quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O Banco Mundial pubicou ontem um relatório intitulado East Asia Pacific Update; nele figura muita informação sobre a situação económica actual da região da Ásia-Pacífico, incluindo fichas de análise de várias das economias da região.
O que segue abaixo é a ficha de país de Timor-Leste.




quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Notas soltas sobre o OGE2010 - 1

Há alguns dias atrás um amigo desafiava-me a tecer alguns comentários sobre o OGE2010 "olhado" na perspectiva da luta contra a pobreza. Tarefa difícil quando os Orçamentos não são construídos dentro dessa lógica e quando, sejamos honestos, não existe um receituário concensual sobre o que fazer (e o que fazer em primeiro lugar...) na luta contra a pobreza.
Confesso que, por ter outras tarefas inadiáveis entre mãos, não tive tempo de espreitar os números do Orçamento com o cuidado que se exige para uma análise deste tipo.
Por isso acabei por dar apenas duas ou três ideias sobre o assunto.

Uma delas é a de que a luta contra a pobreza se faz HOJE com, nomeadamente, a criação de infraestururas rurais que permitam às pessoas e aos bens circularem com mais facililidade e com a criação de empregos nas zonas mais pobres, as zonas rurais de Timor Leste. Esses empregos podem ser (devem ser?) adaptados às condições locais, em que as qualificações da mão de obra não são muito grandes e muita gente vive NA e DA agricultura.
Por isso esquemas de apoio ao desenvolvimento da agricultura e de comercialização dos produtos agrícolas serão sempre benvindos. Tal como a construção de infraestruturas, sejam elas escolas, postos de saúde ou estradas, por exemplo.
Isto é, a luta contra a pobreza deve insistir principalmente na criação de mecanismos de emprego --- "dinheiro contra trabalho" --- e não em mecanismos do tipo redistributivo, assistênciais. Estes devem ser reservados apenas àquela camada da poplação que, por mais idosa ou por outras razões, não pode assegurar a sua subsistência a um nível considerado como mínimo.
Mas mesmo aqui é necessário ter-se em atenção que a tradição europeia do "Estado Social", redistributivo, não é partilhada por todo o mundo, nomeadamente na maioria dos países asiáticos.
Nesta perspectiva, Timor Leste, com o seu sistema de pensões, está algo fora do que é mais usual na região, o que, se para uns é valorado positivamente para outros será olhado com alguma desconfiança até pelas responsabilidades permanentes a que obriga o Estado hoje e no futuro.

Mas o que mais me preocupa é a luta contra a pobreza AMANHÃ (ou melhor e se quiserem, a pobreza DE AMANHÃ).
Esta tem como instrumento poderosíssimo a educação e todo o tempo que se perca hoje dificilmente será recuperado no futuro pois a reprodutividade dos investimentos nesta área só se sente a mais longo prazo.
Ora, experimentei espreitar os valores previstos para seren gastos na educação e compará-los com os de outros países. Alerto, no entanto, para o facto de poder, eventualmente, estar a comparar dados que não são estritamente comparáveis... mas que são os que tenho à mão.

Assim, o OGE2010 prevê um orçamento para o Ministério da Educação (64 milhões USD) que representa cerca de 10% do Orçamento global (637 milhões). A estes gastos poderão adicionar-se os quase 30 milhões a serem suportados pelos doadores (quase mais 50% do orçamento do Ministério, o que é uma percentagem importante). Se somarmos estes dois valores (94 milhões) e compararmos com a soma do OGE e das despesas a serem suportadas pelos doadores) 198 milhões) nas mais diversas áreas e nos mais diversos tipos de despesas (correntes, de capital, etc) temos que as despesas de educação em relação aos gastos públicos serão de cerca de 11,3%.

E o que temos para comparar com estes valores? O último Relatório do Desenvolvimento Humano, publicado pelo PNUD, tem um quadro que nos dá aquilo que identifica como sendo as "despesas públicas em educação em percentagem do total das despesas públicas; média 2000-2007", não sabendo nós como são exactamente calculadas umas e outras. Porém, se suposermos que não é usada uma metodologia muito diferente da que usámos (que, concordamos, é muito simples e eventualmente enganadora), então poderemos comparar os valores acima calculados para Timor Leste --- infelizmente o quadro referido não tem valores para o país --- com os de outros países para tentar medir o "esforço" que Timor Leste está a fazer na educação e se ele se aproxima ou não do que poderíamos designar como um "padrão", média, internacional.

O quadro referido diz-nos, por exemplo, que o Camboja gasta 12,4% do seu orçamento (média de 2000 a 2007) na educação, que o Banglasdesh gasta 14,2%, a Indonésia 17,2%, as Filipinas 15,2% e a Tailândia 25%.
Isto é: a confirmar-se o valor de 10-12% para Timor Leste ele parece ser baixo pelo padrão da região. De onde concluo que há que fazer um esforço MUITO grande para aumentar esta percentagem de gastos na educação, principamente para melhorar a qualidade da educação hoje em dia prestada pelas superlotadas escolas do país.
Só assim se poderá apostar no futuro e reduzir, a prazo, a pobreza, já que a educação é, está demonstrado, um poderoso instrumento de ascenção na escala dos rendimentos e na escala social.

Comentários sobre o Orçamento de Estado para 2010

A ONG La'0 Hamutuk acaba de publicar (hoje) um documento apresentado ao Parlamento Nacional com comentários seus sobre o OGE2010.

Sugerimos a sua leitura. Naturalmente que fazer tal sugestão não implica da nossa parte qualquer manifestação de concordância ou discordância, no todo ou em parte, com os comentários produzidos no documento.

sábado, 24 de outubro de 2009

Plano rodoviário de Timor Leste

A mesma edição do Tempo Semanal referida na 'entrada' anterior reproduz, a propósito da notícia sobre o empréstimo concedido pela China a Timor Leste, vários mapas com a indicação das estradas de Timor Leste que precisam de serem recuperadas.
Elas estão divididas em três categorias, consoante a sua importância no plano rodoviário nacional --- o que tem consequências sobre o tipo de empresas que podem realizar as obras a efectuar.
Os mapas referidos são transcritos abaixo.


Facto curioso é o de o orçamento por km de qualquer das estradas das classes "A" e "B" ser de 196 mil USD/km independentemente da sua localização.
O valor correspondente para as estradas de nível C" (de interesse sobretudo ao nível distrital e de sub-distrito) é o de 100 mil USD/Km.
Chamou-nos também a atenção o facto de a estrada entre Vikeke e Lospalos ao longo da costa sul não estar incluída neste plano --- apesar do estado miserável em que se encontra. Arranjá-la condignamente permitiria "fechar o anel" entre Baucau e Lospalos e completar, com um mínimo de qualidade para facilitar a circulação de pessoas e bens, a estrada ao longo de toda a costa sul, tal como se prevê para a costa norte.

No mapa abaixo referem-se as pontes previstas.

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Mais do mesmo (ou quase)

O semanário Tempo Semanal de ontem dá uma visão mais completa das declarações do Presidente Ramos Horta sobre a gestão do Fundo Petrolífero ou, melhor, sobre medidas a tomar face à desvalorização do dólar americano no último ano, que ele diz como tendo sido de cerca de 30%:

"So it means the five billion Dollars we have in US treasury bank a year ago now you can reduce it by 30%. Because the purchasing power of US dollar gone down to 30%." (tradução: "Isto quer dizer que os 5 biliões [de facto 5 mil milhões] de dólares que nós temos em títulos do Tesouro americanos há um ano atrás agora podem reduzi-los em 30%. Porque o poder de compra do USD baixou 30%)"

Será que foi mesmo assim? A consulta das taxas de câmbio de algumas moedas em 23 de Outubro de 2009 (hoje) e a mesma data do ano passado permite fazer alguma luz sobre o assunto. Vejamos, por exemplo, um dos 'sítios' mais úteis em que se registam as taxas de câmbio das várias moedas: o Pacific Exchange Rate Service.
Utilizando as suas capacidades de representação gráfica da evolução dos câmbios, construimos os seguintes gráficos para dois grupos de moedas (moeda base: o USD, a "nossa" moeda): as mais utilizadas no comércio internacional (Euro, libra inglesa e iene japonês) e as moedas de três dos principais países no comércio externo de Timor Leste (Indonésia, Singapura, Austrália; o Japão já figura na imagem anterior).


As imagens partem do valor 100, correspondente à taxa de câmbio de cada moeda há um ano atrás. Este tipo de representação é o mais apropriado para estudar a evolução relativa da cotação de cada moda em comparação com a de outras. Note-se que os gráficos têm a escala invertida a fim de facilitarem a leitura já que uma descida da linha corresponde a uma desvalorização do USD e, consequentemente, a uma valorização da moeda do respectivo país.

Pelos gráficos é evidente que a moeda cujo câmbio mais se alterou em relação ao USD foi o dólar australiano: o USD ter-se-á desvalorizado (perdido poder de compra, se abstrairmos da evolução dos preços no país) quase 40% em relação ao dólar australiano (AUD).
Relativamente às moedas dos demais países de economias mais avançadas pode-se ver que houve uma desvalorização (do USD) de cerca de 16% em relação ao Euro e de 7,5% e 2,5% em relação ao iene japonês e à libra inglesa, respectivamente. Tudo valores bem longe dos 30% referidos.

E em relação às moedas dos principais parceiros comerciais de Timor Leste --- afinal é isso que interessa: saber quanto tenho de pagar a esses países e não o que teria de pagar a outros... onde não compro quase nada.
O gráfico imediatamente acima diz-me que a taxa de câmbio do USD se desvalorizou em relação à rupia indonésia (IDR) e ao dólar de Singapura (SGD) entre os 6 e os 7%. Mais uma vez muito longe dos 30% referidos.

Como dissemos, as percentagens acima calculadas correspondem às diferenças entre as taxas de câmbio entre 23 de Outubro de 2008 e 2009. Isto é, à diferença entre duas datas, embora os gráficos ilustrem a evolução para todo o período entre aquelas datas.
Um aspecto que vale a pena salientar é que a evolução das moedas das economias mais avançadas em relação ao USD é bem mais instável (subidas e descidas) do que a evolução das taxas de câmbio dos países mais próximos de Timor Leste. Isto é resultado das políticas cambiais destes últimos, nomeadamente da preocupação, da parte da Indonésia e de Singapura, de não deixarem a sua própria moeda valorizar-se demasiado em relação ao USD pois isso significaria perda de competividade no mercado internacional, particularmente em relação ao mercado americano mas também em relação aos outros mercados da região da Ásia Oriental e do Sudeste Asiático.

Esta preocupação em não perderem competitividade tem levado outros países da região a manterem políticas cambiais que permitem que as suas moedas mantenham variações muito baixas em relação ao USD (ver gráfico abaixo). O exemplo mais significativo é o da Malásia, que pratica uma política de taxa de câmbio quase fixa em relação ao USD desde a crise de 1997/98, já lá vão mais de dez anos! O mesmo em relação ao Yuan chinês e ao dólar de Hong Kong.

Da evolução combinada as taxas de câmbio dos países do Sudeste Asiático que mais nos interessam resulta que elas são, umas em relação às outras, relativamente estáveis, como se todos se vigiassem mutuamente de modo a não perderam quotas de mercado a favor dos vizinhos (mais concorrentes que complementares no mercado internacional; que o diga o sector da electrónica...).

Moral da história: o importante ao analisarmos este tipo de questões não é comparar a evolução do USD (que é a "nossa" moeda) em relação à de países com os quais mantemos relações económicas reduzidas mas sim com aqueles com que nos relacionamos mais intensamente. E a verdade é que a perda de poder de compra da "nossa" moeda em relação aos países onde costumamos "ir às compras" foi reduzida.

Mas há mais! A evolução de uma taxa de câmbio, tem sempre duas "faces": a do que gastamos com as nossas importações e o que ganhamos com as nossas exportações. Ora, o que ficou acima é quase apenas visto do lado das importações --- essenciais no estado actual de desenvolvimento do país; basta olhar para as estatísitcas do comércio externo do país e, mais genericamente, para as da balança de pagamentos.

E do lado das exportações? A desvalorização da "nossa" moeda pode ser essencial para aumentar a competitividade externa da nossa economia e podermos passar a produzir no nosso país E A EXPORTAR produtos/serviços que até agora temos dificuldade em exportar devido ao facto de a "nossa" moeda estar demasiado valorizada. Uma desvalorização poderá até ser uma bênção para a economia nacional... Porque é que acham que os Estados Unidos estão a deixar desvalorizar a sua moeda?!... (Será que a desvalorização não corresponde, antes, a uma "correcção" de uma excessiva valorização verificada anteriormente, no início desta década?!...).

Além disso, essa desvalorização tem ainda outra "vantagem": a de que, tornando mais cara a importação, poderá contribuir para reduzir os gastos no estrangeiro e, last not least, contribuir para possibilitar a produção interna de bens/serviços que até aí eram importados por a "nossa" moeda estar demasiado (?) valorizada.

PS -o que fica acima não invalida o facto de se ter algum cuidado na gestão do Fundo Petrolífero, nomeadamente quanto à constituição da carteira de títulos em termos de moedas que a compõem. A diversificação já está a acontecer desde o fim de Junho passado mas parece haver, neste domínio, ainda algum espaço de manobra a explorar --- a passagem dos 4% actuais aos 10% permitidos pela Lei do Fundo Petrolífero. Mas como "cuidados e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém" parece aceitável o posicionamento cauteloso adoptado de início para ver como evolui a situação, principalmente numa época em que a situação financeira internacional é ainda tão volátil
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sobre o "guardar de Conrado o prudente silêncio"

O Sr. Presidente da República de Timor Leste, Ramos Horta, fez ontem declarações à imprensa sobre o Fundo Petrolífero.

"Desvalorização do dólar deve fazer repensar o Fundo Petrolífero - Ramos-Horta

Díli, 21Out (Lusa) - O Presidente da República de Timor-Leste, Ramos-Horta, disse hoje ser urgente diversificar as aplicações do Fundo Petrolífero, actualmente em títulos do tesouro norte-americano, devido à desvalorização do dólar.

Falando aos jornalistas após regressar de Jacarta, onde assistiu à tomada de posse do seu homólogo indonésio, Susilo Bambang Yudhoyono, Ramos-Horta aproveitou para defender a necessidade de diversificar as aplicações do Fundo Petrolífero, acentuando que Timor-Leste arrisca-se a perder bastante dinheiro com a desvalorização do dólar.

"Se vamos continuar a esperar, o dólar vai-se depreciando e, apesar de ser um dos que acredito na economia americana, neste momento estamos numa situação extremamente perigosa. Se acontecer a debandada em relação ao dólar, o dólar cai, podendo suceder o mesmo que à rupia indonésia, e o que é que Timor vai fazer com os seus cinco biliões de dólares? Não vai conseguir fazer nada", alertou."


Independentemente de eu pensar que há coisas de que quanto menos se falar, melhor (e uma delas é, seguramente, tudo quanto tenha a ver com dinheiro), notei que as declarações são imprecisas.
De facto, embora eu pense que a legislação em vigor ( a Lei do Fundo Petrolífero, de 2005) é demasiado rígida em relação à estratégia de investimento dos recursos do Fundo --- embora também compreenda essa rigidez devido às circunstâncias da época: valores a receber no Fundo incomensuravelmente menores que os que vieram a verificar-se devido ao aumento do preço do petróleo e outros aspectos ---, a verdade é que desde Junho passado que o investimento não é feito APENAS em títulos denominados em dólares americanos. Disso dá conta o relatório trimestral de Junho passado disponível no 'sítio' do banco central de Timor Leste, a ABP.

Aí se informa que desde o final desse mês 20% do capital do Fundo é administrado pelo BIS-Bank of International Settlements, com sede em Basileia, na Suiça, e que essa parte do capital pode incluir (e inclui)

"um máximo de 20% da carteira de títulos [à guarda do BIS] em depósitos ou instrumentos de dívida denominados em dólares australianos (AUD), Euros (EUR), Iene japonês (JPY) e Libras Sterling (GBP)"

Isto é: neste momento o FP tem uma carteira de títulos em que 4% (20% de 20%...) são em outras moedas que não o USD. Note-se, no entanto, que segundo a Lei do Fundo este limite pode ir até aos 10% do total do capital do Fundo (Artº 14º da Lei do Fundo Petrolífero).

Tudo isto denota, da parte das autoridades timorenses --- e lembremos que a responsabilidade da definição da estratégia de investimento cabe ao Governo através do Ministério das Finanças e não ao banco central, que faz apenas a "gestão operacional" do Fundo sem determinar a sua política de investimentos ---, uma estratégia muito cautelosa quanto à gestão do Fundo Petrolífero. Essa estratégia, reconheçã-se, permitiu ao FP de Timor Leste atravessar a recente crise financeira internacional sem os sobressaltos (e as perdas enormes!) que outros "fundos soberanos" semelhantes sofreram.

Há, pois, ainda uma "janela" para aumentar o investimento em outras moedas que não o USD mas ultrapassar o limite dos 10% estabelecidos na Lei não é possível (se é que é desejável...) a não ser quando ela, em 2010, for alterada.

Até lá é conveniente "guardar de Conrado o prudente silêncio" nas considerações a fazer sobre o tema. E comparar o que eventualmente possa vir a acontecer ao USD com o que aconteceu com a rupia indonésia --- não houve referência a datas mas acredita-se que o PR estivesse a falar da queda da cotação que ela sofreu na sequência da crise de 1997/98, de cerca de 2500 IDR por USD para os cerca de 10.000 actuais --- não me parece que ajude muito. Até porque só uma verdadeira "revolução" na situação actual da economia mundial poderia justificar uma tão forte queda do valor do USD.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Pois...

"Díli, 20 Out (Lusa) - A República Popular da China vai conceder a Timor-Leste 30 milhões de yuan (cerca de três milhões de euros [e 4,4 milhões USD]) para a recuperação de infra-estruturas, anunciou hoje o primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão.

O chefe do Governo timorense fez a revelação durante uma conferência de imprensa à chegada a Díli da sua visita oficial à China, durante a qual se reuniu com o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao.

Segundo Xanana Gusmão, Wen Jiabao reafirmou o compromisso da China em contribuir para o desenvolvimento social e económico de Timor-Leste.

'O primeiro-ministro Wen Jiabao concedeu uma verba de 30 milhões de yuan a Timor-Leste', disse Xanana Gusmão."


Quase apetece perguntar "porquê só agora?!...". Alguns responderão que a legislação deixada pela UNTAET não permitia que o país contraísse empréstimos externos. Pois... Mas a UNTAET já acabou há mais de sete anos!... Desde o dia 20 de Maio de 2002 que a legislação em causa poderia ter sido alterada.

Se não foi não foi por esquecimento, certamente. Foi, isso sim, porque a opção política (e económica) era no sentido de não criar dívida externa num misto (creio eu...) de preconceito ideológico e de aposta na tentativa de fazer com que os doadores abrssem (ainda mais) "os cordões à bolsa) para encontrarem mais uns fundos para financiar o país.

Esta lógica, de que SEMPRE DISCORDEI, atravessou TODOS os governos e creio que a sua alteração se fica a dever principalmente à redução, de 2008 para 2009, dos preços do petróleo e do "rendimento sustentável" transferível para o OGE.

Note-se, porém, que a revisão da política de financiamento deveria ter sido feita independentemente desta evolução das receitas petrolíferas. Uma política de construção de infraestruturas que, por definição, terão uma vida útil longa NÃO DEVE (e por isso não pode...) ser financiada com dinheiro de "caixa" como decorre dos Orçamentos recentes quanto ao caso das centrais eléctricas.


Voltando ao empréstimo concedido pela China, espera-se agora que sejam proximamente divulgados pormenores sobre o contrato (prazo de amortização do empréstimo, taxa de juro, período de carência). E, já agora, que sejam divulgadas as contrapartidas que Timor Leste deu para o obter e em que infraestruturas vai ser aplicado o financiamento agora obtido.

Note-se que a (pequena) dimensão do empréstimo parece deixar de fora as centrais eléctricas em construção e que foram compradas à China. O que deixa ainda de pé a questão da forma como elas vão ser financiadas.

Parece que está também aberta uma "janela de oportunidade" para o Governo, eventualmente, rever o timing da construção das várias centrais, dilatando-o muito mais no tempo. O que, se fôr assim, poderá recolocar em cima da mesa a possibilidade de se vir a concretizar o investimento no aproveitamente hídroeléctrico em Iralalara e, até, a intensificação do uso de energias renováveis (nomeadamente eólica, solar e mini-hídrica) para complementar o abastecimento de energia eléctrica ao país.

sábado, 17 de outubro de 2009

OGE 2010: finalmente a caminho de "entrar nos eixos"?

Em 'entradas' anteriores demos algumas informações sobre o que foi proposto pelo Governo ao Parlamento como OGE para 2010.
Acrescentemos algumas notas complementares ao que se foi dizendo naquelas 'entradas':

a) segundo as previsões constantes deste OGE, a execução do de 2009 irá ficar-se pelos cerca de 553 milhões de USD. Uma vez que as despesas nele previstas são de cerca de 680 milhões, isto significa que a taxa de execução será de, números redondos, 80%. O que é pouco mas vai no mesmo sentido das dificuldades desde sempre manifestadas. Ora, o que há a assinalar é que ao reduzir-se em 2010 o valor global do OGE, parece estar a ir-se no bom sentido: o de fazer convergir o planeado com o que será, de facto, possível executar. No entanto repare-se que os 637 milhões que se prevêm gastar ainda estão cerca de 80 milhões acima do que se espera gastar em 2009, o que representa cerca de 15% do gasto previsto. Será possível? A ver vamos. Mas...

b) de alguma forma relacionado com o que fica acima, note-se que pela primeira vez este governo prevê retirar do Fundo Petrolífero apenas o "rendimento sustentável" previsto de 502 milhões de USD, calculados tendo como base um preço médio estimado do petróleo (preço do WTI) de 62 USD/barril, o que corresponde, grosso modo, às estimativas de outras entidades como, por exemplo, o FMI e o BAD (Banco Asiático de Desenvolvimento)

c) tudo junto, parece que se ultrapassou a "fúria despesista" de 2008 quando, subitamente "inundado" de USD devido ao aumento do preço do petróleo, o governo se lançou numa escalada de aumento dos gastos que pareceu desde logo insustentável. Esta mudança de atitude não pode deixar de ser aplaudida.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O Orçamento Geral do Estado para 2010: linhas fundamentais

O Governo acaba de entregar ao Parlamento Nacional a proposta de Orçamento Geral do Estado para 2010. O Ministério das Finanças, através da sua Direcção Geral das Finanças Públicas disponibilizou publicamante, via internet, os 3 volumes que o constituem, podendo ser consultados aqui. Esta divulgação, já usual, é de louvar.
Os valores no quadro acima já tinham, no essencial, sido divulgados na nota à imprensa distribuída pelo Governo na semana passada de que nos fizemos eco aqui.
Eles podem ser comparados com os de anos anteriores no quadro abaixo.
Uma síntese da informação em relação quer às receitas quer às despesas orçamentais consta do quadro abaixo.


Uma análise destes números e de outros disponíveis nos documentos agora publicados fica para depois. Por agora queríamos apenas salientar que das despesas em capital de desenvolvimento 50 milhões correspondem aos custos da(s) central(-is) de produção de energia a instalar e a rede eléctrica necessária para a distribuir e 72,6 milhões estão afectados à Direcção de Estradas, correspondendo a investimentos nestas.

De realçar que no Orçamento do ano passado estimava-se que este ano seriam gastos cerca de 160 milhões de USD --- a somar aos 80 de 2009 ---nas centrais eléctricas.
A grande redução de valores (de 160 para 50 milhões de USD) pode ser sinal de que (a) se reviu o timing da construção das centrais (hipótese que não exclui a possibilidade de se ter desistido de alguma(s) dela(s); e/ou (b) que se poderá estar a trabalhar numa hipótese de financiamento destas obras através de empréstimos a serem pagos apenas a partir de 2011 ou, mesmo, depois. Recentes declarações do Ministro Zacarias da Costa a propósito da visita de uma delegação timorense de (muito) alto nível à China sugerem isto mesmo --- confirmando o que tínhamos intuído há dias.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

1 + 1 = 3 (?)

Soube pelos noticiários que o Primeiro Ministro Xanana Gusmão se encontra na China acompanhado de uma delegação que inclui a Ministra das Finanças e o Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas. A notícia refere principalmente a visita aos navios que estão a ser preparados para entrega à RDTL a fim de reforçarem a capacidade de vigilância da zona económica exclusiva de Timor Leste.

A presença da Ministra das Finanças a poucos dias da entrega formal do Orçamento para 2010 no Parlamento Nacional e depois de aprovada a nova legislação que (finalmente!...) autoriza o país a contrair empréstimos externos não deixou de nos parecer, no mínimo, "curiosa"! Será que na agenda vai também (finalmente!...) a discussão com as autoridades chinesas de financiamentos para as duas grandes compras que o país lhes fez (as centrais eléctricas e os navios patrulha)? Quase de certeza que sim... Por isso estaremos, provavelmente mas não certamente, perante um caso de "gato escondido com o rabo de fora"? Ou um daqueles em que 1 + 1 = 3 ? :-)

Se assim for e como nós próprios sugerimos noutro local, parece ter-se encontrado uma boa solução para algo que começou (muito) mal.
Mas atenção: como em todos os contratos, é bom que se leiam todas as linhas dele... E até as entrelinhas!... Por vezes até são mais importantes as entrelinhas que as linhas...

PS - já depois de termos preparado esta 'entrada' alguém nos chamou a atenção para uma nota publicada recentemente pela ONG La'o Hamutuk que refere este mesmo assunto em moldes não muito diferentes (quanto à "suspeita" acima levantada). Essa nota é seguida de considerações de natureza política que não comento pois me atenho apenas e como já disse várias vezes "aos sãos princípios da Economia e da Política Económica".