro parecem-nos muito elevados para uma economia com o grau de desenvolvimento de Timor Leste mas o primeiro está justificado, em boa parte, pelo aumento do preço internacional dos combustíveis que se verificou na maior parte do ano. A descida que o gráfico ilustra em Setembro e nos meses posteriores justifica-se pela queda do preço dos combustíveis no mercado internacional.


É o valor da importação de veículos que nos faz (e deve fazer-vos...) pensar. Note-se que a média mensal das importações do primeiro semestre foi de 2,2 milhões e a de Jul a Nov foi de... 3,7 milhões (mais 2/3...). Será que isto está ligado à política de grande distribuição de recursos que foi prosseguida a partir de meados do ano? Dificilmente não estará, o que significa que uma parte (importante? Cremos que sim) dos recursos colocados em circulação ao abrigo dos mais diversos pagamentos a vários grupos sociais ("deslocados internos", "peticionários", etc) acabou por ser "escoada" para o estrangeiro sob a forma de importação de automóveis, motorizadas e outros veículos. Só não se importaram kudas a motor porque ainda não há... Esta evolução já era de esperar.
Note-se que este grande aumento de importação de veículos a motor é um "presente envenenado" para o futuro pois faz aumentar, no curto e a médio-longo prazos, o consumo de combustíveis... importados. O que agrava ainda mais a "fatura petrolífera" do país.


A terceira rubrica mais importante nas importações foi a dos cereais, em que se inclui o arroz. Os quase 18 milhões de USD (quase 9% do total) que se gastaram resultam, em boa parte, da subida do preço do arroz no mercado internacional, que atingiu o seu máximo em Maio passado (772 USD/Ton; 365 em Janeiro e 320 em Novembro). Note-se que só estas importações correspondem a quase o dobro do total das exportações!
Note-se no gráfico abaixo a grande instabilidade dos valores mensais, que deve estar associada ao "tempo"/momento em que são assinados os contratos do Governo com os importadores e as decisões de importação destes.
Infelizmente não temos dados que nos permitam testar a hipótese de Timor Leste estar, EVENTUALMENTE, a pagar mais pelo arroz importado do que o necessário devido ao facto de os contratos entre o governo e os abastecedores serem efectuados num momento em que os preços no mercado internacional estão mais altos, sendo depois a compra por estes efectuada algum tempo depois, quando o preço já desceu, como tem vindo a acontecer desde Maio passado. Os importadores de arroz "do Governo" poderão (sublinho a palavra "poderão"), pois, estar a beneficiar do facto de fazerem contratos com o Governo num período em que o preço internacional está mais alto do que aquele que depois vão pagar aos produtores. Um exemplo: se entre o momento do contrato e o momento em que o importador assina o seu contrato com o fornecedor decorrer um prazo de 2 meses, isso significa, tomando o exemplo de Julho e Setembro passados, que o arroz "caíu" entretanto quase 100 USD por tonelada que reverte a favor do importador timorense... Tema a aprofundar...


Infelizmente também não temos --- ai a distância!... --- informações sobre a evolução dos preços do arroz nacional para ver se ele tem tido nos mercados do país (nomeadamente de Dili) um comportamento semelhante ao do mercado internacional e do arroz "do Governo".
Sabendo-se, porém, a grande rigidez (na subida e na descida) que os preços de bens nacionais costumam apresentar devido a uma boa dose de "ilusão monetária" dos agentes económicos, não nos custa admitir como muito provável que o diferencial entre o preço do arroz importado e do arroz produzido internamente é agora ainda maior do que era há alguns meses atrás. O que é um desincentivo aos agricultores nacionais tanto maior quanto o mercado está fundamentalmente a absorver arroz "do Governo", agora ainda mais barato. Na verdade mais barato do que o preço do arroz quando toda esta "bagunça" com os seus preços começou...

3 comentários:

Anónimo disse...

Senhor Professor Serra.

Acho que e altura de comecarmos a exportar em Timor, lideres caducos.
Talvez seja um bom negocio e ajude a contrabalancar.Estou a pensar a exportar moscas aqui na Australia, pois no verao sao uma peste.

Um seu leitor atento.

Le Mau Dick

A. Serra disse...

Exportar moscas não dá para viver... :-)
Aqui em Portugal descobri há algumas semanas que há uma localidade de nome "Venda das Pulgas"! Não faço ideia quem são os compradores!

Anónimo disse...

"Venda das pulgas..." e me familiar.

So podem ser os meus compadres alentejanos.Desde o 25 de Abril de 1974 tem-se visto muito consanco
(deve ser da sarna)

Um abraco

Le Mau Dick