terça-feira, 3 de abril de 2012

O empréstimo do Japão a Timor-Leste: sim...mas!

Foi assinado há dias um acordo de empréstimo do Japão a Timor Leste para financiar parte significativa dos encargos de (re)construção da estrada entre Dili e Baucau. Ou entre Baucau e Dili...
Já várias vezes me referi aqui às vantagens de o país recorrer --- "com bom gosto e bom senso" = "conta, peso e medida"... --- a empréstimos com taxas de juro bonificadas disponíveis junto de vários financiadores, nomeadamente instituições internacionais de apoio ao desenvolvimento e alguns países. A eles deve vir agregada assistência técnica de qualidade que garanta isso mesmo: qualidade no produto final, i.e. e neste caso, qualidade da estrada a construir de modo a que ela dure anos e não esteja esburacada ao fim de 2-3 épocas de chuva como é hábito...

Parece ser este o caso do empréstimo obtido do Japão. E digo "parece" pois as informações que se têm sobre ele são, por vezes, contraditórias. Ora a taxa de juro é de 1%, ora é de 0,7%, ora é novamente de 1%... Ora é em dólares, ora é em ienes... Em que ficamos?

Se o empréstimo for em dólares (USD), Timor Leste não tem de se preocupar muito com a evolução da taxa de câmbio entre este e o iene (JPY) mas se for em ienes já não é assim. A última versão de tivemos conhecimento sobre esta "estória" é de que o empréstimo é em ienes, cerca de 5,5 mil milhões (ou bilhões, para os mais anglófonos...). Mas se for assim há que ter cuidado com a evolução da taxa de câmbio entre o USD e o JPY pois se este último se valorizar significativamente em relação àquele o que é, aparentemente, um bom negócio (uma taxa de juro de 1%, empréstimo a 30 anos com 10 anos de "período de graça" em que só se pagam juros e não se amortiza capital) pode "virar" um péssimo negócio, fazendo com que os encargos ultrapassem em muito os que resultam de uma taxa de juro de 1% --- podendo mesmo ultrapassar os 5 ou 6%... Ou mais!

O gráfico abaixo representa, em escala invertida para dar uma melhor ideia da apreciação do iene face ao USD, a evolução da taxa de câmbio entre as duas moedas desde 1980 até ao presente. Repare-se, por exemplo, na rápida subida entre meados de 1985 e os fins de 1986 (segunda "coluna" marcada a cinzento). Durante esse curto período o câmbio do iene passou de cerca de 250 ienes por USD para cerca de 150. Actualmente é de 81,7 ienes por dólar, mais ou menos.


Aquela forte apreciação do JPY foi acordada entre os países mais ricos no famoso "acordo do Plaza" de fins de 1985. O "Plaza" é o hotel de Nova York onde decorreram as reuniões e é bem conhecido dos amantes dos filmes "Sózinho em casa" (Home alone) pois um deles passa-se nesse hotel... :-)

Para se ter uma ideia do impacto desta apreciação do iene, os 5,5 mil milhões de JPY do empréstimo a Timor Leste correspondiam, à taxa de 250 JPY/USD, a 22 milhões de USD mas um ano e meio depois, à taxa de 150 JPY/USD, correspondiam a... quase 37 milhões de USD! Ruinoso!
Não se espera para os tempos mais próximos uma tão forte valoriazação do JPY mas, como se pode verificar pelo gráfico, a tendência histórica foi de uma valorização (quase) constante do JPY: como mais facilmente se constata no gráfico abaixo entre meados de 2007 e o presente a taxa "subiu" de cerca de 120 JPY/USD para os actuais cerca de 80. Uma apreciação significativa.


Não se antevê que a apreciação do iene continue ao mesmo ritmo mas convem estar "de olho" na situação. Isto é: como vai ser gerido o risco cambial que envolve este empréstimo a confirmar-se que ele foi feito em ienes e não em USD? Quem o vai fazer? Que precauções foram ou vão ser tomadas para que as coisas "não corram para o torto"? "Bué" de perguntas, não são?

E já agora: as taxas de juro no Japão têm estado muito baixas, sendo mesmo, provavelmente, as mais baixas do mundo desde há alguns anos. No quadro abaixo pode ver-se a actual estrutura das taxas de juro no país segundo os prazos dos empréstimos. Reapare-se, a título indicativo, na última linha do quadro abaixo, a dos "bonds" japoneses a 30 anos. A taxa de juro é de 2%.


Isto é: a taxa de 1% do empréstimo é metade da dos "bonds" japoneses com o mesmo período. O que não é nada mau, antes pelo contrário, mas também não me parece ser motivo para dar pulos e saltos e "embandeirar em arco"!...

Enfim, parece essencial saberem-se, de certezinha absoluta, todos os pormenores do empréstimo. Que, apesar do que fica acima, aplaudo "a mãos ambas" mas me deixa com água na boca para saber mais. Saber tudo... :-)


PS - E já agora: senhores tradutores, parem de traduzir "highway" por "autoestrada"! Parece que o país vai ficar cheio de autoestradas quando vai ficar (?) apenas (e já não é nada mau) com boas estradas. "Autoestrada" é uma "motorway", com (normalmente 4) faixas de rodagem separadas (2 a 2) por separador central e sem cruzamentos; "highway" é uma boa estrada "nacional", com 2 (ou mais) faixas de rodagem, largas, sem separador central e com cruzamentos

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