segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Balança de Pagamentos de Tmor Leste, 2006 e 2007

Acaba de ser divulgada pela ABP-Autoridade Bancária e de Pagamentos de Timor-Leste a Balança de Pagamentos do país nos anos de 2006 e 2007. Clique na imagem abaixo para a tornar legível.
O cálculo da BP --- que, recorde-se, regista todos os pagamentos e recebimentos ao estrangeiro como contrapartida de fluxos de bens (exportações, importações) ou serviços, etc --- foi apoiado tecnicamente pelo FMI mas resulta essencialmente do bom trabalho que tem vindo a ser desenvolvido na "Autoridade".

domingo, 30 de novembro de 2008

Ainda mais do relatório sobre a pobreza

Eis mais dois quadros interessantes do relatório que temos vindo a abordar:

O quadro acima dá-nos a evolução do PRODUTO INTERNO Bruto --- grosso modo a produção efectuada no país --- desde 2001 até 2007 em termos per capita, i.e., por habitante.
Além do PIB diz-nos também qual foi a evolução do RENDIMENTO NACIONAL Bruto. A diferença entre ambos é que o último inclui os rendimentos de todos os agentes económicos nacionais. No caso concreto de Timor Leste a diferença está no rendimento obtido do Mar de Timor através da exploração de petróleo e gás --- por isso os valores começam a "disparar" e a divergir dos do PIB em 2004.
O que interessa mais directamente às pessoas --- até porque o rendimento do petróleo não entra directamente na economia nacional mas sim apenas quando é transferida para E GASTA pelo Estado através do Orçamento Geral do estado --- é o PIB per capita.
Como se pode verificar em 2001 ele foi de 321 USD mas foi descendo até 2004, quando atingiu os 281 USD. Em 2005, até agora o melhor ano, foi de 287 USD tendo voltado a cair (agora significativamente) até aos 263 de 2006 por razões bem conhecidas. A relativa "normalização" de 2007 trouxe consigo a recuperação do PIB até a um nível aproximado (mas ainda assim inferior) ao de 2005.
Tudo isto para significar o quê: que inquéritos do tipo LSMS (Living Standadrs Measurement System; veja aqui a página web no 'site' do Banco Mundial) como o que foi feito em Timor Leste e deu origem à publicação em análise devem ser vistos com alguma cautela pois são, pela sua própria natureza, sensíveis à situação conjuntural em que são realizados e por isso quaisquer comparações intertemporais devem ser vistas com as reservas que o caso aconselha. Isto é, se o inquérito de base tivesse sido efectuado em 2005 ou em 2006 os resultados poderiam divergir (muito ou pouco?) dos obtidos em 2007.
De qualquer forma é bom não esquecermos que estamos perante "fotogafias", tiradas num determinado momento, e não perante "filmes" que nos dão a evolução da situação ao longo do tempo, com os seus altos e baixos.


Este segundo quadro tem um interesse particular: é que é com informação deste tipo --- e mais desagregada, como é apresentada nos anexos do relatório --- que se ajuda a construir um Índide de Preços no Consumidor, usualmente utilizado no cálculo da variação dos preços, i.e., da inflação.
Ora o que mais me chamou a atenção foi o facto de as percentagens que estão no quadro, particularmente na primeira metade da primeira coluna de números ("Total population"; "national") divergirem mais ou menos significativamente dos pesos que hoje em dia são utilizados no cálculo do IPC pela Direcção Nacional de Estatística e, por arrastamento, da taxa de inflação em Timor --- particularmente em Dili.
Note-se que parte da divergência dos números pode resultar exactamente do facto de estes números serem "nacionais", para todo o país, e os utilizados no cálculo da taxa de inflação mais usada serem apenas de Dili.
Nestes o peso (determinado em 2001) da alimentação é de 56,7%, quando agora (valor nacional) é de 66,1%. Os gastos em Saúde representavam em 2001 cerca de 4,2% do total das despesas das famílias mas agora aparecem como representando apenas 0,6%.
Há várias razões, umas mais plausíveis que outras, para a divergência dos números em 2001 e 2007 mas sejam quais forem essas razões uma coisa parece certa: torna-se necessário usar estes dados, complementados com outros, para reformular os pesos dos vários tipos de produtos no cálculo do IPC e, por conseguinte, da taxa de inflação. É que, agora por mais esta razão, corremos o risco de estarmos a medir a inflação com um metro de 104 ou de 97 centímetros. De 100 centímetros é que ele não é, não!

sábado, 29 de novembro de 2008

Mais do relatório sobre a pobreza em Timor Leste

Outro quadro que nos chamou a atenção pelo retrato em "grande plano" que dá do país ao dar informações sobre as zonas urbanas e rurais e, principalmente, sobre os vários distritos individualmente considerados é o quadro abaixo:


Ele confirma que as zonas rurais são mais pobres que as urbanas. Num outro quadro refere-se o facto de as zonas urbanas terem empobrecido proporcionalmente mais que as zonas rurais entre 2001 e 2007.
Dos dados acima realce-se ainda o facto de que os dois distritos mais pobres são Manufahi e Manatuto e que os dois mais ricos (ou menos pobres?) são Lautem e Baucau, com o primeiro em melhor posição que o segundo mas com uma diferença pouco significativa.
Note-se que a percentagem de população abaixo da linha de pobreza em Manufahi é de 85% e que a mesma percentagem em Lautem é cerca de 1/4 desta (21,3%), o que diz bem das diferenças regionais existentes no país e da necessidade, já muitas vezes salientada, de o país se organizar de uma forma mais decidida para combater as desigualdades regionais existentes. Uma política de desenvolvimento regional, precisa-se!
Note-se igualmente (última coluna) que 38% dos pobres estão concentrados em 3 distritos apenas: Dili (principalmente pobreza urbana), Ermera e Bobonaro (pobreza rural em ambos os casos).

Que nem de propósito, PRM...

Ora veja o que eu acabo de descobrir, por acaso, no 'sítio' da Comissão Económica para a Ásia e o Pacífico das Nações Unidas (www.unescap.org):


O mapa, retirado de uma apresentação elaborada por uma equipa timorense, diz-nos que 85% das habitações de Dili foram edificadas sem obedecerem a qualquer plano. Compreende agora a trabalheira que vai dar pôr alguma ordem nesta balbúrdia e porque eu disse que NÃO é possível pensar em infraestruturar a cidade num prazo relativamente reduzido? E compreende agora a dimensão da sua "gaffe" (outros seriam menos delicados e chamar-lhe-iam ignorância!)? Pena é que agora já seja tarde para "emendar a mão", não é?!...

À atenção de PRM

Quando comecei a ler com mais cuidado o relatório sobre a pobreza, explicitamente baseado em trabalho de campo (inquéritos) efectuado em 2007, é que me lembrei que tinha lido no seu "ensaio" qualquer coisa referente a dados de 2006. Aí fui certificar-me e lá está:

"Circulam entre diplomatas e humanitários os “transparentes” de um relatório do Banco Mundial que conclui que “a pobreza aumentou significativamente” entre 2001 e 2007 (um balanço arrasador do consulado Fretilin, porque o estudo usa indicadores até 2006)."

Só para que conste: os dados são TODOS de 2007 porque foi nesse ano que o inquérito foi feito. No próprio documento se explica que ele começou a ser feito em 2006 mas que depois, devido às condições de (in-)segurança, teve de ser interrompido. Os dados entretanto recolhidos foram postos de parte e partiu-se da estaca zero em Janeiro de 2007 (até Janeiro deste ano).
Será que isto altera alguma coisa ao seu "balanço arrasador"? Sinceramente: quando faço balanços olho para o "activo" e para o "passivo" (e não apenas para um deles) e naquele olho particularmente para os recursos disponíveis e se foi feita uma boa ou má utilização deles. Se não há recursos disponíveis, meu caro, seja o partido "A" ou o partido "B" terá sempre um "balanço arrasador" se compararmos o realizado com os sonhos e não com o que era possível realizar. Mais ou menos objectivamente.
E, desculpe-me que lhe diga, aquela de infraestruturar uma cidade como Dili em 9 anos SEM "CHETA" diz bem o que sabe de economia... e de engenharia, claro.
É que as coisas são bem mais complexas do que as "bocas" ditas à mesa de um café! Sabe, por exemplo --- e reporto-me ao pouco que sei do plano de reordenamento da cidade de Dili elaborado pelo GERTIL há alguns anos atrás ---, que há muitas habitações em locais de onde teriam de ser retiradas por estarem demasiado perto de linhas de água ou em locais de cheia?
E que deslocar as populações exigirá, primeiro, a construção de habitações alternativas --- essas sim já completamente infraestruturadas.
E que para o fazer é necessário clarificar primeiro que terreno pertence a quem e que isso ainda não foi possível fazer?
Enfim: uma verdadeira dor de cabeça, um puzzle que não vai ser fácil de montar.
Como vê, 9 anos não dá nem para os aviamentos... Ponha aí mais uns 10 a 20 para fazer o fato completo. Aliás, desafio-o a voltarmos a falar do assunto dentro de 9 anos... Tá?

Estes economistas!... :-)

Confesso que só agora comecei a ler com mais cuidado o relatório sobre a pobreza recentemente publicado. E não é que esbarrei logo no primeiro quadro?!...
Nele se identificam as chamadas "linhas de pobreza" em 2001 e 2007 sob a forma de custo em USD/pessoa/dia das 2100 calorias consideradas como o limite de pobreza. Textualmente e em inglês:
"The interpretation of the $0.88 per person per day poverty line as an absolute poverty line is straightforward: it represents, in December 2007 prices, the typical cost of attaining 2100 calories per person per day and meeting some basic non-food needs."

O valor correspondente no inquérito de 2001 está na última linha e por ela se pode verificar que aos 0,88 de 2007 correspondiam 0,52 USD/pessoa/dia em 2001. Isto é: o valor de 2007 é 36 cêntimos superior, o que equivale a quase mais 70%. É obra!... Só que...

Pois é: comparações deste tipo devem também ser efectuadas a preços constantes e não a preços correntes, em termos Reais" e não "nominais". Isto é e por exemplo, o valor de 2007 tem de ser "deflacionado" com o índice de preços (no consumidor) para ser estritamente comparável com o de 2001. Na verdade, aquele valor de 0,88 tem uma componente "real", constante, e uma componente "preços", que não é mais que a inflação entretanto verificada entre o início e o fim do período.

O Índice de Preços no Consumidor (IPC) de Timor-Leste tem a sua base em Dezembro de 2001, sendo a média dos preços desse mês tomada como "100". As estatísticas publicadas pela Direcção Nacional de Estatística dizem-nos que o IPC em Dezembro de 2007 (mês a que se referem os 0,88 USD) foi de 136,2 (todos os grupos de tipos de despesas menos a habitação). Isto significa que entre Dezembro de 2001 e Dezembro de 2007 os preços aumentaram 36,2% em Timor Leste, com taxas anuais de inflação muito variadas.

Então o que temos a fazer é "defacionar" aqueles 70% de aumento da linha de pobrza com estes 36,2% de aumento dos preços. Passamos assim a ter uma linha de pobreza de "apenas" mais 33,8% que a anterior, de 2001. Isto é: em termos reais e usando aquela variação de preços os 52 cêntimos de 2001 correspondem a 70 cêntimos de 2007 (mas a preços de 2001) e não a 88.

Naturalmente isto não diminui em (quase) nada a principal conclusão: a de que a pobreza aumentou entre 2001 e 2007.

Mas aí e provocatoriamente faço a mesma pergunta que fiz aos "expertos" (de uma empresa chilena que faz este tipo de trabalhos para o Banco Mundial) que coordenaram tecnicamente o inquérito quando eles o apresentaram ainda em 2006: para quê fazer o inquérito --- ainda por cima nas condições em que o iniciaram em 2006 --- se já se sabia à partida que a pobreza tinha aumentado? Como sabia? Qualquer pessoa a "via" na rua, especialmente se levantasse o rabo da secretária e fosse para as montanhas... Coisa que muitos não fazem...
Moral da história e também provocatoriamente: o que se ganhou com o inquérito foi saber que agora os pobres são quase metade e que antes eram cerca de um terço. And so what? Será que isso faz uma diferença significativa na formulação das políticas? Será que a minha preocupação com a situação da população se vai modificar por agora saber que há 5 pobres em vez de 3?
A mim não afecta nada: tanto me preocupo (muito) com 5 como com 3! Esperemos que outros também...

Algumas notas para terminar:
1 - naturalmente que a dimensão do problema tem consequências mas essas serão mais de ordem quantitativa que qualitativa: terei de dispor de mais recursos para retirar da pobreza 5 do que 3... Mas o essencial é que eu queira e saiba MESMO como faze-lo... Porque recursos financeiros parece que não faltam... O problema são os outros, como a "massa cinzenta".
2 - O problema do economista, aquilo para que é/deve ser treinado, é o de conseguir a melhor gestão possível de recursos que são escassos. Constato que se gastou muito dinheiro neste projecto/inquérito mas que o país continua sem ter Contas Nacionais... Se quisesse ser mauzinho até era capaz de dizer que se as Contas Nacionais dessem tanto dinheiro a ganhar a empresas/técnicos estrangeiros como deu este projecto, elas já estavam a ser feitas regularmente... Aqui para nós que ninguém nos ouve, o que eu teria feito era priorizar as Contas Nacionais e deixar este inquérito para mais tarde... Aliás, veremos o que as pessoas que interessam vão fazer com ele (a não ser o mesmo que o vendedor de peixe nos livros do Astérix faz aos peixes quando desconfiam da qualidade dos bichinhos que vende e que chegaram de Lutécia depois de 2 meses de viagem: atirá-los à cara de outros... Percebem o que quero dizer, não percebem?)
3 - last, not least , o aumento da pobreza não é só e apenas um fenómeno económico. É também um fenómeno demográfico: se os recursos disponíveis crescem mais lentamente que a população então é evidente que a pobreza aumenta. Esta (o rápido crescimento populacional), além de outros de natureza mais económica, é uma das causas do aumento da pobreza. Daí o meu permanente apelo aos meus amigos timorenses: trabalhem mais de dia e "trabalhem" menos de noite... Para bom entendedor... :-)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Entrevista de Xanana Gusmão à TSF...

... com várias informações sobre planos futuros para a economia de Timor-Leste e a possível cooperação de empresas portuguesas. Ouvir aqui.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

"Primeira cavadela, minhoca!..."

Esta é uma expressão "popular" que in illo tempore se utilizava para designar que a primeira acção ou as primeiras palavras de um qualquer "discurso" era(m) asneira... Em vez de encontrar o procurado ouro o "cavador" só encontrava minhocas...

Foi a expressão que me veio à ideia quando comecei a ler o texto do Pedro Rosa Mendes de que tanto se fala. Porquê? Ora vejam a primeira frase: "Em nove anos de liberdade, Timor-Leste não conseguiu assegurar água, luz e esgotos para a sua pequena capital."
Saberá o autor que a "pequena" Dili tem, provavelmente, tanta ou mais população que a "grande" Coimbra ou a igualmente "grande" Setúbal ou qualquer outra cidade de média dimensão de Portugal? E que devido ao tipo de urbanização a sua área é maior que a destas cidades?
Se nelas se partisse do zero para criar uma rede de esgotos quantos anos levaria a completar? E se a isso juntarmos uma rede de água e de electricidade "como deve ser" quantos mais anos levaria?
E será que sabe que a Independência --- ou a "restauração", como queiram... --- tem sete anos e não nove e que durante o consulado da ONU esta não fez nadica de nada (ou pouco mais) nestas áreas? E que com orçamentos de cerca de 100-120 milhões de USD como os do início da independência pouco mais se faz que fritar um ovo e que não dá para fazer uma omelete? E que só há dinheiro para mais ovos há cerca de 2 anos, quando o preço do petróleo começou a "disparar" e a encher os cofres do Fundo Petrolífero?

Usar aquela frase é um verdadeiro exemplo de que "primeira cavadela, minhoca"! É claro que em nove anos não se faz aquilo que o jornalista "queria" que se fizesse. Nem lá, nem aqui, nem na China!...

O curioso é que parece que o próprio jornal ficou entusiasmadíssimo com o texto que publicou, achando que era uma "nódoa" suficiente para manchar a "toalha" de visita do Primeiro-Ministro Xanana Gusmão. As loas que teceu ao "ensaio", numa manifestação de "autoelogio" um bocado saloio, parecem-me deslocadas. Até porque muito do que lá está não é novidade para ninguém minimamente informado sobre o que se passa em Timor Leste e das dificuldades do "nascer dos dentes" do país. Mas julgar a situação pelos olhos da "civilização cristã e ocidental" não me parece a melhor prática. E se alguns, direi mesmo muitos, estão desiludidos com o fim do "sonho" mais ou menos "romântico" que tiveram sobre Timor, qual é a novidade? Os sonhos são isso mesmo! Por isso são sonhos! Senão seriam farófias!... :-) Ou pesadelos.
O problema é da realidade ou do sonho e do sonhador? Porque não tomou um Valium para dormir profundamente e sem sonhos?
Ná... Ainda não foi desta que encontraram o ouro... Podem continuar a "ensaiar" (quem escreve ensaios ensaia? É um ensaiador? Boa pergunta... Vou espreitar o dicionário e já volto...)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Relatório sobre a Pobreza em Timor Leste

O relatório sobre a pobreza referido na 'entrada' abaixo e divulgado hoje em Dili pode ser obtido aqui (em inglês; via InfoTimor).

Relatório sobre a pobreza em Timor Leste divulgado hoje

Um Comunicado do Governo anuncia a realização da cerimónia de lançamento do relatório preparado pela Direcção Nacional de Estatística com o apoio do Banco Mundial sobre a situação económico-social da população timorense. O Inquérito que serviu de base ao relatório foi efectuado em 2007 (clique nas imagens abaixo para as tornar legíveis).
























Note-se que neste comunicado se acrescentam também algumas informações sobre a evolução económica do país segundo dados do FMI. Este, que apenas há pouco mais de 4 meses estimava o crescimento do produto não-petrolífero de 2008 em 6,8% (ver aqui), prevê agora, segundo este comunicado, que ele crescerá 10%. Uma tão grande diferença em tão pouco tempo diz bem das dificuldades em fazer previsões correctas quanto à evolução da economia do país.