sábado, 28 de fevereiro de 2009

Análise da FAO sobre o mercado internacional do arroz

Ainda do Rice Market Monitor, da FAO, que temos vindo a citar:

"Embora em queda, os preços mundiais do arroz continuam a exceder o seu nível de há um ano atrás principalmente por causa dos vários programas de apoio aos agricultores nacionais que estão a ser implementados na China Continental, na Tailândia, Paquistão e Vietname, todos eles dirigidos ao apoio aos preços aos produtores nacionais e aos preços de exportação. Ao mesmo tempo, a continuação de restrições às exportações na Índia e no Egipto têm contribuído também para impedir quedas maiores nos preços.
Estas políticas são parte importante da explicação para o facto de os preços internacionais do arroz não descerem mais comparativamente com o que se passa com os preços de outros cereais no mercado internacional, particularmente o trigo, o qual regressou praticamente aos níveis de preços prevalecentes antes das subidas verificadas a partir de 2007.


Apesar do referido acima, é questionável se os preços mundiais do arroz vão estabilizar a níveis próximos dos actuais. Considerando as perspectivas actuais quanto à oferta e à procura mundiais, o mais provável é que o mercado venha a encontrar o seu equilíbrio a níveis mais baixos de preços.
No entanto, considerando o aumento dos custos de produção e os níveis relativamente elevados de preços oferecidos pelos programas nacionais de incentivo à produção, preços internacionais muito inferiores a 400 USD/ton para as qualidades melhores resultariam em perdas significativas quer para os produtores quer para o sector público dos países exportadores ao mesmo tempo que poriam em dificuldade a prossecução das políticas de auto-suficiência implementadas por vários países importadores.
É neste contexto que o governo da Tailândia está a intensificar os esforços para reforçar a cooperação com outros países exportadores de modo a evitar a queda excessiva dos preços e propôs manter no seu país um nível adequado de stocks como parte da reserva de segurança alimentar da ASEAN.

Assim, depois de um 2008 difícil caracterizado pela subida significativa dos preços do arroz e de outros produtos primários — incluindo o petróleo e os fertilizantes — os governos estão, em 2009, a fazer face a circunstâncias diferentes mas talvez ainda mais exigentes que no passado. Se no ano passado tiveram de intervir em duas frentes de combate — estimular a produção interna mas manter os preços ao consumidor em níveis acessíveis aos consumidores —, este ano, no contexto da crise mundial, poderão agora ter de fazer face a maiores desafios no contexto da crise económica mundial.
De facto, embora a melhoria das condições do mercado de arroz [aumento da oferta] empurre os preços para baixo (o que é bom para os consumidores), a verdade é que o seu acesso ao arroz pode não aumentar devido à redução do rendimento e à crescente insegurança quanto ao emprego. Neste contexto, os governos poderão ter de vir a tomar novas medidas, desta vez para sustentar o preço nos produtores ao mesmo tempo que protegem o poder de compra das populações numa altura em os pedidos de ajuda provenientes de outros sectores estão a aumentar rapidamente."

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Mais outra espreitadela pela janela do vizinho (agora ao mercado de arroz)

Do último boletim Rice Market Monitor publicado (Fevereiro/09) pela FAO (a organização das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura) respigamos o que se diz (pág. 8) sobre a evolução da situação na vizinha Indonésia:

Para promover a auto-suficiência em arroz, o governo [da Indonésia] aumentou em 10% os seus preços de compra (...) para 4300 rupias por kilo (398 USD/ton) e estabeleceu uma meta de 3,8 milhões de toneladas para as compras a efectuar pelo BULOG, a agência oficial de comercialização do arroz. Este aumento dos preços destinou-se a compensar a descida de 28,7% dos subsídios ao fuel ocorrida em Maio de 2008.

Para incentivar o aumento da produção em 2009, o governo aumentou 7% os preços de compra a partir de 1 de Janeiro de 2009. (...) O financiamento aos subsídios para sementes foi aumentado, no total, de 33 para 35 triliões de rupias em 2009 (...).

No âmbito do programa “Arroz para os pobres”, iniciado em 1998, o Bulog tem vindo a distribuir uma ração de 10-15 kilos por mês a 19,1 milhões de famílias a um quarto do preço do mercado. Em Maio de 2008 estas famílias receberam um subsídio pecuniário suplementar no âmbito do programa de pagamentos em dinheiro.”

Aspectos a sublinhar:

a) O governo da Indonésia parece firmemente decidido a aumentar o grau de auto-suficiência do país em arroz, tornando-o menos dependente da importação do cereal e, por isso, das oscilações do preço do mesmo no mercado internacional e das próprias políticas de exportação dos países excedentários. Lembremos, a propósito, as fortes limitações à exportação de arroz impostas no início do ano passado pelo Vietname, a Tailândia e a Índia, o que afectou o mercado internacional e contribuiu para o “disparar” dos preços do cereal no mercado internacional, encarecendo significativamente (cerca de 3 vezes mais) o preço nos países importadores;

b) O preço pago actualmente (depois do aumento de Janeiro passado) pelo Bulog nas suas compras aos camponeses ronda os 425 USD/ton. Recorde-se que, segundo o boletim da FAO que citámos, o preço internacional do arroz “Vietnam 5%” (o de melhor qualidade do país) foi, em Janeiro, de 407 USD/ton (FOB, i.e., colocado dentro do navio, no Vietname, pronto para largar para o seu destino); o preço pago aos agricultores indonésios é, pois, apenas ligeiramente superior ao preço do arroz importado --- do Vietname.

c) O governo concede um subsídio para a compra de sementes de arroz. O aumento da verba orçamentada para este efeito foi, no entanto, muito pequeno, pressupondo-se que não terá havido aumento do seu valor por quilo --- recorde-se que o aumento do valor é quase só equivalente à taxa de inflação verificada.

d) O programa de distribuição de arroz às famílias pobres não prevê a oferta de arroz mas sim a sua venda a um preço que é apenas um quarto do de mercado; além disso é um programa que atinge apenas as famílias que foram consideradas como pobres e não um programa “universal” de venda de arroz a preço bonificado.

e) Finalmente, recorde-se que o arroz nacional é actualmente vendido no mercado ao equivalente a 50 centavos (o arroz importado vende-se ao dobro deste preço). Isto é, o Bulog compra o arroz nacional a cerca de 42,5 centavos o kilo e vende-o a 50 centavos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Uma espreitadela pela janela do vizinho...

Neste caso, do vizinho do lado (e de cima...), a Indonésia.

As imagens abaixo (clicar para aumentar) são das páginas em que, na sua publicação Emerging Asia Economics Montlhly - February 2009, o ANZ analisa o comportamento recente da economia indonésia e faz algumas estimativas em relação ao futuro próximo.


Dos dados que aqui ficam sublinhamos:

a) a estimativa de que a taxa de crescimento do produto se deverá situar nos cerca de 5% em 2009, uma taxa um pouco melhor que as de outros países da região mas que é uma degradação da situação económica do país face à taxa anual de Set2008 (face ao mesmo mês do ano anterior) de 6,1%;

b) a constatação de que a taxa homóloga de inflação em Dezembro passado (Dez2008 sobre Dez2007) foi de 11,1% e que, graças nomeadamente a cortes nos preços (administrados pelo Estado) da electricidade e do petróleo, se espera conseguir alcançar em 2009 a taxa de 6% que foi fixada pelo Banco Central do país como a meta a alcançar. Esta redução da taxa de inflação é uma boa notícia para Timor Leste já que cerca de 40% das suas importações são provenientes da Indonésia;

c) a previsão de que se irá verificar uma gradual (e ligeira) desvalorização da IDR (rupia indonésia) dos actuais cerca de 11400 IDR por USD até aos cerca de 11900 IDR por USD em Setembro próximo; depois dessa data espera-se uma revalorização da rupia até atingir os cerca de 11300 IDR/USD em Junho do próximo ano. A desvalorização referida é também uma boa notícia para Timor Leste e, em conjunto com a evolução (favorável) da taxa de inflação, pode ajudar a exercer menor pressão sobre os preços em Timor.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Um comentário à 'entrada' abaixo

Um comentarista anónimo deixou este comentário na 'entrada' abaixo, relativa às importações por países.

"É interessante verificar que os picos de importações estão relacionados [com] o período orçamental.
Logo a seguir ao Orçamento Rectificativo e antes do fim do ano fiscal. Sobretudo com a decisão do Governo de não transitar verbas de um ano para o outro, é visível uma grande subida nos últimos dois meses do ano. Finalizar os contractos presumo. Sendo que o país cuja importação é mais estável é a Indonésia, pois também está muito ligada ao sector privado. Enquanto que é o Estado a fazer a maior parte das importações dos outros países."

Infelizmente não há estatísticas que confirmem ou infirmem inequivocamente o comentário mas parece-me que há nele alguma razão de ser. Mesmo que não tenhamos a certeza de que as importações de outros países que não a Indonésia sejam, como reivindicado, maioritariamente efectuadas pelo Estado (ou para ele).

O mesmo comentarista anónimo (será? Pelo 'tom' parece que sim) deixou noutra 'entrada' outro comentário de que transcrevemos apenas uma parte, a que julgamos ser mais "substantiva":

"A compra de arroz não foi planeada com a atenção devida pois muito do arroz importado está a estragar-se nos armazéns.

E nos jornais, os produtores locais, queixam-se que ninguém quer comprar o arroz deles. Pois o arroz "MTCI" é bem mais barato do que eles produzem.

A Indonésia pela primeira vez em 2008, passou a ser um país exportador de arroz. Uma das prioridades do Susilo Bambang Yudhoyono (SBY) era que a Indonésia deixasse de estar dependente de outros países em relação ao arroz. Espero que Timor copie o exemplo."

Não sei se se confirma completamente o que alega sobre o estado de conservação do arroz nos armazéns e se se trata de um fenómeno pontual ou mais generalizado.
Mas já quanto ao resto do comentário não há dúvida que um dos resultados da subsidiação do arroz importado foi a queda da venda de arroz nacional com consequente desincentivo à sua produção.
Aparentemente alerta ao problema, o Governo pretendeu "emendar a mão" (parcialmente) através da distribuição de motocultivadores e de tractores. Porém, num contexto de falta de pontos de apoio técnico e de reparação desses equipamentos, estes podem vir a ter uma vida útil muito curta. Isto significa que a doação destes equipamentos NÃO me parece que seja alternativa à política de preços do arroz que tem vindo a ser seguida e que, creio, haveria vantagem em rever. Agora que o preço do arroz no mercado internacional é bem mais baixo que em meados do ano passado, parece-me a altura de o fazer.
Note-se que aqueles "insumos" técnicos se destinam a aumentar a produtividade por hectare e a produção total. Mas os rizicultores podem colocar-se a questão de saber para quê aumentar a produção se a não conseguem escoar? O que levanta a questão da congruência entre uma política de distribuição de apoios técnicos e uma de continuar a subsidiar mais ou menos fortemente o preço do arroz importado.

Por outro lado, nunca compreendi muito bem --- e creio que a Economia não consegue compreender muito bem... :-) --- porque é que o preço do arroz nacional tem sido sistematicamente muito superior ao preço do arroz importado.
Creio que há neste comportamento dos agricultores nacionais uma certa "herança do passado" que não lhes permitiu, deixando vir ao de cima o "homo oeconomicus" que existe neles, adaptarem-se completamente aos "tempos modernos", baixando o preço do seu arroz de modo a que ele se torne competitivo com o arroz importado. Se isto é verdade, como resolver a questão?
Mais cedo ou mais tarde a pressão do mercado virá (?) a ditar a sua lei mas como fazer que isso ocorra mais cedo em vez de mais tarde?

Por fim, a política (que chegou a ser anunciada) de passar a comprar arroz a subsidiar apenas em Timor Leste não nos parece exequível a curto-médio prazo devido ao diferencial existente entre a quantidade procurada e a produzida. Subsidiar (parcialmente) a produção nacional será uma alternativa. Veja-se o que neste domínio está a fazer a Indonésia, diferenciando significativamente os preços internos dos de importação (bem mais altos) mas é necessário ter atenção que a capacidade de aumentar a produção no país vizinho parece ser bem maior que a existente em Timor Leste.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Importações: evolução mensal por países

No gráfico abaixo pode ver-se a evolução mensal das importações de Timor Leste por países de origem dos produtos. Vê-se também a evolução do total das importações (lido no eixo direito do gráfico).

É fácil de verificar que ao longo do ano se verificou progressivamente um aumento do valor mensal das importações e que esta tendência geral se manifesta, grosso modo, em todos os países representados --- ainda que de uma forma mais nítida no principal fornecedor do país, a Indonésia.
Repare-se igualmente na evolução das importações do Vietname, muito marcadas pelas importações de arroz. Infelizmente as Alfândegas e a Direcção Nacional de Estatística não divulgam informações cruzando a origem das importações e o tipo de produtos importados. Mas em relação ao Vietname não há grandes dúvidas sobre "de onde vem o quê"...
Em relação a este produto seria interessante dispor do preço por tonelada importada em cada mês --- particularmente o preço pago pelo importadores de "arroz do Governo" --- a fim de o comparar com o preço estipulado nos contratos entre o Governo e alguns importadores.

Sabendo-se, por outro lado, que o quilo de arroz nacional (da Indonésia) no país vizinho é de 50 centavos/kilo e que o preço do arroz importado é de 1 USD/kg, há que investigar se não estará a haver alguma reexportação --- via fronteira terrestre mas não só --- de arroz importado e subsidiado pelo Governo de Timor Leste para Timor Ocidental, por exemplo.

Estrutura da origem (países) das importações em 2008

O gráfico abaixo ilustra a origem das importações, por países, realizadas por Timor Leste em 2008.
Repare-se que a Indonésia fornece 42% das importações do país, seguida de Singapura, com 17% e a Austrália, com 14%.
A importância desta última encontra alguma justificação na forte presença de "internacionais" no país, que consomem produtos de uma qualidade média superior aos que vêm da Indonésia.
Responsável principal da importância desta no comércio externo é a factura petrolífera paga pelo país, assim como a importância significativa das importações de veículos têm reflexo parcial na importância dos fornecimentos de Singapura ao país.
Portugal representa apenas 1,2% das importações de Timor.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Uma simples continha de "sumir"...

Se o "rendimento sustentável" para este ano tivesse sido calculado hoje tendo em consideração o preço médio do petróleo desde o início de 2009 (40,50 USD/barril) ele seria de cerca de 240-250 milhões de USD e não, como consta do OGE2009, de cerca de 400 milhões.
O que não deixaria de ter fortes consequências sobre o valor global do Orçamento, que certamente veria comprometidos muitos dos projectos que dele constam.
Para se ter uma ideia da importância do impacto refira-se que a diferença de 150 milhões é bem mais que TODO o orçamento para este ano do Ministério das Infraestruturas (130 milhões USD).

Esta instabilidade deveria ser mais tomada em consideração na formulação dos Orçamentos, já que, aparentemente, o rendimento sustentável é apenas "mais ou menos sustentável"...
Não descurando as necessidades de desenvolvimento do país, terá de haver, no processo de formulação dos OGE anuais, um melhor enquadramento das capacidades de financiamento numa perspectiva de médio prazo (e não no curto prazo) e das próprias capacidades de execução orçamental.
É que por vezes fica-se com a sensação de que na formulação do orçamento se toma mais em consideração o que há HOJE na algibeira para gastar do que o que haverá na algibeira num período de cerca de 3 anos (p.ex.) e as despesas que somos capazes de efectuar. Mais olhos que barriga?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Estatísticas monetárias de 2008: alguns elementos estatísticos

A Autoridade Bancária e de Pagamentos de Timor-Leste (ABP) disponibiliza mensalmente as estatísticas monetárias do país. Delas consta a evolução mensal de vários dos agregados monetários mais comuns.
No gráfico abaixo representa-se a evolução de quatro desses agregados: as "disponibilidades líquidas sobre o exterior" (grosso modo os recursos financeiros de entidades com sede em Timor Leste depositados no estrangeiro), as "disponibilidade líquidas do Governo central" no sistema bancário do país --- principalmente no banco central, a própria ABP ---, os depósitos de particulares nos bancos comerciais e o volume de crédito ao sector privado concedido pela banca comercial (o Estado timorense não tem dívida pública interna ou externa).

Como se pode verificar as curvas representadas "casam" duas a duas.
A das disponibilidades líquidas sobre o exterior tem um comportamento ascendente a partir de meados do ano e, durante todo o ano, paralelo ao das disponibilidades líquidas do Governo Central. Isto porque elas correspondem essencialmente a depósitos da ABP no estrangeiro para garantir alguma rentabilidade dos recursos que o Governo tem nela depositados.
Uma alternativa (parcial) seria depositar parte destes recursos na banca comercial do país mas isso iria "encharcá-la" (ainda mais) de dinheiro. Como estes têm, eles próprios, acesso a depósitos do sector privado muito maiores do que os necessários ao financiamento dos empréstimos que concedem tenderiam usar esse excesso de liquidez para o depositarem no exterior.

O comportamento ao longo do tempo dos empréstimos também está representado no gráfico, sendo notória a grande estabilidade que eles conheceram no seu montante global.
Tal estabilidade, num país em desenvolvimento, não é bom sinal e traduz, aparentemente, uma atitude de "wait and see" por parte dos investidores e/ou uma atitude mais prudente por parte da banca na concessão de empréstimos --- não esquecer que os bancos que normalmente concedem crédito atravessaram um período difícil em 2006 e 2007 e estarão a tentar recompor-se dos níveis elevados de crédito mal-parado que têm nos seus activos.


Finalmente, saliente-se, no gráfico acima, que o segundo trimestre foi um período de elevado crescimento dos depósitos. É provável que o facto de estes terem sido meses de pagamento de muitas das indemnizações a vários grupos sociais do país tenha algo a ver com esta evolução.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Continuando...

Continuemos a análise dos dados sobre o comércio externo do país em 2008 olhando para a sua discriminação por tipo de produtos.
Do gráfico abaixo percebe-se que o principal item quanto ao valor gasto na sua importação foi o "petróleo", designação genérica que abarca o conjunto dos produtos petrolíferos refinados importados. De facto, com 28,4% do total, ele fica bem à frente do "segundo classificado", os veículos (16,2% do total importado) e dos "cereais", de que o principal é o arroz (10,1%).
Repare-se que a soma dos valores dos dois primeiros items foi, só por si, de quase metade das importações (na verdade 44,6%), o que nos parece francamente excessivo mas justificado, em parte, pela subida significativa do preço do pretróleo durante o ano. De qualquer forma os números sugerem a necessidade de se pensar numa política energética e de importações de viaturas que faça descer esta (enorme) factura.

Os dois items seguintes em importância são as máquinas mecânicas e as eléctricas. Nestas últimas incluem-se muitos equipamentos de consumo (duradouro) --- máquinas para o lar, equipamentos de escritório, etc --- e isso deixa antever um esforço de equipamento "efectivamente produtivo" relativamente reduzido, o que não poderá deixar de ser considerado como preocupante numa perspectiva de desenvolvimento do país no médio-longo prazo. O que fica dito deve ser "qualified" já que, nomeadamente quanto aos equipamentos para escritório e para os vários hotéis/compounds entretanto abertos no país --- particularmente em Dili ---, parte deste material importado será, de facto, susceptível de ser considerado como produtivo.

Uma outra análise que se pode fazer dos valores da importação por produtos e do valor global das importações é o da sua ditribuição ao longo do tempo. É isso que é ilustrado no gráfico abaixo sobre a evolução mensal das importações.


Por ele se confirma que a subida significativa do valor do petróleo importado acompanhou, grosso modo, a evolução do preço internacional do crude e seus derivados, que subiram até Julho-Agosto, altura em que começaram a descer.
O gráfico permite também verificar a grande instabilidade das importações de "cereais" (leia-se: arroz). Infelizmente não dispomos de informação sobre a evolução dos preços médios da importação de arroz em cada mês de forma a poder compará-los com o preço do contrato de abastecimento assinado entre o Governo e duas empresas importadoras (900 USD/ton) e a evolução do preço do arroz no mercado internacional.
Essa informação é importate para determinar se o arroz importado ao abrigo do contrato referido terá sido, ou não, pago a um valor "justo" --- isto é, consentâneo com a evolução do preço no mercado internacional, em nítida queda desde meados do ano --- ou se, por ter sido assinado num momento em que os preços estavam no seu ponto mais alto, o Governo está a pagar mais do que pagaria se o arroz fosse comprado actualmente no mercado internacional a um preço próximo do deste mercado.

O gráfico permite também "visualizar" dois outros fenómenos:
a) o de que as importações mensais se mantiveram em valores relativamente estáveis nos primeiros meses do ano, tendo subido de valor de Junho em diante. Mais uma vez o preço do petróleo pode ser parte da justificação mas o referido comportamento tem de ter também outras justificações pois o preço do petróleo começou a descer mas o valor das importações foi aumentando, atingindo o record em Dezembro. Uma dessas outras explicações é a importação de veículos, cujo valor foi muito influenciado pela importação de viaturas para o Parlamento Nacional num processo de todos conhecido.
b) a importação de "veículos" terá sido, mesmo, a que teve uma subida mais consistente ao longo do ano. Acreditamos que a distribuição de dinheiro feita a vários grupos sociais em meados do ano e a redução significativa das taxas aduaneiras a partir de 1 de Juho de 2008 desempenharam um papel importante nesta evolução.

Isto faz-nos recordar o que dissemos --- e ouvimos outros, bem mais qualificados, dizer --- sobre a política de taxas alfandegárias (protecção aduaneira) então adoptada: ela corresponderá a uma liberalização das trocas externas "too much and too soon", que "ajuda" a economia nacional a, devido à disponibilidade de recursos para importar, quase "desistir" de produzir internamente alguns bens que, se houvesse alguma dose de protecção do mercado nacional, poderiam ser produzidos "dentro de portas" e ajudar a reduzir o problema do desemprego. Assim corre-se o risco de se instalar uma lógica de "para quê darmo-nos ao trabalho de produzir (mais caro?) cá dentro se podemos comprar (mais barato) lá fora e temos o dinheiro para o fazer?!...".
Esperemos para ver.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Alguns dados estatísticos sobre o comércio externo de Timor Leste

As estatísticas (económicas) são para os economistas o que o estetoscópio é para os médicos: é com elas (mas não só) que eles "auscultam" as economias dos países e fazem o diagnóstico das suas "maleitas" --- primeiro passo para as atacar e curar. Daí a GRANDE importância em ter um bom "estetoscópio" --- leia-se um bom aparelho estatístico, com informações dignas de confiança sobre a evolução de várias variáveis económicas.

Vem isto a propósito das últimas informações conhecidas sobre o comércio externo de Timor Leste, recolhidas em primeira mão pelos serviços alfandegários do país e depois trabalhadas e divulgadas pela Direcção Nacional de Estatística. Esta tem feito um grande esforço para produzir informações de qualidade mas admitimos que aqui e ali haja algumas falhas, nem sempre por culpa própria.
É o caso, por exemplo, das estatísticas do comércio externo pois, devido às circunstâncias em que decorreu a vida em Timor Leste em 2006 e 2007, as Alfândegas do país não foram capazes de disponibilizar dados completos sobre os movimentos de mercadorias (exportações e importações) nesses anos --- no último devido ao incêndio que devastou as suas instalações centrais em Dili.
Isto, além de nos deixar sem um boa informação relativamente ao que ocorreu no comércio externo do país naqueles anos, torna impossível um estudo da evolução ao longo do tempo desse comércio.
A título de exemplo, não há dados para os cinco últimos meses de 2007; quase meio-ano. Em relação a 2006 também não há informações completas. Isto faz com que os dados destes dois anos estejam incompletos.
Para colmatar esta falha de informação, o FMI procurou estimar os valores do comércio do país em 2006 e 2007 e na sua última publicação com dados estatísticos de Timor Leste diz que as importações e exportações nos dois anos referidos terão sido, respectivamente, 123 milhões de USD e 200 milhões para o caso das importações (2006 e 2007) e de 9 e 8 milhões, no caso das exportações (quase exclusivamente de café).
Note-se que as estatísticas oficiais registam, para as importações nos 10 meses de 2006 para que há valores disponíveis, um valor de cerca de 88 milhões. Se fizermos uma extrapolação destes valores para os 12 meses do ano, as importações poderão ter sido, segundo esta estimativa baseada nos dados oficiais, de cerca de 105 a 110 milhões de USD --- cerca de 10% menos que o estimado pelo Fundo.
Os dados estatísticos oficiais disponíveis para 2007 são relativos apenas a 5 meses, durante os quais se terá verificado uma média mensal de cerca de 17 milhões USD de importações. Uma extrapolação de valores permitirá "estimar" (muito grosseiramente) as importações totais em 2007 em cerca de 200 milhões, exactamente o valor estimado pelo Fundo Monetário Internacional.

E em 2008?

Os dados oficiais disponíveis (clique no quadro abaixo) permitem concluir que terá havido um total de cerca de 238 milhões de USD de importações de mercadorias (note-se que as destinadas a uso pela ONU e as forças militares internacionais não são aqui contabilizadas).

Quanto às exportações, elas terão atingido cerca de 12 milhões de USD --- mais uma vez quase só de café.
Note-se que o valor das importações constantes das estatísticas oficiais (para o ano de 2008 completo) está significativamente abaixo do valor que tinha sido estimado pelo Fundo: 309 milhões de USD. Esta estimativa ultrapassou em 70 milhões de USD os valores efectivamente verificados segundo os dados oficiais, o que constitui um "erro" de 30% em relação a estes.
É provável que a forte descida de determinados preços de bens importados durante o segundo semestre de 2008 (nomeadamente o petróleo e o arroz) e, eventualmente, um nível de actividade económica menor que o inicialmente previsto --- nomeadamente a uma despesa pública menor devido a dificuldades de execução do Orçamento --- sejam duas das principais razões para o desfasamento entre a estimativa do Fundo e a realidade observada.

Salientemos finalmente (por agora) um aspecto relativo às importações: as médias mensais em cada um dos trimestres foram sempre aumentando ao longo do ano, atingindo a do último trimestre quase o dobro da que se tinha registado no primeiro trimestre.
Mais uma vez, o facto de os preços médios no final do ano terem sido superiores aos do início é parte da explicação mas não é a única, certamente. Aparentemente está mesmo a verificar-se uma situação que não nos parece muito saudável sob o ponto de vista económico: o país está cada vez a importar proporcionalmente mais, gastando assim uma parte dos seus recursos em consumos não necessariamente reprodutivos no médio prazo.
Veremos se no futuro próximo esta tendência se mantém ou se é (pelo menos parcialmente) corrigida. Caso contrário poderá vir a intensificar-se a tendência a que o que entra na "banheira" graças à "torneira" dos recusos do Mar de Timor saia pelo "ralo" das importações sem que isso represente uma melhoria do sistema produtivo não-petrolífero do país. Para isso é importante que seja possível implementar efectivamente os projectos de investimento em infraestruturas e no aparelho produtivo nacional que estão previstos.

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