terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Alteração do preço do petróleo e consequência sobre o "rendimento sustentável"

Já aqui referimos que, a acreditar em várias fontes e na actual situação do mercado internacional, nos parece demasiado optimista a estimativa de preço médio do petróleo em 2009 que, no OGE2009, serviu de base ao cálculo do "rendimento sustentável" a retirar este ano do Fundo Petrolífero.
Para além de o FMI e outras entidades, agora é também a empresa de consultoria GCP que, em publicação de 28Jan passado vem dizer (veja-se imagem abaixo; enfases nossas) que o preço se situará, muito provavelmente, não nos 60 USD/barril estimados no Orçamento mas sim nos 50 USD/barril . E isto apesar de neste início de ano ele andar pelos cerca de 40 USD/barril e de ela admitir que na Primavera o preço pode, até, ser ainda mais baixo, na casa dos 30 e picos dólares.
O que fará o preço médio aumentar relativamente a estes últimos valores é o início do (lento) retomar da actividade económica em vários países mais afectados pela actual crise económica durante a segunda metade do ano e os cortes na produção que a OPEP já anunciou ir fazer no futuro.

Ora, que consequências é que esta evolução terá no recalcular do "rendimento sustentável" na já habitual revisão a meio do ano do Orçamento anual?
O próprio Orçamento de 2009 dá a resposta ao incluir um quadro sobre a sensibilidade desse "rendimento sustentável" às alterações dos pressupostos que permitiram o seu cálculo (veja-se o gráfico abaixo).


Da sua consulta resulta que se estima que uma redução de 10 USD/barril no preço médio do petróleo no mercado internacional provocará uma redução de 85 milhões de USD no valor global do referido "rendimento sustentável". Isto é: a confimar-se a descida de 60 para 50 USD/barril do preço médio do petróleo para 2009 o rendimento sustentável passará a ser de 323 milhões de USD em vez dos 408 actualmente previstos.
Curiosamente os 85 milhões de diferença são exactamente o que está orçamentado para este ano para a construção das duas centais eléctricas previstas e da rede de distribuição de energia --- num toal de 365 milhões a pagar até 2011.

Face a isto, será interessante ver qual será a estratégia do Governo aquando da revisão orçamental: irá reduzir o Orçamento global em conformidade com o valor de quebra do "rendimento sustentável"? Irá manter sensivelmente o valor global da despesa pública e pedir ao Parlamento Nacional que aprove uma retirada do Fundo para além daquele "rendimento" que compense a queda deste? E o que vai acontecer a estas "retiradas" extraordinárias? Será pedida a sua inconstitucionalidade tal como no ano passado? E se for? As alterações na composição do Tribunal de Recurso resultarão numa alteração da sua posição em relaçao ao passado recente?
O melhor é mesmo esperar para ver.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Comentário aos comentários aos comentários... :-)

Este não é um verdadeiro comentário aos comentários aos comentários mas sim um complemento aos comentários aos comentários... :-)

Há um conceito económico que é o de "termo de troca":
"Termo de troca (terms of trade) A taxa à qual as exportações são trocadas pelas importações; é dado pelo rácio entre o índice de preços das exportações (ou o valor médio unitário destas) e o índice de preços das importações (ou o seu valor unitário médio). Uma melhoria (degradação) dos termos de troca corresponde a um aumento (diminuição) deste rácio: um dado volume de exportações permite pagar um maior (menor) volume de importações" (vd um glossário de termos económicos criado por mim).

Se, como vamos fazer abaixo, calcularmos o rácio "ao contrário", trocando o denominador com o numerador, então uma subida do valor do rácio significa que a situação do país se degrada porque agora tem de exportar mais para obter a mesma quantidade do produto importado.

Vejamos um exemplo concreto:
o preço médio de cada tonelada de arroz (da melhor qualidade: Thai White 100% B second grade) em 2008 foi de 695 USD e o preço médio do barril de petróleo bruto foi de 98,24 USD. Dividindo o primeiro pelo segundo significa que cada tonelada de arroz "custou", no ano passado e em média, 7,07 barris de petróleo.

Por outro lado, os preços médios daqueles produtos em Janeiro deste ano foram, respectivamente, 385 USD/ton e 41,52 USD/barril; o rácio dá 9,27 barris de petróleo por tonelada de arroz.

Temos, pois, que, se medirmos o custo do arroz (importação de Timor Leste) em termos de barris de petróleo (exportação de TL), Timor tem agora de exportar mais barris de petróleo para comprar a mesma tonelada de arroz.

Conclusão? Apesar de as importações de Timor NÃO serem só de arroz e de as exportações serem quase só de petróleo, é provável que as contas acima dêem uma ideia aproximada dos ganhos e perdas relativas do país.

Fundo Petrolífero: os principais números em 31.Dezº.2008

A ABP acaba de divulgar o relatório sobre a gestão do Fundo Petrolífero durante o quarto trimestre de 2008, sendo os valores finais reportados a 31 de Dezembro do ano passado.
Desse relatório reproduzimos abaixo o seu "Sumário Executivo":

"SUMÁRIO EXECUTIVO

O Fundo Petrolífero foi constituído pela entrada em vigor da Lei do Fundo Petrolífero, a qual foi promulgada em 3 de Agosto de 2005. A lei dá à ABP a responsabilidade pela gestão operacional do Fundo.
Este relatório refere-se ao período de 1 de Outubro a 31 de Dezembro de 2008.
Durante este período a ABP continuou a investir todos os fundos recebidos de acordo com o mandato acordado com o Ministério das Finanças em que se especifica uma benchmark de referência constituída por Títulos do Tesouro dos Estados Unidos com maturidade até cinco anos e em que são especificadas também determinadas medidas de desempenho da gestão dos fundos recebidos.
No decurso do trimestre o capital do Fundo cresceu de 3738,35 milhões de USD para 4196,97 milhões de USD, correspondentes a receitas brutas em dinheiro durante o trimestre de 585,81 milhões de USD, que incluem uma verba de 183,78 milhões de USD pagos pelos contribuintes a título de imposto e uma verba de 402,02 milhões USD correspondentes a “royalties”.
No trimestre verificou-se uma saída de dinheiro de 256,53 milhões de USD --- por uma transferência para o Orçamento de Estado de 256 milhões de USD e de uma taxa de gestão de 531,7 mil USD para a ABP --- enquanto que as entradas líquidas foram de 329,28 milhões de USD.
A carteira do Fundo Petrolífero rendeu no período 3,3% ou 330 pontos base enquanto que o rendimento da benchmark no trimestre foi de 3,36% ou 336 pontos base. O rendimento do Fundo Petrolífero foi, assim, 10 pontos base abaixo do da benchmark, o que o coloca dentro do intervalo de ±25 pontos base fixados como meta no seu mandato de gestão."

Com base nos relatórios trimestrais publicados desde o início do Fundo, em Setembro de 2005, construímos o quadro e o gráfico abaixo que sintetiza a principal informação sobre a sua vida.

Clique no quadro para o tornar legível



Comentários aos comentários

Quer aqui quer, principalmente, no blog Timor Lorosae Nação (que fez o favor de me citar e remeter para o meu escrito) houve alguns comentários ao que escrevi na entrada anterior sobre declarações da Ministra das Finanças.
Não sendo este o local para responder a todos os comentários --- um ou outro precisaria, provavelmente, de um "relambório" de muitas páginas... ---, aqui ficam algumas notas, as primeiras das quais copiadas de uma resposta que escrevi nos comentários do TLN.

1) Nestas coisas como em muitas outras há um "deve" e um "haver", as despesas e as receitas. O Dr. António Franco, ilustre economista moçambicano que dirige a delegação do Banco Mundial em Timor Leste, falou apenas de despesas e sabendo-se que houve uma queda significativa do preço do petróleo (importado) e do arroz (importado) é fácil concordar com ele de que Timor vai pagar menos pela mesma quantidade (ou até uma maior) destas importações; já não tenho a certeza que que TODAS as importações sofram o mesmo "destino", nomeadamente as destinadas aos grandes projectos --- até porque eles estão sujeitos a contratos aparentemente já assinados e que estipulam um preço que não será, previsivelmente, alterado seja qual for a conjuntura internacional. Mas nisto o que interessa realçar é o SALDO LÍQUIDO entre as despesas e as receitas e era a este saldo que eu me referia como não justificando "embandeirar em arco". Disse e repito... Moral da história: temos ambos razão naquilo que dizemos; só que não estamos a falar da mesma coisa --- um fala de alhos e outro de bugalhos... Como eu penso que se deve falar principalmente do saldo líquido dos dois lados do balanço e não de um só, penso que tenho mais razão que o meu amigo António Franco :-). Mas, provavelmente, se ele tivesse falado do mesmo que eu talvez (ele é que sabe e eu não o comprometo...) tivesse dito o mesmo que eu disse... Entendidos?

2) quanto ao acerto ou desacerto das previsões do Banco Mundial (e do FMI --- e, até minhas) aconselho os leitores a não serem tão crédulos. O Banco Mundial erra tanto como os outros porque é esse o malfadado destino de quem faz previsões. Se quiserem faço-lhe o historial recente das previsões do FMI em relação à evolução do produto mundial. Mas talvez baste recordar que em Novembro ele estimava que o preço médio do petróleo em 2009 seria de 68 USD/barril e dois meses depois já estimava que seria de 50 USD/barril --- apesar de dois meses antes já haver quem estimasse os mesmos 50 USD... Nestas coisas não há "bruxos" e infalíveis. E não me parece que nem o FMI nem o BM se possam gabar de serem infalíveis. Já vi o FMI prever uma taxa de crescimento para Timor Leste de +3% e depois reconhecer que afinal foi de... -6% ou lá perto... Portanto, já sabem: acreditar na Bíblia é uma questão de fé e não me parece que nem o BM, nem o FMI nem eu tenhamos o dom de acertar tudo sempre. "Defeito" de a Economia ser uma das Ciências Sociais e não um ramo das ciências exactas... É fundamental, pois, que as pessoas ponham de parte a ideia de que o que o BM ou o FMI ou outra instituição internacional de nomeada dizem é a verdade absoluta. Não é e têm de se habituar (as instituições e nós...) de que é assim.

3) (pelo menos) um dos comentários dá a entender que a política económica de Timor é uma resposta à crise económica mundial. É (para mim...) evidente que não é (ou, pelo menos, não o é principalmente; nem tinha de ser): a crise, com origem nos Estados Unidos, espalhou-se pelo mundo nomeadamente porque "de repente" quase deixou de haver dinheiro para financiar a actividade económica corrente, o que levou à queda da produção e, com ela, das importações. E se diminuem as importações de uns países isso significa que baixam as exportações de outros, o que vai produzir efeitos negativos nas economias exportadoras, desde as europeias às de vários países em desenvolvimento --- até a China está cofiando a barba a pensar se a deve pôr ou não de molho. Por isso "a coisa está preta" para tantos países: a queda de uma carta no "castelo de cartas" fez ruir este!
Ora os principais mecanismos de transmissão da crise para Timor passam pela queda dos preços do petróleo e pela queda da taxa de juros pois, para além do petróleo, Timor não exporta quase nada (é, como referiu a Ministra Emília Pires, uma economia importadora --- porque tem o dinheiro do petróleo para o fazer; lembro aqui a "minha" "teoria da banheira" referida algures lá para trás... ). Como, porém (e bem) a Lei do Fundo Petrolífero instituiu este não só para servir de poupança para as gerações futuras mas também --- e há muitos que esquecem este pormenor importante --- para servir de "tampão" entre as oscilações do preço internacional do petróleo e a economia nacional, os reflexos das alterações deste preço fazem-se sentir principalmente e em primeiro lugar no Fundo mas não necessariamente na economia pois a ligação entre o dinheiro do petróleo (e a economia mundial) e a economia nacional é o Orçamento de Estado e seu financiamento pelo Fundo. Como este E, PRINCIPALMENTE, A SUA EXECUÇÃO não foi/não será (?) significativamente afectado/a pela queda do preço do petróleo --- bem mais importante que ele é a capacidade de execução dos projectos, onde há MUITO a melhorar ---, a economia de Timor acaba por ficar relativamente "isolada" da crise. "Apenas" (e não é pouco...) o Fundo será afectado. Este "isolamento" é, neste caso, bom para o processo de crescimento.

4) Finalmente, um dos leitores diz que, do que escrevi, não compreende bem o que penso sobre a política económica de Timor Leste. Não fique triste por não ter compreendido... :-) Não compreendeu nem tinha de compreender... porque eu não falei do assunto! Se estiver atento ao que escrevi (está tudo aqui desde o início do blog...) e ao que virei a escrever é fácil deduzir o que penso: penso bem de umas coisas (p.ex., a decisão de ter acabado com os carry over e substitui-los pela necessária re-orçamentação sempre que seja necessário) e penso não muito bem (eu sou um diplomata a dizer as coisas... :-) ) de outras (por exemplo, a decisão em relação às centrais eléctricas --- penso que haverá alternativas melhores à decisão tomada sem colocar em risco o objectivo dela --- e a forma como feito o pagamento de várias subvenções no ano passado --- repito: a forma, não o conteúdo...).
Mas ainda aqui devo chamar a atenção para uma coisa: as análises das políticas económicas podem/devem ser feitas "antes" de elas serem implementadas mas devem, com maiores bases, ser feitas depois de o serem e em função dos resultados alcançados. Prometer (nomeadamente nos Orçamentos) é fácil; fazer, e principalmente de uma forma sustentada, é que é mais difícil. Em Timor ou em Portugal ou noutro país qualquer. Ou não se lembram da "estória" da criação de 150 mil novos empregos prometida pelo actual governo português. Lições: a) confiar desconfiando; b) no final a gente conversa...

5) tenho dito... :-)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

"Olhe que não, Drª! Olhe que não!..."

Ficou célebre em Portugal um "Tête a tête" televisivo entre Mário Soares e Álvaro Cunhal em que este se repetia continuamente comentando o seu interlocutor com um "olhe que não, dr., olhe que não".

Lembrei-me desta frase a propósito do que alguns media relatam como tendo sido afirmações da Ministra das Finanças da RDTL, Drª Emília Pires, numa conferência de imprensa no rescaldo da aprovação do OGE2009.
Segundo essas fontes ela terá dito

Como país que importa quase tudo e tem falta de infra-estruturas básicas, o colapso dos preços a nível global são uma dádiva do céu.”

“A Ministra de Finanças disse que na actual crise económica mundial, a desgraça de todos os outros tem sido uma "boa oportunidade" para Timor Leste...

Sinceramente, não vejo como sustentar estas afirmações. Daí o "olhe que não, Drª!... Olhe que não!"

Vejamos uma das afirmações e que parece desempenhar um papel central na argumentação da Ministra: "o colapso generalizado dos preços".
Abaixo podemos ver os gráficos das estimativas mais recentes do FMI (Jan/09) sobre a evolução das taxas de inflação em 2009 e 2010 no conjunto das economias mais desenvolvidas e nas economias em desenvolvimento:




Deste gráfico pode deduzir-se que vai haver, de facto, uma forte redução da taxa de inflação mas que esta, nos países em desenvolvimento, vai apenas e quase no sentido de retomar as taxas anteriores à forte subida dos preços dos combustíveis (e algumas outras matérias primas) iniciada em 2005-06.
Quanto às economias mais avançadas a queda é para níveis historicamente muito baixos (cerca de 0,3% em vez dos anteriores 2,1% em 2007 e 3,5% em 2008) mas, tal como no caso dos países em desenvolvimento, deve-se à conjugação de uma forte queda do preço das matérias primas (principalmente o petróleo) e da queda da procura a nível mundial devido à falta de dinheiro disponível no mercado.
Mas será esta "desgraça dos outros" suficientemente forte para justificar que se diga que isso é "uma boa oportunidade para Timor"? Repare-se que os preços vão continuar a subir --- e não a baixar; o seu ritmo de subida é que vai abrandar um bom bocado... O que não é bem a mesma coisa... Terá havido aqui algum "tomar a nuvem por Juno", isto é confundir queda da taxa de inflação com queda dos preços. O que vai acontecer é que os preços --- em média mundial --- vão passar de 100 para 102,5 em vez de para 105, p.ex; eles NÃO vão baixar para 95! A não ser uns quantos, como se vê adiante). Onde está, então, o "colapso dos preços"?

Isto é: a queda dos preços (em geral) NÃO se vai verificar apesar da forte queda do ritmo da sua subida. Por isso não me parece que seja de se "embandeirar em arco" até porque... há preços e preços...


De facto, dos preços que interessam a Timor o preço que mais vai descer em relação ao passado recente é o do petróleo --- mas este é exactamente o preço que interessava a Timor Leste que se mantivesse mais alto para maximizar as receitas petrolíferas, o capital do Fundo Petrolífero e... o rendimento deste transferível para financiar o Orçamento do país.
Não vejo, portanto, em que é que isto beneficia o Timor Leste. Antes pelo contrário já que as poupanças que se fazem na importação dos derivados (destilados) do petróleo não compensam o que se perde na exportação do petróleo bruto. É bom não esquecer que as estimativas actuais são de que o preço médio do petróleo em 2009 será de 50 USD, contra os cerca de 100 no ano passado --- uma queda para metade! Hoje está nos cerca de 40 USD/barril.

Dois outros preços muito importantes para Timor Leste são o do arroz e o do café. Do primeiro porque a população depende significativamente, para a sua alimentação, do arroz importado --- mais "as cidades [do qu]e as serras".
Aqui não há dúvida: o país vai beneficiar (proporcionalmente mais o governo do que as pessoas porque aquele vai ver baixar significativamente (?) o nível do subsídio a conceder na venda de arroz).Quanto ao café, porque ele é praticamente o único produto não-petrolífero exportado pelo país, a possível queda do seu preço prejudica o país e, em particular, os cultivadores timorenses.

Até agora, portanto, parece-nos que não há nada que justifique o entusiasmo da Ministra das Finanças.

Mas então em que estava ela a pensar quando disse o que disse --- e, na minha opinião, não devia ter dito... Mas disse e está dito não advindo daí grande mal ao mundo. Como um colega meu explicava ao professor de Português por se rir quando já todos estavam calados: "saíu-lhe pela boca"...

O raciocínio parece ser simples --- mesmo simplista... --- e ser do tipo: compramos quase tudo no exterior e vamos comprar tudo mais barato! Claro que o "tudo" aqui é uma força de expressão. Timor Leste é, de facto, principalmente importador (comprador no mercado internacional) mas a verdade é que também é exportador. Principalmente de petróleo e gás natural, cujos preços estão em forte queda, como vimos.

No que a Ministra estava também a pensar --- "penso seu de que", na versão Pinto da Costa --- é que a construção das tão apregoadas infraestruturas iria ser agora também mais barata. Mas isso não é necessariamente assim: é que boa parte delas serão contratadas no exterior e os preços a pagar não serão necessariamente mais baixos por causa da crise. Até porque haverá também que ter em atenção a evolução da taxa de câmbio do USD, que não permite grandes optimismos.

Finalmente, há que ter em consideração o que se passa quanto às taxas de inflação nos países vendedores. Sendo a Indonésia fornecedora de cerca de metade das importações de Timor Leste, interessa saber o que se vai passar neste país quanto à inflação. O gráfico abaixo ilustra a evolução recente da taxa de inflação na Indonésia

Depois de ter atingido os 12,1% em Setembro passado (relativamente a Setembro de 2007), a taxa de inflação começou a diminuir e em Janeiro passado estava nos 9,2% (face a Jan/08). A taxa meta estipulada pelo Bank Sentral Indonesia para 2009 é, no entanto, 4,5% (+/- 1%).
Mais uma vez não se trata de baixa dos preços mas sim de um menor ritmo de subida deles.

Moral da história: parece-me que não há, de facto, razões para grandes euforias. Embora se possa esfregar as mãos de contente por ir pagar um pouco menos do que se pensava vir a pagar... Mas será isso suficente para esquecer que as receitas (petrolíferas) vão ser muitoooo menores que no passado recente? Naaaaaa...

E isto para não falar de um aspecto já aqui referido noutras ocasiões: o de que as taxas de juro e o montante dos juros a receber pelo Fundo Petrolífero vão ser, no futuro próximo, muito mais baixos.

Onde está então a "boa oportunidade para Timor"? Pagar um bocadinho menos do que se julgava que se ía pagar com bem menos dinheiro vivo na algibeira? Bah!...

E para os mais dados a coisas mais "radicais"...

... aqui vai uma sugestão "cambodjana": um "tuk tuk" que é simplesmente o atrelado a uma motorizada... Em algumas zonas rurais de Timor Leste ele faria um jeitão!

Fonte: ver aqui

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Ainda a questão da tracção animal

Um comentarista (a quem agradeço) da mensagem abaixo sobre a utilização da tracção animal em Timor Leste escreveu o seguinte:

"Pura e simplesmente vergonha.

E também um pouco porque nem os Indonésios utilizam esse sistema de transporte bovino (STB). Já fui a várias das ilhas indonésias (Java, Sumatra, Bali, Kalimantan) e raramente é utilizado como transporte. Uma vez que da experiência deles vem dos Indonésios e dos Portugueses e nenhum deles utilizada o STB eles também não o utilizam.

E agora com tantos carros a serem distribuídos muito menos.

Status conta e quem anda de STB nunca poderia ter um status muito elevado."

A isto eu respondi:

"Não o mencionei no meu texto [a questão da vergonha e do status] mas por vezes tenho colocado essa hipótese mas, principalmente, a "contrária": i.e., não é apenas um caso de "status" do homem mas (mais?) uma questão de status do animal. Tendo os karaus e os kudas um papel tão importante no imaginário das populações (nomeadamente como símbolos de riqueza), é possível que os donos não queiram "degradar" o estatuto dos animais porque, indirectamente, isso será uma forma "degradar" o seu próprio estatuto. Fará esta hipótese algum sentido?"

O que pensam disto? Quem sabe a resposta?

PS - Podem ver AQUI informações sobre a tracção animal nos países em desenvolvimento

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Quem sabe a resposta?

A propósito da 'entrada' anterior lembrei-me de um aspecto que sempre me fez alguma "espécie": havendo tantos animais em Timor Leste (karaus, bois de Bali, bois de Timor, kudas), porque é que nunca vi uma única "carroça de bois" (oxcart) em nenhuma das estradas por onde tenho andado? E isto apesar de na maioria dos outros países do Sudeste Asiático o uso da tracção animal quer para as tarefas agrícolas quer para transporte de pessoas e bens ser relativamente vulgar.


Admito que uma das razões para a não utilização de karaus seja o facto de eles serem vistos fundamentalmente como um "stock de riqueza" (nomeadamente ligado ao barlaque) e não como um "fluxo de rendimento" (desculpem a linguagem de economista mas é assim mesmo...). E isto apesar de eles serem utilizados por vezes para pisotear (pisar e revolver) os terrenos de cultivo de arroz --- caso de Manatuto, por exemplo, onde já os vi desempenhando essa tarefa (vd foto abaixo).


Mas mesmo sendo um "stock" não se compreende porque não é utilizado.
Será que o mau estado das estradas tem influência nisso? Tal como na utilização dos outros animais?
A utilização de animais puxando uma carroça para transporte de carga e de pessoas seria uma boa contribuição para a circulação de pessoas e bens em Timor Leste, principalmente nas zonas rurais.
Além disso, a tecnolgia para a construção das carroças é simples e perfeitamente à altura de uns quantos "jeitosos" que se dediquem a esse trabalho, aumentando e diversificando o emprego nas zonas rurais.


Mais, contrariamente a outros meios de transporte, a sua utilização não implicaria a necessidade de importar materiais já que quase todos eles podem ser encontrados com facilidade no país. O que não faltam são rodas e pneus "salvados" de automóveis, mikroletes e outros que podem ser reciclados para uso nestes meios de tracção animal. Tal como não falta madeira.
Por outro lado, as necessidades de importar motos e gasolina diminuiriam.

E por falar em motos e gasolina: não me admirava nada que a prática de preços subsidiados dos combustíveis no tempo da administração indonésia tenha desempenhado um papel no desincentivo ao uso da tracção animal. Está na hora de começar a corrigir isso.
Uma forma de o fazer, seguindo a (boa) tradição de Singapura de fazer "campanhas para isto" e "campanhas para aquilo", seria o Governo fazer uma campanha para incentivar o uso da tracção animal para o transporte de pessoas e bens e, porque não e em alguns casos, para lavrar a terra?
Dessa campanha poderia fazer parte a entrega de algumas "carroças" "made in Timor" aos camponeses...
Para facilitar o transporte poderiam também ser oferecidos ou vendidos a preço convidativo atrelados metálicos para serem puxados por motoretas. Estou-me a lembrar, por exemplo, das "moto taxi" que se vêm a circular em algumas zonas do país; eu vi-as em Atabae. Com um atrelado apropriado, de tecnologia simples, poderiam transportar carga e passageiros. Já viram os que os vendedores ambulantes chineses que agora há em Timor utilizam?

Isto é: o segredo está, creio, em encontrar algumas soluções (tecnologicamente) relativamente simples mas que são de grande utilidade. É que, nomeadamente nas montanhas, custa-me ver as pessoas subindo, subindo, a passo de caracol, levando 2 e 3 horas para percorrerem escassos quilómetros.

Enfim: se houver por aí alguém que ajude a explicar o mistério da não utilização da tracção animal em Timor Leste e que tenha sugestões para a incentivar, faça favor... A palavra é sua!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Tractores, motocultivadores e outros que tais...

Das declarações e dos escritos em torno do Orçamento de 2009 percebe-se que o Governo está disposto a investir mais do que até aqui no apoio aos agricultores, particularmente aos do arroz.
Uma parte desse apoio passa (já está a passar) pela entrega de tractores e de motocultivadores.
Diz a experiência que é muito importante ser cuidadoso na distribuição deste tipo de máquinas. Na verdade, a experiência de outras paragens --- com que tive, inclusivé, contacto directo em Moçambique há já uns bons anos --- é de que, na falta de peças e de oficinas de reparação destes equipamentos, a sua vida útil acaba por ser muito curta porque qualquer avaria --- por vezes relativamente, simples ou, pelo menos, não muito complicada --- se torna numa dor de cabeça para os agricultores por não haver técnicos/oficinas preparados para a corrigir e, principalmente, por não haver peças sobressalentes facilmente disponíveis no mercado.
Assim, não é incomum que os primeiros tractores a "cairem para o lado" acabem por servir de fonte de peças para arranjar outros, sendo "canibalizados" rapidamente e condenando desde logo a sua eventual, futura, recuperação.

A não ser acautelada esta situação, a vida útil destes equipamentos pode reduzir-se significativamente. Veremos quantos deles estarão ainda operacionais dentro de, por exemplo, 3 anos. Lembram-se dos tractores e das arcas frigoríficas que a RPChina ofereceu há alguns anos atrás a Timor? Cadê eles? Quantos ainda sobrevivem?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Alguns dados estatísticos sobre o petróleo no mundo de hoje

A OPEP - Oganização dos Países Exportadores de Petróleo disponibiliza no seu "site" muita informação interessante sobre a economia do petróleo no mundo de hoje.
É o caso, pore xemplo, do seu Anuário Estatístico, o último dos quais se refere a 2007.
É daí que retirámos o conjunto de gráficos cuja imagem global se pode ver abaixo:


Há também um mapa interessante sobre o comércio mundial de petróleo ou, melhor, sobre as exportações dos países da Organização.