terça-feira, 5 de abril de 2011

Das estimativas à realidade

Como se sabe, o OGE de Timor Leste baseia-se bastante no que se acredita virem a ser as receitas petrolíferas do ano que poderão ser mobilizadas para o seu financiamento.
O Orçamento de 2011 partiu de estimativas feitas em 2010 pelas autoridades americanas de informação sobre as questões energéticas relativamente ao preço médio do petróleo durante este ano (2011). As estimativas eram de que ele seria de 68 USD/barril.
Ora, principalmente devido à instabilidade política que se tem verificado na Líbia e em outros países árabes, a realidade é que durante os primeiros 3 meses deste ano o preço médio do petróleo do tipo WTI, o que interessa a Timor Leste, foi de 93,8 USD/barril. "Só" mais 40% (quase, quase...). Claro que as receitas petrolíferas do país beneficiaram desta evolução: só nos dois primeiros meses o país recebeu no total cerca de 480 milhões de USD (contra 311 em Jan e Fev de 2010), elevando o saldo do Fundo Petrolífero no fim de Fevereiro para 7411 milhões de dólares (para alguns 7,4 biliões).

sábado, 2 de abril de 2011

Post scriptum

Post scriptum à "entrada" anterior: depois de a publicar reparei que não tinha justificado suficientemente o porquê de se ser mais "tolerante" em relação aos países em desenvolvimento comparativamente com os países desenvolvidos.
Claro que não é uma verdadeira questão de tolerância ditado por qualquer sentimento do tipo "coitadinhos!, não são capazes de controlar a sua inflação a um nível mais "exigente, dos 2-3%".
O que está verdadeiramente em causa é que estes países, exactamente por estarem "em desenvolvimento", precisarem de mais investimento e outras despesas (nomeadamente públicas e privadas) para crescerem mais depressa. Isso traduz-se na necessidade de mais dinheiro em circulação e isto traz consigo, em geral, maior pressão sobre os preços. Daí a tendência a nestes países a taxa de inflação ser superior à dos países mais industrializados/economicamente avançados.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Qual é a taxa de inflação boa para Timor Leste?

Não sei!... :-)

Expliquemo-nos. Há alguns dias um leitor, comentanto uma das "entradas" em que se falava da taxa de inflação em Timor Leste e da sua subida nos últimos tempos até valores que começam a dar alguma preocupação, perguntava-me qual seria a taxa de inflação mais "indicada", "apropriada", para o país nesta fase do seu desenvolvimento.
Posta a questão assim, um pouco "às secas" como se costuma dizer, a resposta dificilmente poderá deixar de ser a que dei acima.

Mas vejamos um pouco mais além...
Entre os economistas corre há muito tempo a ideia de que uma taxa de inflação "recomendada", aceitável, para a maioria dos países --- subentenda-se aqui "mais desenvolvidos" --- é uma taxa algures em torno dos 2%. No máximo, algures no intervalo entre os 2 e os 3%.
Porquê este valor? Mania de economistas? Sim mas não só... Não há nada na ciência económica que demonstre que deve ser este e não outro valor. E no entanto...
O que há é um certo convencimento de que este intervalo é o que satisfaz duas "necessidades" fundamentais para o bom fucionamento de uma economia: (1) ser suficientemente "alta" para incentivar os produtores a produzirem, sendo como que a pitada de sal que deve ter o pão ou a pitada de fermento que faz crescer os bolos...; e (2) ser suficiente para não provocar alterações do comportamento "normal" dos agentes económicos --- por exemplo, se as taxas de inflação forem muito altas os compradores podem decidir comprar hoje (mais barato) do que amanhã (ainda mais caro), ajudando a empurrar a inflação ainda mais para cima.

Temos, pois, que a "Economia" --- ou os economistas? --- preferem taxas de inflação de cerca de 2-3% --- pelo menos no caso dos países economicamente mais avançados.
Será este o nível de inflação "bom" para Timor Leste neste momento? Tendencialmente sim mas a verdade é que no caso dos países em desenvolvimento se é um pouco mais "tolerante", admitindo-se que taxas em torno dos 4% --- no máximo dos máximos até aos 5% --- são ainda "aceitáveis", "toleráveis" --- apesar do corte no poder de compra das camadas já mais pobres da população que significam. Mas, como disse, não há demonstração econométrica de que isto seja a verdade verdadeira...
Mas seria bom se os decisores de política económica (em geral e não apenas os de política monetária) fixassem para já como seu horizonte (como fasquia mais alta) uma taxa desta odem de grandeza. Os 2-3% ficariam para um pouco mais tarde... Mas não para as calendas gregas, para dia de São Nunca à tarde!...
Valeu?

PS - isto foi escrito no dia 1 de Abril, tradicionalmente considerado como o "dia das mentiras". Mas escrevi tudo muito a sério... ;-)

terça-feira, 29 de março de 2011

Inflação em Timor Leste: sempre a subir...

A Direcção Nacional de Estatísticas publicou recentemente os dados sobre a evolução do Índice de Preços no Consumidor em Dili. Deles se retiram as taxas de inflação que figuram no quadro abaixo:


Por ele se pode verificar, nomeadamente, que a taxa mensal de inflação passou de 1,1 em Janeiro para 3,7% em Fevereiro de 2011, uma aceleração significativa que fez passar a taxa média anual dos 7,2% em Janeiro para os 7,7% em Fevereiro.
Olhando para as taxas de inflação por grupos verifica-se que a alimentação, cujo peso no "cabaz de compras" que serve de base ao cálculo do IPC é de 56,7%, aumentou 13,1% entre Fevereiro de 2010 e o mês homólogo deste ano. Esta é uma subida que se fica a dever, entre outras, às de 8,8% no preço dos cereais (quase só arroz), 17% no das "carnes e derivados" e 28,6% nos "vegetais e especiarias".
Os transportes --- incluindo os combustíveis --- estão agora cerca de 12% mais caros que há um ano atrás, para o que contribuíu significativamente a recente subida do preço dos combustíveis: o gasóleo, por exemplo, passou dos 1,03 USD para 1,16 USD/litro durante os meses de Fervereiro e Março.

De notar que se é verdade que vários dos produtos são importados e, por isso, dependentes dos preços na importação, também não é menos verdade que vários dos produtos que subiram de preço são de origem nacional, o que dá a entender que existe um fosso crescente entre a procura e a oferta que os vendedores aproveitam para aumentarem os preços. Esse "gap" pode, cremos, estar ligado ao aumento significativos dos gastos públicos.

Por fim e por comparação, refira-se que na vizinha Indonésia, nossa principal fornecedora, as variações mensais dos preços em Janeiro e Fevereiro de 2011 foram, respectivamente, de 0,89% no primeiro mês do ano e de 0,13% no segundo, muito abaixo dos 1,1 e 3,7% verificados entre nós.

segunda-feira, 21 de março de 2011

A economia de Timor Leste tal como vista pelo Banco Mundial

O Banco Mundial acaba de publicar um update das suas análises sobre a evolução da economia da Ásia-Pacífico como um todo e de vários dos seus países em particular. O relatório pode ser encontrado aqui.

Nas suas páginas 103 e 104 pode encontrar-se a análise sobre a evolução recente da economia de Timor Leste (clique nas imagens abaixo para as aumentar e tornar o texto legível, sff):


sábado, 19 de março de 2011

Evolução da taxa média anual de inflação em Timor Leste

O gráfico abaixo ilustra a evolução da taxa média anual de inflação em Timor Leste. Note-se a crescente subida no último ano e a actual taxa de 7,2%.


No momento em que foram publicados os diplomas criando oficialmente os dois fundos especiais previstos no OGE2011 é especialmente oportuno recordar o apelo a alguma moderação das despesas públicas feito ainda recentemente pelo FMI para evitar que a taxa de inflação suba ainda mais.
De facto e como já tem sido salientado uma e outra vez, numa situação de inexistência da maior parte dos instrumentos da política monetária usualmente utilizados para controlar a inflação, moderação nos gastos públicos é das poucas políticas eficazes no controlo da subida dos preços e consequente perda de poder de compra e de nível de bem estar dos mais pobres.
Assegurar uma taxa de inflação baixa-moderada é, mesmo, uma das principais políticas contra a pobreza.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Finalmente, o esperado relatório do FMI sobre a economia de Timor Leste

Depois de em Outubro passado ter estado em Timor Leste uma missão do FMI para recolher elementos para o relatório anual que usualmente publica sobre cada um dos seus membros, o Fundo Monetário Internacional acaba de publicar a sua análise sobre a economia do país.

As duas imagens abaixo (clicar nelas para aumentar o tamanho) retratam as suas principais conclusões/recomendações e algumas informações estatísticas relevantes.


Nas recomendações acima permitimo-nos assinalar especialmente (a amarelo) aquelas que nos parecem essenciais: por um lado, a de é necessário um ritmo de crescimento das despesas de capital mais moderado de modo a poder ser acompanhado pelas necessárias melhorias dos limites impostos pela [fraca] capacidade interna de produção --- e, acrescentaríamos nós, pelas melhorias da capacidade de implementação; e, por outro, a necessidade de um abrandamento do ritmo de cresciemento dos gastos públicos para diminuir as pressões inflacionistas que eles [e outros factores] estão a gerar na economia nacional.

domingo, 6 de março de 2011

A inflação, o arroz, os combustíveis...

Na "entrada" anterior constatámos que a taxa de inflação em Timor Leste (taxa média anual) passou de 6,5% em Dezembro/10 para 7,2% em Janeiro/11. Esta subida está relacionada, nomeadamente, com a subida do preço do arroz.
No gráfico abaixo pode ver-se a evolução (em índice, com Fev2008=100) do preço do arroz em Timor Leste (não esquecer que na maior parte do período o arroz "do governo" foi dominante no mercado, "expulsando" deste as importações comerciais). No gráfico pode ainda ver-se a evolução (em índice), no mesmo período, do preço, no consumidor, do arroz na China, no Bangladesh e na vizinha Indonésia. Neste momento, a evolução do preço em Timor é semelhante à da Indonésia: tal como neste país, custa actualmente quase 1,5 vezes mais que em Fev2008.


Face aos recentes (significativos) aumentos do preço dos combustíveis, não será de admirar que em Fevereiro e Março se venham a sentir taxas de inflação ainda superiores. Note-se que até é provável que a taxa venha a estar (como já está...) um pouco "desvalorizada" já que se continua a utilizar como base do cálculo do IPC a estrutura do consumo em Dez2001, em que o peso dos combustíveis é, acreditamos, muito mais baixo (pouco mais de 1% do orçamento familiar) do que a realidade actual, em que a disseminação de automóveis e motos faz antever uma subida (importante?) do peso dos combustíveis na estrutura do consumo das famílias de Dili.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Taxa de inflação em Timor Leste

Em Janeiro passado a subida dos preços relativamente ao mês anterior (Dezembro de 2010) foi de 1,1%. Nos três anos anteriores (2008 a 2010) a mesma taxa mensal foi, em média, 1%.
Aquela subida de 1,1% dos preços trouxe como consequência que a taxa de inflação em Janeiro deste ano relativamente a Janeiro do ano passado (inflação homóloga) foi de 8,3%. No ano passado tinha sido de 3,7%.
Por sua vez, a taxa média anual de inflação (crescimento da média do Índice de Preços no Consumidor nos 12 meses terminados em Janeiro2011 face à mesma média dos doze meses terminados em Janeiro de 2010) foi de 7,2%.
Esta é a taxa considerada mais correcta pelos economistas, sendo a preferida pelas instituições económicas internacionais para medirem a inflação num país. Ela significa que, em média, os consumidores (que somos todos nós...) perderam um pouco mais de 7% do seu poder de compra --- se os seus rendimentos não foram aumentados na mesma medida, que é o que tende a acontecer com quem recebe salários ou outros tipos de rendimentos fixos. 

terça-feira, 1 de março de 2011

Ainda sobre o financiamento do Estado pelo Banco Central

Em texto em que se se avaliam vários aspectos da relação entre um banco central e o governo, diz-se a certa altura a propósito do financiamento do défice fiscal pelo banco central:

"... the financial position of central banks may still be threatened as a result of lending to governments which is made under inappropriate conditions. In order to minimize this possibility, central banks should preferably acquire government securities in the open market within the margins allowed by the limits. Any other form of government borrowing from the central bank on the other hand should be exceptional and subject to market-related interest rates and conditions. The determination of maintaining fiscal discipline at all times, keeping public sector financial needs within the margins allowed by the kind of structural constraints, has primary importance in facilitating a predictable and prudent central bank behaviour regarding the financing of governments."

De realçar a referência ao facto de se aconselhar a que não haja, em princípio, empréstimos do banco central ao Governo e que, se ainda assim estes existirem, o devem ser à taxa de juro de mercado.
Um dos problemas neste momento em Timor Leste é o de que, se tal financiamento existisse, não se saber ao certo qual é a referida "taxa de juro de mercado" já que não existe um mercado interbancário que ajude a defini-la.