sexta-feira, 11 de abril de 2014

Como se calcula a taxa de inflação

A taxa de inflação de um país é calculada determinando a evolução do Índice de Preços no Consumidor. Este pretende ser um resumo, com base num determinado mês, do preço de um "cabaz de compras" médio das famílias do país. Nesse "cabaz" um leque de produtos usualmente consumidos entra com determinado "peso" no total.
No caso de Timor Leste são calculados três Índices e por isso há três "cabazes": um para o conjunto do país, outro para Dili e outro para o "resto do país excepto Dili", o "ex-Dili".
O quadro abaixo dá-nos o peso relativo de cada grupo de produtos, subgrupo e produtos em cada um desses 3 "cabazes".

Como se pode verificar o arroz e os vegetais são o "produto" com maior peso seja qual for o "cabaz" considerado. Assim, por exemplo, os 17,2 da linha "arroz" na coluna "Timor Leste" significam que, em média, os consumidores nacionais gastam 17,2% do total das suas despesas de consumo a adquirir arroz. No caso de Dili essa percentagem desce para 15,1% mas no caso do resto do país que não Dili ela sobe para 26,8%.
Os "vegetais" são outro "produto" muito importante na alimentação dos timorenses, com 15,5% das despesas totais.
No total, o grupo da "alimentação e bebidas não alcoólicas" absorve 64,3% dos gastos das famílias nacionais em cada mês. Em Dili gasta-se 61,9% em alimentação e bebidas não alcoólicas mas no resto do país essa percentagem sobe para 75,4%.
Estas diferenças são o reflexo da diferente estrutura de consumos entre os "dilienses" e o resto dos seus concidadãos, sendo a daqueles mais "moderna", como se pode ver pela maior percentagem de gastos em "vestuário e calçado", "habitação", "transportes" ou "educação", por exemplo.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Ainda a taxa de inflação e sua descida significativa

No "post" anterior indagámos sobre algumas das componentes do Índice de Preços no Consumidor cujo comportamento, mais estável em termos das suas taxas de variação (ex: arroz e vegetais, duas componentes fundamentais do "cabaz de compras" usado para cálculo do IPC), ajudam a compreender melhor o que se passou.
Como referi numa outra "entrada" a baixa da taxa de inflação explica-se "matematicamente" pelo facto de ela ser agora calculada (taxa homóloga) relativamente a índices que já estão no "patamar" de lento crescimento.

Uma das razões mais "profundas" dadas como causa do surto inflacionário dos últimos anos, particularmente os anos de 2011 e de 2012 (taxas homólogas de Dezembro:17,4% e 11,7%, respectivamente) foi o grande aumento das despesas públicas então verificado.

Note-se que o que interessa nestas é o valor que entra efectivamente na economia através dos pagamentos efectuados pelo Estado, mais que o valor dos respectivos Orçamentos, já que a taxa de execução destes é, por vezes, limitada (por exemplo, 76% em 2013).
Ora, os valores dos Orçamentos e dos pagamentos efectuados nestes últimos anos foram como segue (valores em milhões de USD):

2010: OGE:   838; pago:   760; taxa de inflação homóloga de Dezembro: 9,2%
2011: OGE: 1306; pago: 1097; idem: 17,4%
2012: OGE: 1807; pago: 1198; idem: 11,7%
2013: OGE: 1650; pago: 1083; idem:   4,0%

Parece evidente que a "explosão" de gastos reais (+44%) em 2011 relativamente a 2010 foi o "detonador" da subida rápida dos preços que então se verificou. A força de inércia da subida dos preços "alimentada" pelo (ainda que ligeiro) acréscimo de gastos em 2012 ajudou a manter a taxa de inflação em dois dígitos mas já, nitidamente, "perdendo gás"... Esta "perda de gás", de "momentum", continuou no ano seguinte (2013) ajudada com a descida dos gastos realmente efectuados pelo Estado em quase 10%.
Uma certa "racionalidade económica" dos vários agentes envolvidos e, acredito, o convencimento de muitos de que se tinham atingido patamares de preços que começavam a, devido à perda de poder de compra que implicaram (os salários, por exemplo, terão perdido cerca de 40% do seu poder de compra em 3 anos!), ser incomportáveis para a maioria dos consumidores, levando a quedas da quantidade (senão mesmo também da qualidade...) de consumo, incluindo alimentar.
Tudo isto, creio, está na base de uma crescente moderação das subidas dos preços --- mas subidas... --- que acabaram por, ao longo do tempo, conduzir à queda da taxa homóloga (e também da taxa média, agora em cerca de 9% ou mesmo menos) de inflação.
Tudo se passou um pouco como quando se dispara uma bala (de canhão, neste caso...): feito o disparo (em 2011), a bala subiu muito mas depois, à medida que o tempo e o espaço aumentavam, foi perdendo força e começou a cair... Até quase se "estatelar" no chão...

"Tenho dito"!... ;)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Inflação em Fevereiro/14: os números

A Direcção Geral de Estatística divulgou mais um boletim com números sobre a evolução dos preços em Timor Leste (veja em www.statistics.gov.tl e escolha o texto em inglês porque em português ele aparece como "Statistica" e remete para a "taxa de consumo" ???? e depois aconselha a seguir para a página em inglês...).
Da consulta do site se conclui que a taxa homóloga de Fevereiro passado (sobre FEV13) para todo o país foi de 2,4%, uma queda em relação aos 4% de Dezembro de 2013. A taxa equivalente apenas para Dili foi de 2,1%.


A taxa média de Fevereiro/14 só pode ser calculada, com os dados disponíveis, para Dili. Esta, que tinha sido de 11,2% em DEZ13 (contra os 4% da taxa homóloga), foi naquele mês de 9,4%. A taxa média de 2013 (média dos IPC desse ano contra a média dos IPC de 2012) foi para Timor Leste de 9,5%.

No gráfico acima pode verificar-se que a evolução da taxa de inflação global está estreitamente ligada à da "alimentação", cujo grupo de produtos representa, só por si, 64,3% do "cabaz de compras" que permite calcular a taxa de inflação.
Se aprofundarmos um pouco a análise verificaremos a evolução dos preços da "alimentação" está, por sua vez, muito influenciada pela do arroz já que este representa só por si, entre importado e local, cerca de 20% do cabaz de compras, sendo a esmagadora maioria dele importado.

No gráfico abaixo apresentamos, com base DEZ2012=100, a evolução do índice do preço do arroz em Dili e no mercado internacional segundo a base de dados IndexMundi (http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=rice&months=60) que retrata a evolução dos preços do "Rice, 5 percent broken milled white rice, Thailand nominal price quote, US Dollars per Metric Ton" [preço do arroz 5% partido da Tailândia].



 
Os dois gráficos acima dizem-nos que os preços do arroz no mercado internacional têm estado, desde pelo menos o final do ano passado, a descer em valor absoluto. A lentidão da subida dos preços do arroz em Timor Leste ajuda a compreender a redução da taxa de inflação. Note-se que esta lentidão se faz com taxas ainda positivas, o que quer dizer que o preço do arroz está a aumentar ainda que de uma forma muito mais lenta que anteriormente.
 
Tudo isto nos remete, para além de um funcionamento do mercado nacional de arroz não completamente transparente e "normal", para uma grande dependência da inflação interna relativamente à evolução do preço do principal cereal que entra na composição da alimentação dos timorenses.
Se se verificar uma inversão da tendência à descida dos preços internacionais isso vai reflectir-se, no mesmo sentido, na taxa de inflação interna pois o arroz importado é uma componente muito grande do cabaz de compras que permite calcular a taxa de inflação de Timor Leste.
 
Uma referência ao grupo dos "vegetais", responsável também por quase 20% do cabaz de compras.
O gráfico abaixo representa a evolução do Índice de Preços no Consumidor deste grupo de produtos. Como se pode verificar houve, principalmente a partir de meados de 2013, um forte abrandamento da taxa de variação que se reflectiu na evolução da própria taxa global de inflação em Timor Leste.
 
 
 Temos, pois, que "arroz" e "vegetais" são dois "produtos" cujo comportamento dos preços deve ser acompanhada com mais cuidado. É o que faremos.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Inflação em 2013: olhando mais a fundo...

Uma taxa de inflação é um valor global, calculado para um determinado "cabaz de compras" num determinado momento ou ao longo do tempo.
Mas esse cabaz tem várias componentes, da alimentação (arroz, vegetais, peixe, carne, etc) às despesas de habitação, às despesas com transporte, com educação, etc.
A determinação da taxa de inflação para cada um destes grupos é importante para achar os "culpados"...
O quadro abaixo dá-nos as taxas de inflação para alguns dos grupos/produtos que entram no cálculo da inflação. Recorde-se que o grupo dos bens alimentares é, de longe, o mais importante no "cabaz de compras", com um pouco mais de 60%.

 
 
PS - Só mais uma coisinha, só mais uma coisinha! Trata-se do peso dos diversos grupos de produtos no "cabaz de compras" que serve de base ao cálculo do IPC. Cada valor representa a percentagem dos respectivos grupos de bens no orçamento de uma família "média" timorense. Note-se o peso "esmagador" dos gastos com a alimentação, típico de famílias de baixo rendimento como são, em média, as famílias timorenses. Entre 2001 e 2012 este grupo baixou apenas cerca de 2 pontos percentuais no seu peso no "cabaz" (os valores, na realidade, NÃO são totalmente comparáveis porque agora se incluem as bebidas não alcoólicas).
 
 
 


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Resumindo e concluindo...

Usando a base de dados publicada pela Direcção Geral de Estatística com os índices de preços "re-baseados" para o novo período base de Dez2012=100 calculámos as taxas de inflação homólogas e médias anuais desde 2007 até 2013. Aqui estão elas para vossa informação:


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A inflação em Timor Leste: 4% ou 11,2%?

Em entradas anteriores referimos que a taxa homóloga de inflação de Dezembro passado era um surpreendente (?) 4%.

Calculámos agora a taxa média anual de inflação de 2013 e o resultado é bem diferente: 11,2%. Estranho? Talvez mas vejamos como cada uma das taxas é calculada para compreendermos melhor os valores de uma e de outra.

Enquanto a taxa homóloga compara a variação dos preços entre dois meses homólogos (no caso os dois "Dezembros", de 2012 e de 2013), a taxa média anual utiliza no se cálculo não 2 meses mas... 24...
De facto, esta taxa é calculada comparando a média dos doze índices de preços de um ano (ex: 2013) com a média dos doze índices do ano anterior. Neste caso e para Dili a primeira das médias foi de 103,4 e a segunda foi de 93. Daqui resulta a referida variação de 11,2% --- muito maior do que a taxa homóloga.
Note-se que muitos economistas (incluindo nós próprios) e organizações internacionais preferem usar como indicador da inflação a taxa média anual por entenderem que é mais rigorosa por usar os Índices de preços de um ano e não apenas o de Dezembro.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Algumas estatísticas de Timor Leste

Hoje há números! E (quase) não há palavras... Rsss

 
 
 
  
 
 
Só umas palavras finais: é normal usar o valor do consumo de ferro e cimento, elementos essenciais no sector da construção civil, como "indicadores avançados" da evolução da situação económica de um país. Neste caso e à falta de melhor poderíamos usar a importação de ambos os materiais. Os baixos valores, ainda que irregulares, da importação de cimento podem ser um sinal, ténue (?), de que a actividade económica em 2013 terá sido algo menor que em 2011 e 2012. Mas este é apenas um indicador. É pouco para conclusões definitivas. Esperemos pelos valores da Contabilidade Nacional (PIB).

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Malefícios dos monopólios...

A ligação aérea entre Dili e Bali, a mais frequentemente utilizada pelos que "práquistão", foi operada até há poucos dias por duas companhias: a Merpati, a "pioneira", e a Sriwijaya.
Acontece que, ao que parece, a primeira deixou definitivamente de operar e ficou, sozinha no mercado, a Sriwijaya.
Com um monopólio caído do céu --- pelo menos enquanto não começarem os anunciados voos pela Garuda ---, a companhia está praticando preços à medida da sua situação: um voo a realizar dentro de três semanas está a custar 170 USD em cada direcção. 340 USD uma ida e volta Dili-Bali. Uma exorbitância que deve andar pelo dobro do que seria um preço mais justo.

Ora, a propósito de "preço justo", lembrei-me que existem Timor Leste um decreto sobre o dito cujo publicado há mais ou menos um ano. Não será o caso de o Governo o invocar para pedir explicações à companhia? Qual o turista que visita o país com tais preços? Não tenho dúvida de que Timor Leste está a ser prejudicado com esta situação e no entanto... Senhores ministros do Comércio e do Turismo: como é?!...

PS - Neste momento Timor Leste tem ligações aéreas com três cidades: Darwin, Denpasar/Bali e Singapura. TODAS são monopólios! TODAS são (demasiado) caras!... Darwin-Dili-Darwin: 650 USD; Dili-Denpasar-Dili: 300 USD; Dili-Singapura-Dili: 800 USD

Evolução das receitas petrolíferas

No Livro 1 da proposta de OGE14 inicialmente apresentada pelo Governo ao Parlamento Nacional dá-se a conhecer o facto de, ao contrário do que se conhecia até então, as receitas petrolíferas do país (não se considera para o caso o campo de "Greater Sunrise") terminarem 4 anos mais cedo que o previsto. A data para o fim das mesmas é agora, na prática, 2020 mas o último ano em que elas atingem os mil milhões de USD é 2018.

Os valores estimados para as receitas anuais são, nesse Livro, os seguintes:


Recorde-se que:
a) o Orçamento do Estado Timorense é financiado em cerca de 90% pelas receitas petrolíferas acumuladas no Fundo Petrolífero; por exemplo, dos 1500 milhões de despesas orçamentados para este ano, só cerca de 170 milhões serão receitas "domésticas";
b) o capital do Fundo Petrolífero era, no final de 2013, de cerca de 15 mil milhões de USD;
c) o valor das receitas a acumular no capital do Fundo depende do que for retirado pelo Governo para Financiar o OGE de cada ano: o "rendimento sustentável" e o "excesso do rendimento sustentável". O primeiro é estimado, para 2014, em cerca de 630 milhões de USD e em 2018 em cerca de 613 milhões. O "excesso" depende das decisões do governo em cada ano. Em 2013 não foi retirado qualquer excesso e em 2014 prevê-se que seja de cerca de 270 milhões, que associados aos 630 do "rendimento sustentável" darão os 903 milhões previstos com origem no Fundo Petrolífero para financiamento do OGE14.

 
 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O "trambolhão" da inflação

Divulgámos numa entrada anterior os dados recentemente divulgados pela Direcção Geral de Estatística de Timor Leste. Neles se concluía que a taxa de inflação homóloga de Dezembro de 2013 (preços desse mês comparativamente com os de Dezembro de 2012) se tinha fixado nos 4%, um "trambolhão" enorme relativamente à taxa correspondente do ano anterior e que tinha sido de 11,7%. Manifestámos o nosso espanto por uma queda tão grande (não são nada vulgares, em nenhuma parte do mundo, quedas de taxa de inflação de quase 8 pontos percentuais!) e por isso tivemos que ir "esmiuçar" os dados para perceber o que se passou.
E o que se passou foi uma situação que não é muito vulgar mas que acontece. Vejamos o que aconteceu.
O quadro e o gráfico abaixo dizem-nos que no último trimestre de 2012 houve uma subida significativa dos preços, muito maior do que nos trimestres anteriores. De facto, enquanto que no segundo e terceiro trimestres os preços subiram 1,3% e 1,7%, respectivamente, no último trimestre a subida foi de 7%. O "salto" a meio do gráfico ilustra isso mesmo.




  
 
Ora, o que se passou é que depois desse "salto" do final de 2012 os preços voltaram a crescer a um ritmo mais lento, na verdade ainda mais lento que antes do "salto". Isto terá explicações quer de natureza estatística quer de natureza económica.
A de natureza estatística tem que ver com o facto de no final de 2012 os preços estavam significativamente altos e como a base do cálculo das variações seguintes era alta, elas apareceram como sendo mais baixas.
Além disso, admite-se que a alteração do IPC e do método do seu cálculo, supostamente mais correcto agora que anteriormente a Janeiro de 2013, tenha também "culpas no cartório" ao permitir medir a inflação de forma mais correcta. Ter-se-á eliminado ou, pelo menos reduzido significativamente um certo "desvio" inflacionista da forma anterior de cálculo das variações dos preços.
 
Mas há também explicações económicas ainda que não disponhamos neste momento de dados estatísticos oficiais que o comprovem: a principal explicação é que terá havido ao longo de 2012 um progressivo abrandamento da actividade económica ilustrado pelo gráfico abaixo retirado do último relatório do FMI, de Dezembro passado.
 
 
 
Note-se que alguns observadores, usando alguns indicadores parciais sobre a evolução da actividade económica em Timor Leste, admitem que esta tenha caído ainda mais, para uma zona em que o crescimento se situará nos cerca de 4-5% em 2013. São valores a confirmar ou infirmar mais tarde mas seja como for parece evidente que a queda da actividade económica --- a que não será estranha uma queda nos gastos públicos derivada, nomeadamente, de uma fraca execução do Orçamento do Fundo de Infraestruturas (pouco mais de 50% do orçamentado) --- terá sido uma das causas da (fortíssima) queda da inflação para níveis (4%/ano) que se podem considerar "normais" para um país em desenvolvimento como Timor Leste.
 
Esta evolução, há muito "exigida" por muitos --- baixa dos gastos públicos para provocar uma baixa da taxa de inflação ---, pode lançar uma outra perspectiva sobre a própria taxa de execução orçamental (75,7% no conjunto do OGE13 e 50,5% no orçamento de infraestruturas). De facto, é possível a interpretação de que a taxa de execução do Fundo de Infraestruturas não se ficou a dever apenas falta de capacidade de execução de projectos pelo Estado/Governo. Ela pode ter sido, na verdade, um resultado desejado e prosseguido como forma de lutar contra a inflação.
Seja como for, parece que, a continuarmos assim, o Governo está de parabéns: a "hidra" parece ter sido dominada. Resta saber se eventuais tentativas de fazer acelerar o crescimento não irão fazer descarrilar novamente o comboio...