quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

O comércio externo de Timor Leste em 2008

Apresentamos aqui alguns dados do comércio externo de Timor Leste neste ano. Melhor: apresentamos dados sobre as importações (as exportações foram de cerca de 9,9 milhões USD nos primeiros 11 meses do ano, na quase totalidade café) relativas aos primeiros 11 meses deste ano. I.e., foram de cerca de 5% das importações, resultando num défice da balança comercial enooooorme!

No período referido as importações "comerciais" totalizaram 200 milhões USD (mais exactamente 203 milhões). As "importações comerciais" excluem o valor das importações de bens para uso das Embaixadas e das forças militares estrangeiras bem como o dos bens importados pela UN e suas agências.

De notar o padrão resultante da análise do gráfico: as importações no segundo semestre aumentaram bastante relativamente às do primeiro semestre. Justificação para tal? Parte dela surge mais adiante mas outra é, quase de certeza, o facto de em Julho, no início do segundo semestre, ter entrado em vigor a nova pauta aduaneira, com taxas alfandegárias muito mais baixas que anteriormente e, por isso, mais favoráveis a um aumento das importações. O resultado aí está...

Dos 203 milhões de USD das importações, 59,3 milhões (29%) foram de combustíveis e 31,7 milhões foram de veículos (15,6%). Quer um valor quer outro parecem-nos muito elevados para uma economia com o grau de desenvolvimento de Timor Leste mas o primeiro está justificado, em boa parte, pelo aumento do preço internacional dos combustíveis que se verificou na maior parte do ano. A descida que o gráfico ilustra em Setembro e nos meses posteriores justifica-se pela queda do preço dos combustíveis no mercado internacional.


É o valor da importação de veículos que nos faz (e deve fazer-vos...) pensar. Note-se que a média mensal das importações do primeiro semestre foi de 2,2 milhões e a de Jul a Nov foi de... 3,7 milhões (mais 2/3...). Será que isto está ligado à política de grande distribuição de recursos que foi prosseguida a partir de meados do ano? Dificilmente não estará, o que significa que uma parte (importante? Cremos que sim) dos recursos colocados em circulação ao abrigo dos mais diversos pagamentos a vários grupos sociais ("deslocados internos", "peticionários", etc) acabou por ser "escoada" para o estrangeiro sob a forma de importação de automóveis, motorizadas e outros veículos. Só não se importaram kudas a motor porque ainda não há... Esta evolução já era de esperar.
Note-se que este grande aumento de importação de veículos a motor é um "presente envenenado" para o futuro pois faz aumentar, no curto e a médio-longo prazos, o consumo de combustíveis... importados. O que agrava ainda mais a "fatura petrolífera" do país.


A terceira rubrica mais importante nas importações foi a dos cereais, em que se inclui o arroz. Os quase 18 milhões de USD (quase 9% do total) que se gastaram resultam, em boa parte, da subida do preço do arroz no mercado internacional, que atingiu o seu máximo em Maio passado (772 USD/Ton; 365 em Janeiro e 320 em Novembro). Note-se que só estas importações correspondem a quase o dobro do total das exportações!
Note-se no gráfico abaixo a grande instabilidade dos valores mensais, que deve estar associada ao "tempo"/momento em que são assinados os contratos do Governo com os importadores e as decisões de importação destes.
Infelizmente não temos dados que nos permitam testar a hipótese de Timor Leste estar, EVENTUALMENTE, a pagar mais pelo arroz importado do que o necessário devido ao facto de os contratos entre o governo e os abastecedores serem efectuados num momento em que os preços no mercado internacional estão mais altos, sendo depois a compra por estes efectuada algum tempo depois, quando o preço já desceu, como tem vindo a acontecer desde Maio passado. Os importadores de arroz "do Governo" poderão (sublinho a palavra "poderão"), pois, estar a beneficiar do facto de fazerem contratos com o Governo num período em que o preço internacional está mais alto do que aquele que depois vão pagar aos produtores. Um exemplo: se entre o momento do contrato e o momento em que o importador assina o seu contrato com o fornecedor decorrer um prazo de 2 meses, isso significa, tomando o exemplo de Julho e Setembro passados, que o arroz "caíu" entretanto quase 100 USD por tonelada que reverte a favor do importador timorense... Tema a aprofundar...


Infelizmente também não temos --- ai a distância!... --- informações sobre a evolução dos preços do arroz nacional para ver se ele tem tido nos mercados do país (nomeadamente de Dili) um comportamento semelhante ao do mercado internacional e do arroz "do Governo".
Sabendo-se, porém, a grande rigidez (na subida e na descida) que os preços de bens nacionais costumam apresentar devido a uma boa dose de "ilusão monetária" dos agentes económicos, não nos custa admitir como muito provável que o diferencial entre o preço do arroz importado e do arroz produzido internamente é agora ainda maior do que era há alguns meses atrás. O que é um desincentivo aos agricultores nacionais tanto maior quanto o mercado está fundamentalmente a absorver arroz "do Governo", agora ainda mais barato. Na verdade mais barato do que o preço do arroz quando toda esta "bagunça" com os seus preços começou...

domingo, 14 de Dezembro de 2008

Eles lá sabem - 2

O mesmo documento do Banco mundial que citámos abaixo aborda, a certa altura, a questão muito importante das políticas adoptadas pelos países para fazerem face à subida de preços internacionais verificada há alguns meses atrás.
Reconhecendo que muitos dos países adoptaram políticas de concessão de subsídios a alguns dos produtos --- principalmente alimentares e petróleo --- para fazer baixar os preços no contexto do que se pretendia ser uma componente da luta contra a pobreza, o Banco Mundial, depois de salientar que os principais beneficiários dessas medidas foram as populações urbanas (mais que as rurais), salienta a certa altura (pg 123) o seguinte:

"Subsídios e preços tabelados são caros e constituem medidas anti-pobreza pouco direccionadas

Subsídios à comida e à energia tendem a ser caros e pouco direccionados aos efectivamente pobres mesmo quando são tomadas medidas para fazer com que os produtos subsidiados estejam disponíveis apenas a certos segmentos da população.

Por exemplo, o sistema egípcio de subsídios à alimentação é direccionado aos pobres restringindo o acesso a farinha subsidiada aos verdadeiramente pobres, localizando os pontos de distribuição nos bairros pobres e usando produtos de baixa qualidade.

Não obstante, o sistema é muito caro (com um custo financeiro calculado em 2 por cento do PIB) e ineficaz. Entre um quarto e um terço dos pobres não beneficia do programa e cerca de 83% do valor dos subsídios vai para os que não são pobres. Além disso, as famílias pobres e vulneráveis que dele beneficiam recebem tão pouco que o efeito líquido é o de tirar da pobreza apenas 5% da população."

Será necessário ser ainda mais explícito? Aplicado a Timor Leste, será possível dizer-se, conjugando as duas linhas pensamento acima expostas, que os menos beneficiados do esquema de subsídio ao arroz são os pobres das zonas rurais --- que são, "apenas", a maioria dos pobres? Provavelmente sim.

Por isso é urgente, no mínimo, que se faça alguma avaliação dos efeitos da política que tem vindo a ser seguida quanto ao subsídio ao arroz.

Até porque, como salienta também o texto e é mais ou menos confirmado pela maioria da literatura sobre o assunto, "transferências de dinheiro sujeitas ao cumprimento de condições são a forma mais eficaz de fazer chegar dinheiro aos pobres" (título da caixa 3.8 copiada para baixo).



O programa timorense de bolsas de estudo no exterior

O blog TLN respigou hoje para a sua primeira página uma série de comentários de vários leitores a propósito do programa de bolsas de estudo de estudantes timorenses estudarem no exterior.
O conjunto de comentários foi desencadeado por um sobre as condições que os timorenses que se encontram no Brasil defrontam e sobre a dificuldade em aproveitarem cabalmente o programa por motivos de vária natureza.
Um dos comentaristas, nitidamente pessoa bem por dentro do processo, dá um conjunto de informações que importa conhecer e por isso recomendo a sua leitura.
Estas conversas cruzadas fizeram-me recordar o passado da cooperação portuguesa com Timor nesta área e mais um ou outro aspecto que sintetizo nos pontos abaixo:

1- o primeiro grande programa de vinda de bolseiros para obterem licenciaturas em Portugal é do tempo do Primeiro Ministro António Guterres e do Ministro da Educação de Timor Pe. Filomeno Jacob. E, principalmente, é do tempo em que quer em Portugal quer em Timor muitas coisas eram resolvidas mais com o coração do que com a razão. Por isso só podia sair asneira, como saíu. Muita parra e pouca uva.
Do lado timorense e se bem interpretei alguns "sinais (daqueles) tempos", era talvez mais importante expor os alunos a um mundo totalmente novo e a uma "imersão total" na língua portuguesa do que propriamente os resultados académicos. É um critério... Que não deveria ser o principal mas que tem alguma lógica. E como ainda por cima era "à borlu"... (para Timor Leste, claro).

2 - Mais ou menos ao mesmo tempo e tendo os mesmos "actores" foi lançado o programa do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) através do seu "braço armado" FUP. Estive muito ligado ao lançamento desse programa em termos de definição, num esforço de cooperação entre várias faculdades portuguesas, do programa de estudos na área da Economia e da Gestão. Ele previa que essa cooperação passasse pela presença em Dili de docentes universitários portugueses durante um semestre completo a fim de lecionarem as aulas em português e de desenvolverem trabalho de cooperação com os colegas timorenses que leccionavam o curso "normal", em indonésio.
Porque se estava já a meio do ano lectivo em Portugal e muitas Escolas tinham o seu serviço docente para o ano seguinte já distribuído era difícil, no entanto, que logo no primeiro ano se conseguissem destacar professores para estarem "a tempo inteiro" em Dili e por isso surgiu a ideia de, PROVISORIAMENTE E APENAS APRA O ANO LECTIVO SEGUINTE, se optar pela SOLUÇÃO DE RECURSO de enviar docentes por períodos de apenas dois meses, adoptando-se nos anos subequentes a prática "normal" de enviar docentes por um semestre inteiro.
Em algum momento do circuito de decisão, da responsabilidade do CRUP e da FUP, aquilo que foi sugerido como solução temporária, apenas para um ano lectivo, acabou por ser encarado como solução definitiva.
E assim passámos a ter em Dili cursos "da FUP" funcionando por ciclos de 2 meses. O que, à partida, é pedagogicamente inconcebível pois os alunos --- nem os timorenses nem os portugueses nem nenhum --- não têm capacidade para se "embrenharem" nas matérias e digeri-las em tão curto espaço de tempo. E com as deficiências de formação base daqueles alunos concretos, pior ainda...
Mais, em parte devido a este modelo (errado) a possibilidade de cooperação (científico-pedagógica) com os colegas timorenses ficou "morta de morte matada" logo à partida.
Fazendo de uma história longa que eu costumo designar por de "custos públicos portugueses para benefícios privados (de alguns estudantes) timorenses", finalmente ter-se-á chegado à conclusão que este era um modelo com os dias contados e, ao mesmo tempo que se "descontinuavam" alguns dos cursos então em funcionamento, passou a privilegiar-se, como já o deveria ter sido há alguns anos atrás, o financiamento da vinda de docentes timorenses para fazerem estudos pós-graduados (incluindo mestrados) em Portugal. É assim que no ano passado vieram 9 e este ano, e salvo erro, mais 10. Estamos no bom caminho. Mais ou menos...
Porquê as reticências? Porque, pelo contacto que tenho tido com colegas timorenses, fico com a impressão de que seria, provavelmente, mais importante que, pelo menos durante um primeiro ano, eles viessem para estudarem matérias de licenciatura E (muito importante) serem integrados em equipas docentes de colegas portugueses de modo a se prepararem científica e pedagogicamente para a docência no momento do seu regresso a Timor Leste. O facto de se integrarem em equipas docentes que, de uma forma geral, já têm "a papinha toda feita" (ou estar a "cozinhá-la") em termos de aulas a leccionar seria uma contribuição importantíssima para a melhoria, a prazo, da qualidade do ensino na UNTiL.
Adiante.

3 - Regressemos ao programa de bolsas de Timor Leste. Graças aos recursos financeiros agora disponíveis no país e à capacidade de decisão do Ministro João Câncio Freitas, foi iniciado um ambicioso processo de selecção de estudantes timorenses para enviar algumas centenas para estudarem no exterior a fim de obterem graus de Mestre e, eventualmente e no futuro, de Doutor.
Foi uma decisão corajosa e de aplaudir mas...
Porque tem de haver sempre um "mas"? Este prende-se com a sustentabilidade desta política no futuro.
E se, como parece que está a acontecer, os recursos anuais com origem no petróleo baixarem e isso afectar significativamente o Orçamento Geral do Estado? E se? E se?
Se isso vier a acontecer terá o Estado timorense capacidade para suportar a estada no exterior de algumas centenas de estudantes? E se não tiver o que vai fazer? Tentar aguentar a situação e rezar a Maromak para que os estudantes acabem rapidamente os cursos e regressem ao país?
E, questão importante, o que fazer com as expectativas dos estudantes que só no próximo ano ou dentro de 2-3 anos ou mais estiverem em condições de beneficiar de uma bolsa? "Cortam-lhes" as pernas e não abrem mais concursos para bolsas? Qual a justiça "intergeracional" se uns puderem ir e outros não puderem ou se num ano forem 400 e noutro ano apenas 40? Isto é: será que na decisão tomada foi tida em devida conta a possibilidade de, no médio-longo prazo, a capacidade do país em sustentar um tal programa se alterar?
Espero que sim mas temo que não...

4 - Finalmente mas não menos importante, das declarações do Ministro aquando de uma sua estada em Portugal ficou-me a impressão de que as condições de os timorenses obterem uma bolsa para virem para cá estudarem eram mais gravosas do que para irem para outros países, nomeadamente por exigirem que os alunos tivessem médias de 14 para frequentar o Mestrado entre nós.
Acontece que embora a Lei portuguesa preveja este limite, a verdade é que prevê também "portas do cavalo" que permitem que os alunos os frequentem com médias inferiores. A situação actual, na sequência das reformas de Bolonha, faz esta exigência ser ainda menos lógica. E se ela não o é para estuantes portugueses porque o será para estudantes timorenses quando se sabe que, à partida, a sua preparação de base é, em muitos casos, bem pior que a dos estudantes portugueses?
Não quero aqui defender que se adopte como principal o critério que foi aplicado em tempos e a que nos referimos acima --- o de permitir uma maior "imersão" num ambiente em que a língua portuguesa é a ferramenta do dia a dia --- mas também creio que ele não deve ser, pura e simplesmente, remetido para o lixo da História. Principalmente se se quiser que ela seja o "cimento" do Futuro.

sábado, 13 de Dezembro de 2008

Eles lá sabem...

O Banco Mundial acaba de publicar a versão de 2009 de uma das suas flagship publications (publicações-bandeira): a Global Economic Prospects.

Da sua página 10 respigámos o seguinte:

“Historicamente, os países cujas economias são muito dependentes das exportações de matérias primas [commodities] tenderam a crescer mais lentamente que os que têm economias mais diversificadas.

Esta tendência reflecte principalmente um nível de PIB baixo e subdesenvolvimento dos sectores que não os de recursos naturais mais do que a efectiva quantidade de recursos à disposição dos países. (...)

A dependência de recursos naturais não tem forçosamente de resultar num crescimento lento. Porém, para transformarem em realidade o potencial da riqueza em recursos naturais, os governos precisam de evitar seguirem políticas que exacerbam a tendência

para a dependência daqueles recursos gerar resultados fracos no domínio do crescimento. Isto inclui:

• A tendência para os gastos públicos em países recurso-dependentes aumentarem nas fases de boom económico e a diminuírem de uma forma pró-cíclica durante as crises [o que agrava esta];

• A tendência para fortes aumentos de rendimento causarem uma exagerada apreciação da taxa de câmbio real da moeda que deteriora a competitividade externa dos sectores da economia não ligados ao recursos naturais; e

• A tendência para os avultados rendimentos com origem nos recursos naturais aumentarem os comportamentos de rent seeking, corrupção e violência política.”

Sem comentários. Está nos livros...

NB – a exressão rent seeking aplica-se àqueles comportamentos em que vários agentes económicos, sociais e, principalmente, políticos procuram tirar partido do controlo que exercem sobre determinado campo de actividade (nomeadamente a Administração Pública), para tentarem tirar daí proveitos pessoais. Por exemplo, quando um funcionário que tem capacidade para decidir sobre um assunto demora a decisão a fim de que o interessado lhe pague umas “luvas” para despachar o assunto está a ter um comportamento de rent seeking, isto é, de “procura de um rendimento” extra, ilegal, que lhe é dado pelo poder “monopolístico” associado às funções que ocupa

sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

Eu, myself e os meus botões...

Recebi ontem o último boletim sobre os preços internacionais do arroz publicado pela FAO, a organização das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura.
Com os dados que ele disponibiliza construí o gráfico abaixo. Ele diz-nos que até ao início de 2007 o preço internacinal rondava os cerca de 220 USD/ton, tendo então começado a sua subida mais ou menos vertiginosa até Maio deste ano, quando bateu todos os recordes ao ser comercializado a 772 USD/ton.
partir daí e contrariamente ao que era esperado, voltou a descer quase à mesma velocidade a que subiu até atingir actualmente os cerca de 320 USD/ton.


Ora, dei comigo a pensar "para myself" e com os meus botões que a melhor política para o comprador numa fase de forte descida de preços é adiar o mais possível as suas compras a fim de beneficiar dos preços mais baixos.
Com a política de subsidiar a compra de arroz e a necessidade de assegurar atempadamente a compra do "arroz do governo" no exterior será que Timor Leste não estará a pagar mais caro que o necessário esse mesmo arroz? Isto é: será que o país não estará a pagar mais caro o que poderia comprar mais barato?
Pois... Gostava de saber...

Outro "pinsamento": se bem me lembro quando o Governo decidiu começar a comprar o arroz para abastecer o mercado a preços subsidiados o preço do arroz importado no mercado em Dili rondaria, salvo erro, os cerca de 32-33 USD/saca. O Governo importou e vendeu arroz a 17 USD/saca. Isto é: o comprador poupava cerca de 15-16 USD/saca.
Neste momento o arroz importado normalmente está no mercado a 16 USD/ saca e o preço do "arroz do Governo" é agora de 12 USD/saca. O comprador poupa cerca de 4 USD/saca.

A estes preços será que se justifica continuar a política de subsidiar o arroz?
Isto sou eu a pensar com os meus botanitos...

Vrum, vrum!.. Trrim, trrim!...

A política de concessão de subsídios vários parece estar a ter um "efeito colateral": o aumento significativo das motorizadas em circulação (em Dili) e do número de telemóveis.
Segundo dados da TT o número de SIM cards em uso em Timor aumentou 16 mil em 2006 (relativamente a 2005), 29 mil em 2007 e... 43 mil em 2008. É claro que estes aumentos não se devem apenas ao factor sugerido já que a empresa de telecomunicações tem adoptado uma política comercial agressiva que, por exemplo, a levou a baixar o preço do seu "kit base" (telemóvel+sim card+ crédito) de 50 USD para 15 USD. 15 USD! E o telemóvel funciona e tudo... :-)

Interessante será também, à falta de estatísticas oficiais publicadas sobre vários agregados úteis para o acompanhamento da situação económica (como, por exemplo, as Contas Nacionais), ver o que se passa sobre as licenças de circulação concedidas a automóveis e a motorizadas.
Informações como essas são importantes para ver se se confirmam as minhas suspeitas de que uma parte importante dos dinheiros que têm sido distribuídos a vários grupos da população têm servido para "barlaques" e compras de bens duradouros.
E já agora era importante também ter informações regulares sobre o total das importações --- aparentemente a aumentarem significativamente --- e, em particular, sobre a importação de determinados tipos de bens. Os referidos acima são alguns deles mas a importação e venda de cimento é universalmente utilizada como um "indicador adiantado de conjuntura", isto é, um indicador que nos dá, hoje, alguma informação sobre o que poderá vir a acontecer amnahã já que o cimento é um input essencial dos sectores da contrução civil e das obras públicas.

O aumento significativo das importações pode ser um sinal da famosa dutch disease: com "dinheiro na algibeira" e sem produções próprias competitivas no mercado internacional, o país "entretem-se" a gastar alegremente o que tem em importações que só servem para agravar mais e mais a já MUITO deficitária balança de pagamentos (segundo as recentemente publicadas --- pela ABP --- Estatísticas da Balança de Pagamentos, o saldo entre importações e exportações de bens passou de -91 milhões de USD em 2006 para -169 em 2007).

quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

O gasoduto do Greater Sunrise e o preço do petróleo

Como se sabe Timor Leste aposta tudo na possibilidade de o gasoduto que irá sair do Greater Sunrise e as instalações associadas venham a ser instaladas na costa sul de Timor Leste.
Há, mesmo, estudos de viabilidade económica a serem financiados pelo Governo de Timor para determinar qual a localização mais vantajosa: Timor ou Darwin?
Ora temo que a recente queda --- e seu anunciado prolongamento no tempo --- do preço do petróleo bruto e do gás natural venham na pior altura para as pretensões de Timor Leste. Esperemos que não.

O OGE2009 e o Fundo Petrolífero

Retomamos o tema "OGE2009" para dizer mais qualquer coisa sobre o financiamento do Orçamento Geral do Estado para 2009 "and beyond" pelo Fundo Petrolífero.
Na "entrada" anterior já referimos que o OGE2009 prevê um financiamento de cerca de 410 milhões USD correspondentes ao "rendimento sustentável" e mais 180 para além dele (tudo contas "redondas"), num total de 590 milhões de USD.
Isto significa que, à semelhança do ano passado, se pretende levantar mais do Fundo Petrolífero do que, em princípio, deveria ser levantado.
"And beyond"?
Vejamos o que nos diz um dos quadros apresentados:


Por ele se pode concluir que há sistematicamente um diferencial importante entre as necessidades de financiamento do Orçamento de cada ano apresentado e o "rendimento sustentável" estimado neste momento para o respectivo ano. Em 2010, por exemplo, as necessidades de financiamento serão de 742 milhões de USD (a "afinar" para cima ou para baixo no OGE desse ano) e o "rendimento sustentável" será de 401 milhões.
Como as "receitas domésticas" (impostos, etc) dificilmente chegarão aos 100 milhões, fica um "descoberto" de cerca de 250 milhões de USD. De onde virão eles? Ou de doações internacionais (ajuda), ou de empréstimos ou... do Fundo Petrolífero a título de excesso ao "rendimento sustentável".
Idem para os restantes anos mas aí, recorde-se, a Lei do Fundo já estará (?) alterada... E, claro, para permitir levantar mais dinheiro que actualmente. É perfeitamente legítimo faze-lo e por isso mesmo é que se previu alterar a Lei ao fim de cinco anos da sua publicação (2005) para a adaptar às novas realidades do país.
Mas pelo menos por agora parece que se está a tornar "regra" aquilo que na Lei se quiz que fosse "excepção" --- até pelas apertadas condicionantes que se colocaram ao uso de verbas para além do "rendimento sustentável" e que há que cumprir escrupulosamente sob risco de o Tribunal Constitucional "fazer das suas"...

Já agora aqui ficam um quadro e um gráfico que nos dão um panorama do que vai ser a evolução, ao longo do tempo, das receitas do Mar de Timor --- a não ser que entretanto outras zonas de produção (nomeadamente o Greater Sunrise) entrem, como se espera, em actividade (clique nas imagens para as tornar mais legíveis).

quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Contas de sumir?

Na proposta de Orçamento Geral do Estado para 2009 apresentada ao Parlamento Nacional figura o quadro acima. Nele se diz que as receitas de petróleo serão de cerca de 2510 milhões de USD durante o ano de 2008 e que se prevê uma queda desse valor para cerca de metade (1253) em 2009.
Entretanto sabe-se que até ao momento o Governo terá requisitado cerca de 300 milhões de USD ao Fundo Petrolífero ao abrigo da autorização que lhe foi dada pelo Parlamento Nacional. Isto permitirá ao Fundo acumular cerca de 2000 milhões em 2008.
Sabe-se também que o Governo pede actualmente que lhe seja dada autorização para em 2009 retirar do FP um total de 590 milhões de USD (cerca de 400 de "rendimento sustentável" e o resto como excesso a este).
Se as contas não falham isto significa que de quem 1253 "tira" 590 ficam --- deixa cá ver António... ---... Isso: 663 milhões de USD. Este será, pois, o valor a acumular ao capital do Fundo Petrolífero em 2009 (valor que deve ser comparado com os 2000 milhões de 2008). São as chamadas contas de "sumir"... Aquele valor (cerca de 660 milhões de USD de acumulação do FP em 2009) é confirmado pelo quadro 6.3 do OGE2009.
O que vale é que uma coisa é o Orçamento e outra o que se executa dele. Mas não deveria ser assim pois acabamos por, ao discutir o Orçamento, estarmos a falar de uma "realidade virtual" em vez de se falar sobre a "realidade real".
"E não se pode exterminá-lo?" (refiro-me, claro, ao sistemático diferencial entre o orçamentado e o realizado ("por caixa"; porque o resto são "feijões").

Ah!... Já me esquecia!...

O preço médio do petróleo em 2009 usado nos cálculos da riqueza petrolífera de Timor Leste no Orçamento em discussão é de 60 USD. Hummmm!... A manterem-se por 2009 dentro as tendências mais recentes de evolução do preço do barril de petróleo (anda agora nos cerca de 43-44 USD), não vai ser fácil, não. Até há quem aposte em que ele pode chegar temporariamente aos cerca de 25 USD se a China for significativamente afectada (via queda das suas exportações e, consequentemente, da sua produção e necessidades em energia) pela actual crise económica mundial...
O melhor é pôr as barbas de molho e não contar muito com os cerca de 400 milhões de rendimento sustentável agora previstos... (a que o Orçamente quer adicionar mais 180 de pedido extra ao Fundo Petrolífero).