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sábado, 16 de abril de 2011

Timor Leste é Dili e o resto é paisagem?

O título desta entrada parafraseia uma conhecida frase relativa a Portugal quando se quer assinalar a (excessiva) concentração de riqueza e poder em Lisboa face ao resto do país, particularmente o interior.
Ela veio-me à memória quando vi o quadro abaixo retirado do Timor-Leste Demographic and Health Survey, 2009-10.


Ele representa a distribuição da riqueza de Timor Leste (riqueza definida como abaixo) quer por zonas rurais/urbanas quer por distritos.

A riqueza é, para efeitos do documento referido, definida assim: "Os quintis de riqueza dão-nos uma medida consistente de vários indicadores combinados sobre as receitas e despesas das famílias. Na sua construção é usada informação sobre a propriedade de vários bens de consumo [duradouro] que vão desde ativos como uma televisão, meios de transporte (como bicicletas) e a propriedade de terra ou de animais comuns na agricultura, até características da habitação tal como a fonte da água potável de que dispõe, facilidades de saneamento disponíveis e tipo de materiais usados na construção das casas."


Esclareça-se que os "quintis" são grupos de 20% da população. Assim por exemplo, em relação às zonas urbanas o grupo dos 20% mais pobres tem 4,5% da "riqueza" tal como descrita, enquanto que os 20% mais ricos têm 57,8%". Já no caso das zonas rurais é evidente que nelas predominam os grupos sociais mais pobres

Este resultado é consequência da definição de "riqueza" adoptada e do facto de em Dili os 20% mais "ricos" deterem 71% do total da "riqueza" do distrito. Como neste distrito os 20% mais "pobres" têm apenas 0,4% da "riqueza", o rácio entre os 20% mais "ricos" e os 20% mais "pobres" é enorme: quase 180, que significa que o grupo dos mais "ricos" são quase 180 vezes mais "ricos" que os mais "pobres". Claro que esta é uma medida exagerada derivada da definição adoptada. Por isso, mais que o valor absoluto, interessa aqui realçar o enorme fosso existente entre os dois grupos.
Mas o facto principal a assinalar é, para nós, o significado dos 71% de "riqueza"dos 20% mais ricos de Dili quando comparados com a parte de riqueza dos 20% mais "ricos" nos outros distritos. Este valor "quantifica" aquilo que já sabemos: a existência de um enorme fosso entre as condições de vida na capital face ao resto do país. Claro que o facto o distrito de Dili ser essencialmente urbano, minimanete infraestruturado, enquanto que todos os outros são essencialmente rurais, é importante para o resultado final.

Esta grande discrepância entre Dili e o resto país ("Dili é Timor Leste e o resto é paisagem"...) remete para a necessidade de ser adoptada, urgentemente, uma política de desenvolvimento regional que reduza os desequilíbrios entre as partes constituintes do todo que é Timor Leste.

Por último realcemos o resultado em relação ao total do país que figura na última linha. Como se pode verificar, as percentagens de "riqueza" apropriadas por cada quintil (grupo de 20% da população) são muito aproximadas e o rácio entre os 20% mais "ricos" e os 20% mais pobres é 1. Estes valores significam que, apesar dos valores dentro do distrito de Dili e da evidente macrocefalia deste em relação ao resto do país, há uma grande uniformidade da distribuição da "riqueza" --- ou da "pobreza"?!... --- entre todos os grupos. Alguns diriam que se trata de um caso de "socialização da miséria".

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Última aula!...

Pois é... Assim, devagarinho, ao fim de quase 40 anos a dar aulas no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa (ISEG/UTL), cheguei à n-ésima e última aula. Daqui em diante e até ao fim de Junho são os exames mas depois disso... a reforma espera-me lá mais para o fim do ano.

Mas o que é que isto tem que ver com a economia de Timor Leste? É que
1) aproveitando o facto de se comemorar a data da restauração da Independência do país, resolvi falar com os alunos sobre a economia de Timor Leste, particularmente os quês e porquês da vantagem de o país continuar, pelo menos para já, a usar o dólar americano como moeda nacional; e
2) inspirado pela situação do país fiz algumas considerações gerais sobre uma linha de força que deve ser reforçada nas "políticas económicas e sociais de desenvolvimento" --- nome da disciplina do Mestrado em Desenvolvimento e Cooperação Internacional que lecciono e com que terminei a minha carreira docente oficial no ISEG --- da grande maioria dos países em desenvolvimento: a necessidade de reforçar o conjunto "políticas de desenvolvimento rural + políticas de desenvolvimento regional". Sem este reforço não vai ser fácil melhorar significativamente a situação da maior parte das pessoas, habitantes das zonas rurais.

Quanto ao tema específico de Timor Leste, trata-se de uma investigação que com uma colega tenho estado a fazer há algum tempo e que, no essencial, não encontra razões suficientemente fortes para alterar o actual statuo quo no país quanto à moeda corrente. Os perigos de alterar a situação pasando a emitir uma moeda nacional são bem maiores que as vantagens que poderiam, eventual mas não seguramente, advir po se passar a ter uma moeda emitida pelo banco central do país.

E assim, conversando sobre coisas sérias, cheguei às 19h25m de 19 de Maio de 2010... Ora oficial de encerramento da última aula...

sábado, 29 de novembro de 2008

Mais do relatório sobre a pobreza em Timor Leste

Outro quadro que nos chamou a atenção pelo retrato em "grande plano" que dá do país ao dar informações sobre as zonas urbanas e rurais e, principalmente, sobre os vários distritos individualmente considerados é o quadro abaixo:


Ele confirma que as zonas rurais são mais pobres que as urbanas. Num outro quadro refere-se o facto de as zonas urbanas terem empobrecido proporcionalmente mais que as zonas rurais entre 2001 e 2007.
Dos dados acima realce-se ainda o facto de que os dois distritos mais pobres são Manufahi e Manatuto e que os dois mais ricos (ou menos pobres?) são Lautem e Baucau, com o primeiro em melhor posição que o segundo mas com uma diferença pouco significativa.
Note-se que a percentagem de população abaixo da linha de pobreza em Manufahi é de 85% e que a mesma percentagem em Lautem é cerca de 1/4 desta (21,3%), o que diz bem das diferenças regionais existentes no país e da necessidade, já muitas vezes salientada, de o país se organizar de uma forma mais decidida para combater as desigualdades regionais existentes. Uma política de desenvolvimento regional, precisa-se!
Note-se igualmente (última coluna) que 38% dos pobres estão concentrados em 3 distritos apenas: Dili (principalmente pobreza urbana), Ermera e Bobonaro (pobreza rural em ambos os casos).