segunda-feira, 4 de maio de 2009

Gaba-te cesto...

Ver abaixo o comunicado do Banco Mundial sobre os sucessos do PFMCBP, o programa ao abrigo do qual têm sido --- e continuarão a ser --- contratados os consultores para o Ministério das Finanças de Timor Leste que tanto têm dado que falar dado o nível dos salários que lhes são pagos.


Permito-me chamar particularmente a atenção para a seguinte frase:

"PFMCBP has delivered significant results for Timor-Leste since its inception in May 2006. The government’s budget execution increased from US$76 million in 2005/06 to US$550 million in 2008; a more than seven fold increase in cash execution."

Note-se a nítida relação "causa-efeito" que se pretende estabelecer entre a entrada em vigor do programa e o aumento (sete vezes!) das despesas públicas. Isto tem um nome: desonestidade intelectual! Sorry!... E isto mesmo partindo do princípio de que a septuplicação das despesas públicas num tão curto espaço de tempo é, em si, uma coisa boa, insusceptível de comentários críticos.

sábado, 2 de maio de 2009

Como disse?!...

Segundo o jornal "Tempo Semanal" (edição nº 136) a Ministra das Finanças terá declarado, a propósito das críticas correntes sobre o número de consultores do seu ministério e respectivos (altos) salários --- alguns pagos pelo Banco Mundial mas outros pagos pelo Orçamento de Timor Leste ---, que "These advisors "can help to contribute to economic growth of up to 12.3%. If you look at the IMF report it says clearly there that the major contribution to this economic growth comes from public spending."
A não ser que a tradução não esteja correcta, a ministra parece estar a falar deste ano de 2009. Certo?
Acontece, porém, que o último relatório (?) do FMI sobre Timor Leste, o que foi apresentado na conferência de doadores de há cerca de um mês atrás, diz que a taxa de crescimento de 12,5% se terá verificado... em 2008. Para 2009 prevê uma taxa de crescimento de 7,7% (e 2,3% em 2010) --- na suposição de que os Gastos Públicos serão como aprovado no OGE2009, o que poderá vir a não se concretizar se, devido à queda do preço do petróleo, o "rendimento sustentável" for revisto em baixa.
Independentemente do ano a que se refere, fica para a história a ideia de que o (alto) nível salarial dos consultores ajuda (tão decisivamente) o crescimento económico.


PS - Será que se se lhes pagar o dobro se crescerá ainda mais depressa?

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Olhando por alto as contas do Estado...

... tal como figuram na 'entrada' abaixo e recorrendo a informação de outros anos para alguma comparação --- que pena que a conta do OGE não traga estes elementos comparativos... --- chega-se à conclusão que, (muito?) grosso modo, a despesa de 2008 terá sido o dobro da do ano anterior.
Senão vejamos.
O último relatório do FMI que se encontra publicado (o de 2008) informa-nos que as despesas públicas terão sido de cerca de 104 milhões de USD no ano fiscal 2005/06 e de 190 milhões em 2006/07. Mais, estima que as despesas na segunda metade de 2007, já da responsabilidade do actual governo e ao abrigo da revisão orçamental a que procedeu após a sua tomada de posse, foi de cerca de 149 milhões (as verbas incluem as despesas orçamentadas em anos anteriores e pagas posteriormente, os famosos "carry over").
Se, numa estimativa grosseira das despesas no primeiro semestre de 2007, dividirmos ao meio a do ano 2006/07 e adicionarmos a do segundo semestre indicada acima teremos, para 2007, um total de despesas de, contas "redondas", 240 a 250 milhões de dólares.
Ora, se o total das despesas efectivamente pagas por caixa em 2008 foi, tal como referido no texto abaixo extraído do relatório de execução do 4º trimestre do OGE de 2008, de mais de 550 milhões de USD, então a despesa de 2008 terá sido mais do dobro da do ano anterior. Um aumento desta ordem de grandeza não é comum em parte nenhuma do mundo.


Porque em termos de contabilidade nacional os gastos públicos são uma das componentes da despesa nacional e esta supõe-se ser igual ao produto (o famoso PIB), uma subida tão significativa dos gastos justifica, só por si, uma aceleração substancial da taxa de crescimento do PIB. No mesmo sentido, se não for possível --- dificilmente será... --- repetir em 2009 o crescimento das despesas públicas verifiado em 2008, será natural virmos a assistir a uma queda, nítida, da taxa de crescimento do PIB em 2009.

Mas há uma outra óptica que interessa referir. É a de que um aumento tão significativo da "procura" interna --- a que há que adicionar a aceleração do crescimento do consumo das famílias derivada do aumento dos rendimentos destas por causa dos subsídios pagos e dos aumentos salariais --- tenderá a ser satisfeito por uma e/ou por outra de duas "ofertas": a "interna" (a produção nacional) e a "externa" (as importações).
Como a capacidade produtiva interna é reduzida e muito rígida (exactamente por ser reduzida), a resposta a um tão grande aumento da "procura" interna só pode vir --- ou, melhor, tenderá a vir principalmente --- da "oferta externa", isto é, das importações. Foi o que aconteceu: estas "dispararam"!... Dizem-no as estatísticas do comércio externo e já o anteviam as estatísticas dos navios entrados no porto de Dili e as fotos de uns quantos pairando ao largo à espera de vez para descarregarem (o pior é só descarregam; não carregam...).

Na verdade as importações não são o único "escape" do aumento da procura interna não satisfeito por produção nacional. Há outro: a inflação! Se há mais dinheiro, que dá para comprar mais 20 mangas, e se só há mais 5 mangas, claro que os vendedores vão aproveitar a situação e vender mais caro as suas mangas (nao são essas! São as comestíveis!...).
A pressão inflacionista também aí está e só não é maior porque é fácil e barato --- nomeadamente porque as tarifas alfandegárias são "uma tuta e meia" --- importar da Indonésia (a maior parte), de Singapura (fonte inesgotável de pópós usados), da Austrália (que belos iogurtes...), etc.
Na verdade a pressão também só não é maior porque em muitos casos os vendedores nacionais ainda não conhecem a lei da oferta e da procura... Ai se conhecessem!...

Contas do Estado

Esta disponível no 'sítio' do Ministério das Finanças a conta de execução orçamental relativa ao 4º trimestre de 2008 e que inclui todo o ano. Apresentam-se abaixo os principais quadros de síntese da informação disponível bem como dois gráficos pertinentes, todos com origem no referido relatório.
No quadro abaixo estão apresentadas, por categoria da despesa, as três "versões" que o OGE de 2008 conheceu: a inicialmente aprovada no final de 2007, a revista a meio do ano e a que foi, finalmente, aprovada a meio de 2008. Note-se principalmente a redução do Fundo de Estabilização Económica resultante do "chumbo" deste pelo Tribunal de Recurso. A verba do FEE corresponde às importâncias que já estavam comprometidas quando foi conhecida a decisão do Tribunal e que, de acordo com esta, não foram postas em causa.
O OGE final foi, pois, de cerca de 600 milhões de USD. Recorde-se que segundo o relatório do FMI de 2008 o total das despesas orçamentadas para o ano fiscal de 2006/07 --- da responsabilidade do anterior governo --- foi de 309 milhões USD e que no ano anterior, 2005/06, tinha sido de 119 milhões. Uma diferença significativa, traduzindo um crescimento "galopante" (saudável?) das despesas públicas.


O quadro abaixo refere as várias rubricas das receitas e das despesas tal como previstas nas várias versões do OGE2008.

Se nos quadros anteriores se apresenta a informação sobre o Orçamento previsto, nos quadros abaixo divulga-se a informação sobre o que foi realmente executado, pago pelo Tesouro nacional.
De realçar a taxa de execução global de (apenas?) 80% --- não deveria ser 100% ou próximo? ---, sendo as parcelas das despesas com taxas de execução mais baixas as transferências (65%) e as de capital de desenvolvimento (76%) e as com taxas mais altas as de capital menor e de salários e vencimentos (esta com 85%).
Deve-se salientar também que o valor do "rendimento sustentável" a transferir do Fundo Petrolífero para o OGE (396 milhões de USD) foi escrupulosamente cumprido --- como não poderia deixar de ser, evidentemente ---, não tendo sido transferido paraa conta do Estado nem mais um centavo que o previsto na autorização legislativa dada pelo Parlamento Nacional.




Os gráficos abaixo dão uma imagem da estrutura das receitas e das despesas.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Será verdade? É que se é...

O TLN (TimorLorosaeNação) dá conta de uma notícia publicada pelo jornal australiano The Australian sobre um relatório (não publicado) do Banco Mundial sobre Timor Leste. Os links para a notícia são os seguintes: TLN (em português) e The Australian (o original em inglês). A imagem abaixo, que deve clicar para a tornar legível, é da notícia original.



Esperemos que, dadas as considerações feitas, o Banco Mundial confirme ou infirme o teor da notícia --- nomeadamente publicando o alegado relatório. É que se ela corresponde à verdade nua e crua então "alguma coisa vai mal no reino da Dinamarca", tanto mais que são conhecidas as relações de grande proximidade profissional entre o Banco e o seu representante em Dili, António Franco, e a titular da pasta das Finanças, Emília Pires.

sábado, 25 de abril de 2009

Comentário a um comentário

Quis um leitor anónimo tecer um comentário à nossa entrada de há alguns dias sobre a evolução dos depósitos e dos empréstimos em Timor Leste de acordo com as últimas estatísticas monetárias disponíveis.
Transcrevo abaixo apenas uma parte desse comentário, a que me parece mais relevante para a resposta que se seguirá:

"Imaginemos precisamente esse mesmo cenário, em que a banca de facto concede empréstimos a um nível acima dos seus depósitos, e que era obrigada a recorrer ao banco central. num cenário com os mesmos riscos qual seria a taxa de juro? mais baixa ou mais alta? será que se assim fosse a concorrência não seria maior na banca? será que o serviço não seria melhor? será que o preço pago pelo serviço não seria menor?

e mais qual e o critério utilizado para a cedência de credito? quais os parâmetros? serão os mesmos q por ex em Portugal?"

Vejamos alguns aspectos.
Não é fácil responder com "certezas absolutas" às questões colocadas. Mas é possível tentar "adivinhar" algumas linhas de força tendenciais...
A taxa de juro activa --- aquela que os bancos cobram aos seus clientes, em oposição à taxa passiva, que é aquela que pagam pelos depósitos --- depende essencialmente, em circunstâncias (aproximadamente) normais, do custo do dinheiro que, em média, o banco tem de pagar pelos recursos que utiliza, da taxa de risco de cada negócio e da rentabilidade que o banco pretende obter do seu próprio negócio. Admitindo que esta será uma taxa "normal" e não especulativa, o essencial será, pois, o custo do dinheiro e a taxa de risco do negócio a quem se vai conceder o empréstimo --- isto é, a capacidade de ele ser bem sucedido e de o empresário devolver o dinheiro do empréstimo ao banco.
Quanto ao custo do dinheiro, ele é determinado pelas taxas passivas --- isto é e como referi pela taxa média paga pelos depósitos dos clientes, normalmente baixa --- e pela taxa a pagar pelo dinheiro pedido a outros, seja o banco central seja a banca internacional. Se a taxa fixada pelo primeiro poderá ter em consideração os seus objectivos para a política monetária, o que é certo é que não poderá abstrair-se do "custo (internacional) do dinheiro".
Ora este será determinado principalmente pelo risco-país de Timor Leste que, se for elevado, dará origem à cobrança de taxas de juro elevadas. Claro que quanto mais o país tiver de se endividar no exterior maior será a taxa de juro que terá de pagar. Isso mesmo está a acontecer agora com os empréstimos pedidos pela República Portuguesa e pela banca comercial nacional no mercado internacional de capitais.
Mas as taxas de juro dependem não só das condições em que os bancos se financiam mas também do risco do negócio que vão apoiar.
Ora, parece-me, que aqui é que estará um ponto fundamental de diferenciação entre empresários nacionais e empresários estrangeiros actuando em Timor. Os empresários nacionais tenderão, devido a condições estruturais do país --- incluindo o do nível de desenvolvimento dos próprios empresários timorenses ---, a oferecer à banca comercial garantias (as chamadas "garantias reais" ou outras) muito menores que os empresários estrangeiros. Ora, os parâmetros de decisão dos bancos em relação aos empréstimos são iguais em todos o mundo: o banco não é uma agência de beneficência; é um negócio que é, por um lado, como outro qualquer mas que, por outro, é específico pois depende muito da garantia de o banco vir a receber, mais tarde, o dinheiro que emprestou. Os critérios de concessão de empréstimos são, pois, iguais em toda a parte, seja em Portugal ou no Sudão! Ou em Timor!

Genericamente falando, se houver mais bancos haverá mais concorrência. Mas não estamos a falar de situações "genéricas" mas sim de uma situação concreta, a de Timor, em que o número de bancos e o mercado para empréstimos tenderão a ser sempre relativamente reduzidos. Por isso é que essa concorrência poderá, quando muito, beneficiar os melhores empresários, que oferecem mais garantias de retorno do dinheiro emprestado. Era isso que acontecia em Moçambique quando, há alguns anos atrás, tive de estudar a situação do sistema bancário do país. Os bancos concorriam entre si para atraírem bons clientes e estes jogavam com a situação pondo os bancos a baixar as taxas de juro dos empréstimos que lhes concediam. Mas esse bons clientes, ligados a bons projectos, boas garantias reais e boa capacidade de retorno do investimento eram, em 99,9% dos casos... empresários/empresas estrangeiras. Que, além do mais, tinham a possibilidade de se endividarem nos seus países de origem ou, até e no caso de Moçambique, na África do Sul, com taxas de juro muito mais vantajosas. Isto é: os bancos moçambicanos, para obterem bons clientes, tinham de praticar, a estes, taxas de juro comparáveis com as internacionais. Para os empresários moçambicanos, com dificuldade em obter empréstimos no exterior, menor capacidade de gestão, etc, etc, etc, as taxas de juro eram significativamente superiores --- 2 a 2,5 vezes superiores!
O meu ponto é o de que, tendencialmente e se passar a existir um "risco país" mais elevado --- ele próprio incorporando um risco de eventual desvalorização da moeda nacional ---, os empresários timorenses podem vir a deparar-se com uma situação semelhante à que tiveram de defrontar os empresários moçambicanos: o dinheiro, para eles, ser muito mais caro que para outros, dificultando o desenvolvimento dos seus negócios.

Claro que uma solução (sempre parcial) para este problema poderia ser a criação de um banco nacional "de desenvolvimento" cujos parâmetros de actuação não fossem apenas os utilizados pela banca comercial "normal".
Mas aqui é preciso muito cuidado pois ou há (muito!) fortes garantias de essa instituição --- que não poderá deixar de ter um forte envolvimento do Estado no seu capital e/ou na concessão de bonificações às taxas de juro --- ser bem gerida e não sujeita a esquemas de corrupção e/ou de favorecimento de determinados empresários em detrimento de outros por critérios não-económicos --- p.ex., políticos --- ou então estaremos numa situação em que será "pior a emenda que o soneto".

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O que querem primeiro? As boas ou as más notícias?

Se não decidem, decido eu: comecemos pelas más!
O FMI acaba de publicar a edição da primavera (Abril) do seu World Economic Outlook, seguramente a sua principal publicação de análise e prospectiva da evolução da economia mundial.
O quadro abaixo sintetiza as suas projecções mais recentes e refere também as diferenças entre elas e as anteriores, publicadas em Janeiro passado e que, por sua vez, reviam em baixa outras efectuadas em Novembro de 2008.
Como se pode verificar, o panorama económico mundial para 2009 é cada vez mais sombrio pois se admite agora que a produção global vai ter um crescimento negativo de -1,3% quando em Janeiro se admitia que ela crescesse 0,5% --- o que era, já de si, uma previsão "miserável" face aos 2,2% de Novembro/08 ...
Uma recuperação do crescimento para terreno positivo só se verificará em 2010, quando se espera (agora...) que o produto mundial aumente 1,9%, ainda assim bem longe dos 3% para esse ano que se previam há 3 meses atrás.
Claro que o maior "trambolhão" no crescimento vai ser o das economias mais avançadas, com uma quebra (em 2009) de 3,8% relativamente a 2008 e um "crescimento zero" em 2010.


Esta queda da produção deve ser vista em articulação com a enoooooorme queda que se vai verificar no comércio mundial. De facto, as importações das economias mais avançadas deverão sofrer uma queda de 12,1% (e as exportações ainda maior: -13,5%).
É esta queda do comércio mundial, particularmente das economias avançadas, que servirá de "motor de transmissão" de efeito para as economias em desenvolvimento, que verão as suas exportações baixarem 6,4% em relação ao ano passado.

Vamos à(s) boa(s) notícia(s) --- para Timor Leste...? Ela é de que o preço médio do petróleo, que se estimava em Janeiro vir a ser de 50 USD/barril em 2009 e de 60 USD/barril em 2010, deve sofrer, segundo as últimas estimativas do FMI, um ligeiro aumento para 52 USD/barril em 2009 e para 62,5 USD/barril em 2010.
Naturalmente que estas previsões são boa notícia para o Fundo Petrolífero de Timor Leste e para o "rendimento sustentável" que vai financiar o OGE. Mas atenção: é uma boa notícia face às perspectivas existentes há 3 meses atrás. Porque a verdade é que a estimativa de 52USD/barril continua a estar abaixo das que estiveram na base do cálculo do "rendimento sustentável" e do OGE de 2009 quando este foi elaborado inicialmente.
Veremos como o Governo lida com esta evolução do preço médio do petróleo na (inevitável) revisão orçamental que costuma ser feita a meio do ano.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Sortudos!... Mas...

Os "sortudos" são os bancos privados que operam em Timor Leste.
De facto e ao contrário do que acontece hoje em dia com os seus parceiros de outros países --- incluindo Portugal... --- a banca privada no país tem um "problema": o do excesso de liquidez, o de "ter dinheiro a mais".
O gráfico abaixo ilustra o que se passa: o volume de empréstimos concedidos pela banca é muito inferior ao montante dos depósitos disponíveis.


O negócio bancário é, como se sabe, o de servir de intermediário entre quem tem recursos (financeiros) em excesso e quem necessita deles para "tocar adiante" a sua actividade económica ou adquirir certos bens ou serviços (crédito à habitação, crédito ao consumo, etc). Por isso e para que o negócio bancário seja rentável, o desejável é que o volume de empréstimos se aproxime o mais possível do volume de depósitos. Por vezes, mesmo, os bancos chegam a obter recursos junto de outros bancos do país ou do estrangeiro para poderem emprestar aos seus clientes.
Em Timor, porém, a banca comercial, pelos mas diversos motivos, não consegue aplicar em empréstimos uma parte significativa dos depósitos que recebe e assim vê-se forçada a, para o "prejuízo" não ser tão grande, depositar ela própria parte desses recursos em bancos estrangeiros que lhes proporcionam, assim, uma rendazita graças aos juros que recebem. Note-se que estes depósitos no exterior, porque agora ficam ao dispor dos bancos de outro país, acabam por ser uma forma indirecta de financiar estes permitindo-lhes conceder um volume maior de empréstimos nas suas economias nacionais.
Isto significa, portanto, que Timor está a financiar, em parte, as economias de outros países... Que tal?!...

Mas o que permite que tal aconteça --- um país pobre a emprestar a ricos... ? Um aspecto importante da resposta é o facto de tudo isto significar que o sector privado timorense é (olha a novidade!...) extremamente fraco e incapaz de aproveitar os recursos que estão à sua disposição. Esta "fraqueza" tem várias dimensões, sendo duas delas (interligadas) (i) a falta de recursos próprios para financiar parte dos investimentos, a falta de "empreendorismo" e falta de capacidades de gestão, por um lado; e, (ii) em muitos casos, a falta das chamadas "garantias reais" (nomedamente títulos de propriedade sobre bens, incluindo terra) que possam ser penhoradas pela banca para garantirem o retornos dos recursos emprestados.

Mas numa outra perspectiva (ainda mais macroeconómica?), o diferencial entre recursos disponíveis na banca e os empréstimos que ela concede --- isto é, o excesso de liquidez dos bancos --- tem uma consequência que importa realçar. É que, a manterem-se as coisas assim, mesmo que existisse uma moeda nacional e o banco central tivesse aos seus dispor os instrumentos de política monetária que estão usualmente disponíveis nos países com moeda própria, a eficácia de tal política tenderia a ser, muito provavelmente, limitada.
De facto, um dos instrumentos essenciais dos bancos centrais com moeda própria é o exercício de um certo controlo (indirecto) dos recursos aos dispor da banca comercial e do custo destes através de políticas apropriadas.
Ora, se a banca privada tem a sua própria fonte de recursos --- os depósitos dos seus clientes --- e estes são muito excentários em relação às suas "reais" necessidades para conceder empréstimos isto significa que ela será relativamente independente do banco central --- o "emprestador de último recurso" --- e haverá uma tendência a essa banca privada ficar mais ou menos imune à política monetária, deixando esta com uma eficácia mais que duvidosa para controlar a economia.

sábado, 11 de abril de 2009

Lendo e relendo os documentos do encontro de doadores

Aviso desde já que o título acima é enganador pois o que segue abaixo não é sobre TODOS os documentos mas sim apenas sobre o do Banco Mundial, com breves referências ao do Governo e ao do FMI.

Ao ler o documento três ideias me assaltaram desde logo: a primeira é a de que o relatório do Governo --- pelo menos aquele a que tive acesso e está disponível aqui --- parece o relatório do Banco e o do Banco Mundial parece o do Governo pelas linhas de orientação que traça para o futuro e mesmo pelos comentários que faz ao passado... Esquisito, não?
A segunda ideia foi a de que, com a habitual linguagem de "dar uma no cravo e outra na ferradura" tão ao gosto das instituições internacionais, os comentários que tece à política económica do Governo poderão ser considerados como não sendo muito "leves" (isto para não os considerar relativamente duros apesar dos elogios com que começa o texto em obediência ao sacrossanto princípio de que é bom "passar a mão pelo pelo" aos governos em exercício).
Finalmente, a terceira ideia foi perguntar-me onde estava o Banco quando o Governo, pelos vistos numa atitude que o Banco agora olha algo criticamente, decidiu aumentar tão significativamente os gastos públicos (o mesmo, aliás, se pode dizer do FMI). Na época não consta que tivessem tornado públicos comentários aconselhando maior prudência. Mas pode ter sido distracção minha...

Notei também o nítido exagero, quase populista e pouco próprio de uma organização com as responsabilidades do Banco, de invocar um argumento do tipo "se a despesa continuasse a aumentar 25% ao ano e se os preços do petróleo estabilizassem, a médio prazo, nos cerca de 60 USD/barril --- o que não é impossível --- então o Fundo Petrolífero estaria completamente esvaziado dentro de 8 a 10 anos" já que tal hipótese (aumentar todos os anos os gastos em 25%) é absolutamente impensável não só por questões relacionadas com o seu financiamento com também com a incapacidade de gerir EFICAZMENTE a aplicação de tais recursos.
Mas a verdade é que serve de um bom alerta para o cuidado que é necessário ter (pelo menos) de ora em diante na gestão das receitas petrolíferas e, consequentemente, das despesas a efectuar. Neste sentido, são de sublinhar os "avisos" deixados pelo documento do FMI quanto à futura revisão da Lei do Fundo Petrolífero, que, nitidamente, aconselha ser a menor possível.
É agora (ainda mais) evidente que o OGE de 2009 terá de ser revisto profundamente e não só, como refere o FMI, para o ajustar aos preços (mais baixos) a pagar pelo Governo. Na verdade a descida de preços é "apenas" em relação aos gastos em combustível e em arroz "do Governo", já que a maioria dos demais terá, provavelmente, tendência para aumentar e não para diminuir.
A revisão do OGE deverá ter em linha de conta a descida significativa que se irá verificar no "rendimento sustentável" por as contas deste terem sido efectuadas ao preço médio do petróleo de 60 USD/barril quando as últimas estimativas para esse preço são de cerca de 45 USD/barril. O Banco e o FMI estimam que a quebra de receitas petrolíferas neste ano será de cerca de 60-66% das cobradas (excepcionalmente!) no ano passado.
O que será "cortado" no Orçamento? Considerando que em relação a uma parte importante das despesas correntes (p.ex. salários e pensões) foram assumidos compromissos que não poderão deixar de ser cumpridos, fica pouca
(?) coisa para "emagrecer" o Orçamento. Provavelmente (inevitavelmente?) iremos ver uma redução da compra de bens e serviços e um reescalonamento de despesas de investimento em infraestruturas. Uma delas poderá ser a definição de um outro timing de instalação das polémicas centrais térmicas a óleo pesado.
Veremos.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O que eles disseram...

Numa das 'entradas' de ontem estabelecemos um link para o InfoTimor e, neste, para alguns dos documentos apresentados na reunião dos "parceiros de desenvolvimento" que decorreu na semana passada.
Os textos estão em inglês e creio serem acessíveis a muitos dos leitores mas para aqueles que têm mais dificuldade na leitura dos mesmos aqui ficam traduções parciais dos mesmos.
Na impossibilidade de traduzir todos os textos, ficam aqui partes do que o Banco Mundial e o FMI escreveram. Dos seus textos seleccionámos aquelas partes em que se referem mais explicitamente à política de despesa pública e à sua relação com as receitas petrolíferas --- e ao Fundo Petrolífero.

Do texto do Banco Mundial:

"[Durante o ano passado] o Governo fez um trabalho notável. Foi feito um tremendo progresso [em várias áreas relacionadas com a segurança e estabilidade do país] e Timor Leste apresenta hoje ao fundo uma face diferente e mais calma. A chave foi definir um programa forte, realizável e focalizar a acção executiva na sua execução. Numa economia em grande parte dirigida pelos gastos do Estado, as despesas em dinheiro triplicaram no período entre 2006/7 e 2008 e o estímulo fiscal que resultou da [maior] disponibilidade de dinheiro trouxe consigo um crescimento de 11 a 12 por cento do PIB da economia não-petrolífera. Este resultado no passado foi uma grande realização e merece a nossa admiração. Estaria errado se sugerisse que a estabilidade está agora garantida ou que o esforço de estabilização deveria ser posto de lado mas [a verdade] é que é agora possível falarmos sobre estratégia de desenvolvimento e preocuparmo-nos com coisas como a sustentabilidade fiscal --- assunto que não era tão pertinente no ano passado. Infelizmente para Timor Leste, entretanto, o mundo além fronteiras mudou dramaticamente e isto traz desafios novos e mal-vindos para o país. A crise financeira global precipitou uma queda da actividade económica mundial não testemunhada desde meados do século passado. Todos os países serão, de uma forma ou de outra, afectados. Em Timor Leste testemunhamos uma queda alarmante dos preços do petróleo e dos rendimentos que ele proporciona ao país. Estes podem baixar este ano até apenas um terço do que foram no ano passado [i.e., uma queda de 2/3 – AS]. O Orçamento de 2009 foi formulado antes de se ter feito sentir o pleno impacto do declínio do preço do petróleo. Ele propõe um aumento de despesa de cerca de 25% comparado com o que foi gasto no último ano.
As perspectivas de evolução do preço do petróleo, entretanto, estão a obrigar o Governo a questionar esta rápida taxa de expansão fiscal. Só para ilustrar o que eu quero dizer: se a despesa continuasse a aumentar 25% ao ano e se os preços do petróleo estabilizassem, a médio prazo, nos cerca de 60 USD/barril --- o que não é impossível --- então o Fundo Petrolífero estaria completamente esvaziado dentro de 8 a 10 anos a menos que novos campos petrolíferos começassem a ser explorados até então. Eu não estou a falar aqui de uma situação em que se ultrapassasse o Rendimento Sustentável mas sim do esgotamento total da principal fonte de poupanças e riqueza do país [em condições normais]. Oito a dez anos, acrescentaria, não é praticamente tempo nenhum quando se fala de desenvolvimento e não é, certamente, suficientemente longo para que o rendimento de origem não-petrolífera substitua o resultante da exploração do petróleo. É melhor nem pensar no que aconteceria em tal cenário.
Estou certo de que este Governo não prosseguiria um tal percurso tão desleixado. O meu ponto é que tempos diferentes exigem soluções/aproximações diferentes. É por isso o estabelecimento de um quadro geral estratégico para o médio prazo é tão importante."


Do documento do FMI:

"3 - Timor-Leste esteve isolado de muitos dos efeitos da crise financeira mas não deixou de ser afectado.Como os rendimentos do petróleo representam cerca de 95% das receitas do Governo, o país está altamente exposto aos preços do petróleo, que desceram significativamente tal como a economia em geral. Aos preços actuais, estima-se que as receitas de petróleo de Timor-Leste caiam cerca de 60% relativamente ao nível de 2008, quando preço médio foi de cerca de 100 USD/barril. O Fundo Petrolífero serviu de almofada ao impacto dos preços mais baixos mas se eles continuarem aos níveis actuais isso significará um importante constrangimento ao orçamento. O Orçamento de 2009, cujo valor estava bem acima do valor sustentável com um aumento previsto para as despesas de 25% relativamente aos gastos efectivamente realizados no ano anterior, já estava bem acima do desejável quando o petróleo estava 60 USD/barril. Neste momento a despesa deveria ser reduzida no mínimo para reflectir os preços mais baixos dos bens importados pelo governo. Sem ajustamento, o Orçamento de 2009 implicará um défice fiscal de mais de 100% do PIB não-petrolífero, maior que os 97% estimados para 2008.

4 - Um mau ambiente económico mundial enfatiza o desafio de assegurar um crescimento sustentável e a redução da pobreza. Devido aos preços mais altos do petróleo, Timor-Leste foi capaz de mais que quadruplicar a despesa pública em apenas dois anos e mesmo assim ainda deixou dinheiro suficiente para deixar o Fundo Petrolífero com 4,2 mil milhões de USD no fim de 2008. Esta despesa ajudou a fazer face a necessidades urgentes de curto prazo e a estimular a economia. Na verdade, fervilhando de actividade, Dili mudou a um ponto em que é difícil reconhecê-la. Mas o crescimento económico não se pode basear em aumentos muito rápidos dos gastos do governo. Dados os actuais preços do petróleo as despesas públicas terão que ser fortemente controladas para evitar esvaziar as poupanças efectuadas até agora. Isto, por sua vez, realça a necessidade para hierarquizar/priorizar as despesas públicas e de obter delas mais pelo mesmo dinheiro.

7 - Acima de tudo o Fundo de Petróleo tem que ser visto como uma base fundamental da sã administração dos recursos do país. Enfatizando a transparência e a sustentabilidade, o Fundo de Petróleo ajuda a proteger o país contra a “maldição do petróleo” que afligiu tantos países ricos em recursos naturais. Devido à sua política conservadora de investir em títulos do Tesouro do Governo norte-americano, o Fundo teve um retorno de 6,9% em 2008. Este foi um bom resultado num ano onde a maioria das classes de activos [financeiros] tiveram quedas significativas. Uma maior diversificação da carteira de títulos parece possível e deve ser cuidadosamente ponderada. Quando a Lei do Fundo Petrolífero for alterada [em 2010] para acomodar uma nova estratégia de investimento sugerimos fortemente que as autoridades mantenham os princípios básicos da Lei actual. Haverá sempre pressão para gastar mais e a lei actual tem em si mesma mecanismos de flexibilidade, mas ignorar ou debilitar o quadro geral da Lei existente não é no interesse de longo prazo do país."