sexta-feira, 9 de abril de 2010

Novos dados sobre a economia de Timor em relatório do Banco Mundial sobre a Ásia

O Banco Mundial acaba de publicar um relatório sobre a evolução recente da economia asiática. Dele retirámos a seguinte informação.






Neste último quadro notem-se as previsões para a evolução da produção de Timor Leste: depois de ter crescido 7,4% em 2009 --- onde, raios, terão ido buscar a taxa de 16% referida há pouco tempo pelos jornais?!... ---, prevê-se para este ano uma taxa de 7,5% e no próximo ano novamente 7,4%.
Isto é: aparentemente o país, graças particularmente à forte injecção de recursos na economia através dos gastos do Estado, está a conseguir assegurar um crescimento estável de cerca de 7,5%. Devido ao forte crescimento populacional (que rondará os cerca de 3%/ano) o rendimento per capita tem melhorado cerca de 4,5%/ano, o que é uma taxa apreciável.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Evolução do preço internacional do arroz

A FAO divulgou hoje os números sobre a evolução do preço do arroz no mercado internacional entre Março de 2009 e Março passado.

Da sua consulta resulta o gráfico abaixo para a evolução do preço por tonelada dos dois tipos de arroz vietnamita que são acompanhados (o de melhor qualidade, com apenas 5% de grãos partidos, e o de menor qualidade, em que esta percentagem chega aos 25%; o comercializado em Timor como "arroz do Governo" é de qualidade intermédia: 15%).

Note-se a quebra de 1/4 entre Dezembro de 2009 (mês mais caro dos últimos doze meses). Segundo estes números o preço por quilo do arroz mais barato era, em Dezembro passado, de quase 49 cents. Em Março era de 36 cents.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

E não acham esquisito?!... Será que as contas foram bem feitas?

Em declarações recentes veiculadas pela imprensa Agio Pereira terá dito que

Timor-Leste é um exemplo perfeito [de Estado frágil e dos efeitos da ajuda internacional]. Apesar de terem sido gastos milhares de milhões de dólares no desenvolvimento do país desde a independência, provenientes de parceiros de desenvolvimento e da própria riqueza petrolífera recém-adquirida, a pobreza aumentou para o dobro entre 2001 e 2007"

Isto, a ser tomado pelo seu valor facial --- que não pode ser pois a pobreza NÃO aumentou para o dobro mas sim de cerca de 40% para cerca de 50% segundo as estatísticas ---, denota uma enoooooormeeeee ineficiência da ajuda internacional e, mesmo, das políticas internas de combate à pobreza.
Porém, há que não pôr de parte uma segunda ou, mesmo, uma terceira hipótese: a de que as contas foram mal feitas... Ou que houve uma combinação das duas coisas...

Eu, pessoalmente, acho tão esquisita esta evolução que tendo a acreditar mais que as contas foram mal feitas --- ou pouco "bem feitas"... --- em algum momento do tempo. Provavelmente os dados do primeiro inquérito (de 2001) estão subavaliados e na ocasião a pobreza era muito maior do que o que os números mostram.
Um documento do Banco Mundial sobre a pobreza em Timor Leste em 1999 (sob administração indonésia) diz textualmente que

"1. Este anexo contém uma perspectiva geral da pobreza em Timor Leste, com base
em dados indonésios recolhidos até 1999.
2. Durante 1999, 56% da população timorense estava classificada como pobre,
implicando que cerca de 500.000 pessoas viviam em pobreza
." (vd aqui)

Como é possível que dos 56% de 1999 se tenha passado aos 40% de 2001 depois do que se passou? Isto é: há aqui qualquer coisa que não bate certo...

Em contrapartida, estarão os dados de 2007 sobreavaliados? Se compararmos as metodologias seguidas num caso e noutro a resposta é clara: o inquérito de 2007 (e os seus resultados) são muito mais credíveis dos que os do início da década.

Mas há uma outra situação que pode ter inflenciado os resultados dos inquéritos: ambos foram efectuados depois de situações traumáticas muito fortes: o primeiro após a violência de 1999 e o segundo depois da de 2006 e quando algumas zonas do país estavam ainda pejadas de campos de refugiados.
Isto é: situações conjunturais podem ter influenciado significativamente as respostas dos inquiridos.

Mas o que é mais relevante é que a pobreza é muita --- fará realmente diferença que seja 50% ou 40%?!... --- e se concentra principalmente nas zonas rurais do país. Ora, os dados dos inquéritos querem, pelo menos, dizer uma coisa: que a política de desenvolvimento rural não está a resultar... O que nos leva à pergunta seguinte: será que está a haver MESMO uma política de desenvolvimento rural?

Tenho para mim que "Roma e Pavia não se fizeram num dia" e por isso admito que uma estratégia de desenvolvimento rural possa/deva ser "casada" com uma de desenvolvimento regional através, or exemplo e para já, da definição de uma zona piloto em que se proceda a um desenvolvimento integrado e se aprenda a lidar com o assunto de forma a posteriormente estender a experiência ao resto do país.
O que exige, provavelmente, a definição de um órgão gozando de alguma autonomia e que tenha poderes "substraídos" a vários ministérios (pois... Esse vai ser um dos problemas: convencer os Ministros...) de modo a poder desenvolver uma política efectivamente integrada de desenvolvimento (rural e regional). Um exemplo --- outros podem ser imaginados --- seria uma associação dos distritos de Manatuto, Baucau e Viqueque.

Querem experimentar?

terça-feira, 6 de abril de 2010

Ainda os dinheiros do Fundo Petrolífero

Para que chegava o saldo actual do Fundo Petrolífero de Timor Leste? Por exemplo para pagar a linha Lisboa-Porto do TGV... Sem derrapagens no custo --- o que seria milagre!
Bele, Drª Emília?


Foto a partir de http://jn.sapo.pt/multimedia/infografia.aspx?content_id=1181253

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Ainda a propósito das declarações de Jeff Sachs

Já referi abaixo o essencial das considerações (parte delas muito críticas) em relação às recentes declarações do Jeffrey Sachs sobre a economia de Timor Leste. Um indivíduo com o nome dele não pode cair na fraqueza de, por um punhado de dólares, ir a um país de que quase nunca ouviu falar para fazer uma visita de turista --- meia dúzia de dias ... E será que saíu do hotel e dos gabinetes?!... ---, falar com "A" e "B", apanhar umas ideias no ar e "zás, trás, catrapás, pás, pás!..." "aqui têm a receita para o vosso desenvolvimento". E se o levarem a sério e as coisas correrem para o torto? É que não era a primeira vez... (vidé algumas críticas ao seu trabalho aqui e aqui).

Será que tomou consciência, por exemplo, das dificuldades de execução orçamental? E será que existe capacidade para gastar anualmente muito mais do que está a ser gasto sem desperdício significativo de recursos? E quais as consequências de uma eventual "explosão" de gastos públicos sobre o resto da economia, nomeadamente em termos de inflação e de (ainda maior) desequilíbrio na balança comercial?
Alguma moderação nas palavras teria sido (muito) bem vinda...
E a propósito: sabendo-se que o Primeiro-Ministro está a elaborar as linhas de força do plano de desenvolvimento para os próximos 20 anos, será que quem convidou Sachs (não sei quem foi) não teve como objectivo (encapotado?!...) enviar "recados" ao PM e ao governo?

Na passagem fulgurante de Jeff Sachs pelo país é curioso que nada tenho sido dito sobre um sector que considero fundamental e que, no curto-médio prazo, pode dinamizar mais a produção nacional --- e não a da Indonésia... --- do que alguns dos investimentos de que Sachs falou: o da habitação e do saneamento básico no contexto de um verdadeiro reordenamento do território --- particularmente em cidades como Dili e Baucau mas também em algumas outras capitais de distrito (Maliana, Aileu, Lospalos e Suai só para citar algumas).

É sabido que o sector da habitação --- para quando uma política habitacional "casada" com uma política de reordenamento do território e de saneamento básico naquelas duas cidades, pelo menos? --- é dos que têm uma menor componente importada e que geram mais emprego quer na fase de construção quer na de decoração (mobiliário, etc). É também um sector que pode dar trabalho a muitas pequenas e médias empresas de timorenses, assim ajudando o empresariado nacional a "crescer", melhorando tecnica e financeiramente.
Fundamental para evitar que tudo fique entregue a uma série de "patos bravos" que repliquem no país o que se fez em Portugal com as famosas "casas tipo maison com janelas tipo fenêtre" e forradas por fora com azulejos de casa de banho --- cujo equivalente em Dili é o uso do verdinho e do amarelinho nas pinturas exteriores de que nem o gradeamento do palãcio presidencial escapou... --- é que sejam organizados gabinetes de arquitectura que definam alguns tipos-padrão de habitações cujos planos deverão ser disponibilizados gratuitamente. Tais gabinetes terão, muito provavelmente, de ser inicialmente assessorados por técnicos estrangeiros.
Para garantir que a contrução segue mínimos de qualidade o Estado poderá dar alguns incentivos, nomeadamente encarregando-se do financiamento de parte das despesas de ordenamento do espaço a construir (arruamentos, esgotos, etc).

Porque esperam?

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Fundo Petrolífero de Timor Leste: cerca de 5750 milhões/USDS

Segundo a informação mensal sobre a gestão do Fundo Petrolífero publicada recentemente pela Autoridade Bancária e de Pagamentos, a entidade encarregue da sua gestão corrente, este tinha, no final de Fevereiro e numa avaliação a preços de mercado do dia, um valor acumulado de cerca de 5750 milhões de dólares americanos, cerca de 4300 milhões de euros.




Destes, quase 20% estão sob administração do BIS-Bank of International Settelements [Banco de Pagamentos Internacionais], uma instituição financeira internacional que assinou a meio do ano passado um contrato de gestão com a ABP.
No cumprimento do que são as normas orientadoras constantes da Lei do Fundo Petrolífero (que poderá/deverá vir a ser revista este ano, passados 5 anos da sua publicação), o BIS tem autorização (e usou-a) para aplicar uma parte (menor) dos recursos sob sua administração em títulos denominados em outras moedas que não o dólar norte-americano --- ao contrário da ABP que tem no seu "portfolio" apenas títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

terça-feira, 30 de março de 2010

Economista não é bruxo!...

Vem este título a propósito da notícia divulgada hoje sobre declarações de Jeffrey Sachs proferidas recentemente em Timor-Leste (ver aqui, sff).
Provavelmente um dos mais conhecidos economistas ligados às questões do desenvolvimento devido à sua ligação ao projecto relativo ao acompanhamento da prossecução dos "Objectivos do Milénio", habituei-me desde há muito a admirar o seu trabalho. Mas... isso não significa que esteja de acordo com determinadas "tiradas" que, na minha opinião, têm muito mais de política (com letra pequena) que de Economia (com letra grande). As suas afirmações feitas em Timor-Leste e a propósito do futuro económico do país são uma "salganhada" de Economia, de política e de... "bruxaria" (?).

Na verdade, as partes em que se aproxima mais da primeira é quando diz que o "Governo precisa de ser esperto na maneira como gasta os biliões de dólares de rendimentos do petróleo e do gás [natural]" e quando aponta como áreas fundamentais para esse gasto os do "investimento em capital humano, infraestruturas e sectores em desenvolvimento como o turismo e a agricultura".

Por outro lado, já anda perto da política e, quiçá, de alguma "bruxaria" quando diz que "a Ásia está a apanhar os países mais desenvolvidos [é esse o sentido da expressão "catching up"] e que --- note-se que o que se segue não surge com as tradicionais aspas que assinalam uma citação ipsis verbis de um autor pelo que ele pode ter dito algo (ligeiramente?) diferente --- Timor-Leste "cavalgará a onda regional para uma maior prosperidade".
Claro que isto é o que todos desejamos mas daí a tomar como certo este futuro vai alguma distância que os economistas que são só e apenas isso não se atreveriam a afirmar com tanta certeza. Mas que, mais uma vez, se deseja que tal aconteça e, mais, que tal é o que é mais "natural" que venha a suceder, não há dúvida. Mas sendo assim esta é das tais afirmações "lapalissianas" que "não aquecem nem arrefecem"... Aliás, com (proporcionamente) tantos recursos disponíveis, mal estaria o país se isso não acontecesse.

Onde --- a acreditar na notícia do jornal --- ele está nitidamente pior é quando diz que "o Governo precisava de injectar os rendimentos do petróleo e do gás, num montante de cerca de cinco mil milhões [5 biliões na terminologia anglófona] de dólares, na economia".
E agora sim, com aspas assinalando citação das suas próprias palavras: "Vocês não precisam de comprar títulos do Tesouro dos Estados Unidos". "[Do que precisam] é investir no vosso próprio futuro e por isso, melhor que amontoar este grande montante de dinheiro, é usar os fundos para investir em infraestruturas, capital humano [i.e, formação/educação das pessoas], modernização da agricultura, desenvimento do sector de hidrocarbonetos [curioso o facto de noutro local não ter referido este sector] e outras áreas".

Aqui o homem foi longe de mais... Não há um único economista digno desse nome que não saiba que nas ciências sociais, em geral, e na Economia, em particular, nada é "preto" ou "branco", ou fazes "isto" ou fazes "aquilo". TUDO são zonas cinzentas, nuns casos mais escuros, noutros mais claros. Há sempre várias soluções, várias combinações de "o que fazer", e a "arte do artista/economista" é exactamente determinar a(s) combinação(-ões) que maximizem o que gostamos de chamar a "função de bem estar social".
Ir a uma assembleia como a que se reuniu em Dili para dizer o que ele disse tem um nome: DEMAGOGIA. E a demagogia anda, por vezes, de braço dado com a "bruxaria"...

Ele poderia (e devia) dizer que a preocupação de muitos em deixar dinheiro para as gerações futuras só faz sentido se, para além disso, se deixarem também outras coisas que têm de ser "construídas" "hoje" e não "amanhã".
O que fazem os (bons) pais? Acumulam dinheiro e mais dinheiro para deixarem aos filhos mas deixam-nos analfabetos ou, pelo contrário, preferem investir na educação dos filhos HOJE para lhes dar as ferramentas para eles próprios tomarem o seu futuro nas suas mãos --- se for possível deixar também uma casinha e uns tostões na conta bancária, melhor...
Mas o essencial, como eu próprio costumo dizer em relação aos meus pais, é "deixar um curso e uma 'espinha direita'" (isto é, um comportamento social irrepreensível q.b., o "bom nome").

Enfim... Feitios!...

sexta-feira, 12 de março de 2010

Aprovada a Lei das Terras

Segundo notícias provenientes de Dili o Governo aprovou hoje a Lei das Terras.


Díli, 12 mar (Lusa) - O Governo de Timor-Leste aprovou as propostas de Lei das Terras, reservando para os cidadãos nacionais a propriedade plena e excluindo os estrangeiros, anunciou hoje fonte do Conselho de Ministros.

O texto do Regime Especial para a Definição da Titularidade de Bens Imóveis (Lei das Terras) aprovado em Conselho de Ministros, a que a Lusa teve acesso, veda a propriedade plena a cidadãos estrangeiros, em conformidade com a Constituição, mas também a sociedades.

No que respeita aos estrangeiros a título individual, a proposta de Lei determina que os bens imóveis de estrangeiros titulares de direito anterior revertam para o Estado, salvaguardando que podem continuar a utilizá-los por meio de contrato de arrendamento com o Estado timorense.


Estas normas não alteram, no essencial, a lei actualmente em vigor. Face à história do país, compreende-se o objectivo a alcançar: limitar a capacidade de cidadãos indonésios reivindicarem terras que terão adquirido em condições que se sabe que não foram, por vezes, as mais "normais".
Naturalmente serão também afectados alguns cidadãos portugueses. Num e noutro caso só aqueles que tiverem direito à dupla nacionalidade poderão ambicionar recuperar a titularidade de propriedades a que se julguem com direito.
Recorde-se que a lei aprovada se aplica à terra e não aos edifícios e outras benfeitorias que estejam implantadas nessas mesmas terras.

Afectadas pela decisão são também as sociedades não-timorenses. Porém, se constituirem empresas de direito timorense essa limitação pode ser ultrapassada. É o que muitas farão, certamente.

A questão do direito à terra é importante para qualquer sociedade e numa perspectiva económica é uma importante condicionante do investimento --- nomeadamente do investimento estrangeiro, de que Timor Leste tanto necessita "por todas as razões e mais algumas", como costuma dizer-se.
Veremos como os investidores reagem a esta situação mas a verdade é que normalmente eles gostam de ter a propriedade plena da terra. No entanto, as restrições sobre o direito de propriedade da terra são comuns a outros --- senão quase todos... --- os países da Ásia Oriental e não é isso que tem impedido que alguns deles tenham sido capazes de atrair um forte nível de investimento estrangeiro desde que lhe seja assegurado um horizonte alargado de propriedde "económica" (mas não jurídica) da terra.

quinta-feira, 11 de março de 2010

"Sera t'il?!..." como dizem os franciús?!...

Surgiu há dias nos jornais (Suara Timor Lorosa'e) a notícia abaixo em que se dá conta de que, segundo a Direcção de Macroeconomia do Ministério das Finanças (o verdadeiro gabinete de estudos e de apoio à Ministra) a taxa de crescimento do país terá sido de cerca de 16% em 2009.



A metodologia indicada parece-nos demasiado simplista e susceptível de criar erros consideráveis quando confrontados com as estimativas feitas por outras vias, com um tratamento mais cuidadoso dos dados. Por isso vemos com algumas reservas esta informação --- que será provisória, anunciando-se a publicação em Abril de dados mais rigorosos. Pena é, no entanto, que não seja dada desde logo informação sobre se os valores encontrados são a preços correntes ou a preços constantes.

Os "preços correntes" são aqueles que pagamos no dia a dia --- no caso em 2009 --- e a fórmula de cálculo que terá sido utilizada (a "velhinha" igualdade base da Contabilidade Nacional PIB= C + G + I + X - M , isto é, o Produto Interno Bruto é igual à soma algébrica dos valores do Consumo, dos Gastos Públicos, do Investimento, das eXportações e (a descontar...) as iMportações) faz suspeitar --- "suspeitar" apenas, sublinhe-se --- que poderão ter sido usados nos cálculos esses preços. A verdade, porém, é que os cálculos devem ser efectuados a "preços constantes" --- por exemplo, calcular o valor da produção de 2007, 2008 ou 2009 com os preços de um ano-base (ex: 2000) --- para eliminar o efeito da taxa de inflação.

Aguarda-se, portanto, um esclarecimento sobre os valores efectivamente utilizados. É que se foram os preços correntes então há que descontar a taxa de inflação. Que noutra notícia recente se diz ter sido de 7% (método de cálculo também a esclarecer já que muito diferente dos 3,6% referidos pela Direcção Nacional de Estatística do Ministério das Finanças). Isto é: 16% - 7% = 9%.

Não estamos a dizer que as contas FORAM mal feitas e que a taxa real de crescimento foi de 9% e não de 16% como anunciado. Seria um erro demasiado crasso que economista nenhum cometeria.

O nosso "ponto" é apenas o de que quando se dão estas informações elas devem ser acompanhadas desde logo dos elementos necessários para o leitor/observador/comentarista aquilatar da qualidade da informação disponibilizada. Caso contrário alimentam-se dúvidas, incertezas, absolutamente desnecessárias e que "se viram contra o feiticeiro".

terça-feira, 9 de março de 2010

La komprende, senhor Ministru!

Os jornais de Timor divulgaram recentemente declarações do Ministro da Economia, Joe Gonçalves, em que ele afirma que a taxa de inflação, "comparando com o ano passado", é de 7%:

"Díli - O ministro do Desenvolvimento e Economia (MED), João Gonçalves disse que, a estas horas, a inflação de Timor Leste atingiu 7%, comparando com o ano passado Timor Leste enfrenta uma crise grande.
De acordo com ele esta inflação está a acontecer porque TL depende grandemente de outras nações, mas por isso mesmo o governo começou a baixar logo os subsídios.
"Esta inflação está num nível aceitável, o governo tem subsídios para alguns produtos que são bastante consumidos em TL, então o governo dá subsídios para nós controlarmos a inflação dentro desta terra", disse ele." [tradução de RP]


Estranhei o valor de 7% --- que, na verdade, não tem nada de "razoável"... --- e fui consultar os últimos dados divulgados pela Direcção Nacional de Estatística, um organismo oficial integrado no Ministério das Finanças.
Ora, os dados da DNE dizem que a taxa de inflação homóloga --- i.e., um mês relativamente ao mesmo mês do ano anterior --- foi de 1,8% em Dezembro de 2009 (i.e., a taxa de inflação do conjunto do ano de 2009 terá sido de 1,8%), tendo "saltado" para o dobro (3,6%) em Janeiro passado comparativamente a Janeiro de 2009. Esta subida deve-se, em parte, à subida de 1,9% dos preços apenas em Janeiro/10 relativamente a Dezembro/09.

Já temos salientado algumas vezes que acreditamos que a desactualização do cabaz de compras com base no qual é calculado pela DNE (tem por base dados de Dezembro de 2001, há 8 anos!) o IPC-Índice de Preços no Consumidor será responsável por alguma subavaliação da taxa de inflação oficialmente determinada.

Porém, daí a esperar que o valor efectivo seja de 7% vai alguma distância. Por isso seria interessante saber como é que o Ministério da Economia e do Desenvolvimento chegou a este valor, tão diferente do do Ministério das Finanças. Recordamos também que a última estimativa conhecida efectuada pelo FMI foi de que a taxa em 2009 seria de 2%, muito próxima dos 1,8% calculados "de facto".
"Não dá a bota com a perdigota"...

Mas há mais nas declarações do Sr. Ministro: a acreditar no jornal ele terá dito que "o governo dá subsídios para nós controlarmos a inflação dentro desta terra".
Pois... De facto, se se subsidiarem os preços --- como se está fazendo com o arroz --- estes serão artificialmente baixos. O "probrema" é que esta é a maneira errada de controlar a inflação... Há que procurar quais são os mecanismos de formação dos preços e tentar actuar sobre eles usando o mais possível as "leis do mercado" em vez de as substituir pelas "leis administrativas" da concessão de subsídios.
Reparem que se um preço aumentar deverá sentir-se uma tendência à diminuição do seu consumo, reduzindo assim a importação --- no caso de ser um produto importado, como são muitos deles. Isto, face à situação concreta do país, é uma coisa boa pois TimorLeste está a gastar muitos (demasiados?) recursos em compras ao exterior, recursos esses que poderiam ser melhor utilizados no país.
Mais: esta subida poderá ter/tem também um valor quase "pedagógico" pois assim as pessoas habituam-se mais a ter comportamentos económicos racionais: se o produto está mais caro há que reduzir o seu consumo, eventualmente encontrando alternativas mais baratas. E assim se vai adaptando também o padrão de consumo do país (qualidade e quantidade) aos recursos efectivamente disponíveis, não "enganando" os mecanismos de mercado (e as pessoas) com a concessão de subsídios que devem ser, quando existentes, reservados apenas àqueles grupos sociais especialmente vulneráveis por serem mais pobres.
Subsídios para todos não fazem sentido sob o ponto de vista económico --- nem, verdadeiramente, sob o ponto de vista social pois são injustos --- embora se compreenda que os custos de montagem de um sistema "discriminatório" possam desencorajar a sua concretização. Mas se a "facilidade" fosse critério nada do que é mais difícil seria feito, não é verdade?

"Chercher la femme!" [literalmente "procurar a mulher"] ou, melhor dizendo, procurem-se com cuidado as verdadeiras fontes da subida dos preços e actue-se no sentido de, utilizando ao máximo os mecanismos de mercado, tentar limitá-la. Proceder de outra forma é estar a construir um edifício sobre bases falsas.