sábado, 1 de Novembro de 2008

Taxa de câmbio do USD e preços internos de Timor Leste

Na "entrada" abaixo em que faço referência à evolução das taxas de câmbio do USD face a várias moedas chamo a atenção particularmente para o efeito positivo que a valorização face à rupia poderá (sublinho a palavra "poderá" pelas razões aduzidas mais abaixo) ter nos preços internos.
Três notas suplementares sobre o assunto:

1 - o que se disse em relação à rupia aplica-se, por maioria de razões, ao dólar australiano. Assim, SE O MERCADO FUNCIONASSE COMO MANDAM OS LIVROS, iríamos assistir a uma redução significativa dos preços dos produtos importados da Austrália --- cujos principais consumidores são os "internacionais" que vivem em Timor mas que são também muito consumidos por timorenses mais endinheirados.

2 - o alerta sobre o funcionamento do mercado é importantíssimo porque estou convencido que os principais beneficiários da evolução das taxas de câmbio (quer do AUD quer da IDR) serão os próprios importadores, que na sua maioria e quase de "certeza certezinha" NÃO irão repassar para os consumidores os preços (em dólares) mais baixos que agora têm de pagar. Tal como não repassaram a baixa dos preços provocada pela descida das taxas de importação. Consequência: os gulosos por bolo de chocolate "made in Australia" terão de continuar a pagar 4 dólares por uma fatia --- "...zinha". Paciência, LMR!... :-)

3 - note-se que a maioria dos produtos importados da Austrália e à venda nos locais que todos conhecemos --- não, não vou fazer publicidade a nenhum deles, seja da antiga "Rua Avenida Marchal Carmona" (sic), de Delta-Comoro ou outro ... --- não é considerada para efeitos de determinação do Índice de Preços no Consumidor e por isso este e a taxa de inflação que dele se deduz não iriam, "de qualquer forma", reflectir uma eventual baixa de preços que se viesse a verificar.

Moral da história: (muito provavelmente quase) tudo como antes, quartel general em Abrantes!... Excepto na conta bancária dos importadores...

sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

Taxa "meta" para os Títulos do Tesouro americano

Como se sabe, a totalidade dos recursos do Fundo Petrolífero está aplica em títulos do Tesouro americano.
A evolução da taxa de juro "meta" para os "FED Funds" desde a constituição do Fundo Petrolífero é a que figura abaixo e é um determinante fundamental do retorno dos investimentos do FP:



Evolução das taxas de câmbio do Dólar americano

Uma das grandes transformações que se deu na economia internacional desde meados deste ano e que, face aos problemas com que se tem defrontado a economia americana, tem provocado a estranheza de muita gente é a valorização que o USD tem conhecido face a outras moedas.
No gráfico abaixo está registada a evolução face a algumas das principais:

Como se pode ver, deu-se uma fortíssima valorização do USD face ao dólar australiano acompanhada por uma valorização não tão forte --- mas ainda assim muito importante --- relativamente ao Euro e à Libra inglesa. E tudo a partir de Julho deste ano.
Das principais moedas apenas o Iéne japonês conheceu alguma valorização face ao USD.

Esta valorização do USD face às principais moedas do sistema financeiro internacional foi acompanhada pela que se verificou em relação a várias moedas asiáticas, particularmente a Rupia indonésia, o Bath tailandês e o Dólar de Singapura. O Renmimbi, a moeda chinesa, conheceu uma ligeira valorização face ao USD.


A Rupia indonésia, em particular, tem conhecido uma significativa desvalorização nos últimos tempos, com o câmbio por USD a aumentar dos cerca de 9200 rupias/USD de meados deste ano para os actuais cerca de 10800. Isto são boas notícias para Timor Leste já que as suas importações ficam agora mais baratas, reduzindo-se também a pressão para o aumento dos preços internos de Timor, i.e., havendo oportunidade para se verificar alguma redução da taxa de inflação.


Mas como não há bela sem senão, esta evolução significa também que o incentivo a depender cada vez mais das importações e o desincentivo à produção nacional de bens é cada vez maior...

Fonte das imagens: © 2008 by Prof. Werner Antweiler, University of British Columbia, Vancouver BC, Canada. in http://fx.sauder.ubc.ca/

quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

Informação sobre os chamados "Fundos Soberanos"

Um Fundo Soberano (Sovereign Wealth Fund na sua designação corrente em inglês) é um fundo de natureza financeira cujo proprietário é o Estado de um país. O Fundo Petrolífero de Timor Leste é um exemplo de Fundo Soberano.
Na internet é possível encontrar informação sobre eles. Uma "porta de entrada" para o assunto pode ser a rubrica correspondente na conhecida Wikipedia. Este texto está em inglês e tem mais informações que a sua versão (reduzida) em português que pode ser consultada aqui.

Evolução recente do preço internacional do arroz

Como se pode verificar pelo gráfico acima, algo contrariamente às expectativas existentes no início deste ano o preço internacional do arroz tem vindo a baixar consistentemente, situando-se hoje a um preço (664 usd/ton) muito menor que o que chegou a ter no início do ano (mais de 1000 usd/ton).
Ainda assim o preço actual é cerca do dobro do que se verificava no final de 2007, antes de, por influência de vários factores (especulação com as commodities, más colheitas, restrição à exportação por alguns países e desvalorização do dólar), ter começado a subir, a subir, a subir...

quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

Brincando aos empréstimos...

Do 'site' do Fundo do Kuwait (de facto o Kuwait Fund for Arab Economic Development) retivemos a informação sobre um empréstimo ao Uzbequistão.
Aí se diz que tal empréstimo foi concedido com as seguintes condições:

"The Loan will be for a period of 24 years including 4 years grace period, and will be amortized in 40 semi-annual installments, the first of which will be due on the first date on which any interest or other charge on the Loan shall fall due after the expiry of the above mentioned grace period.
The Loan bears an interest rate at 1.5% per annum, in addition to 0.5% per annum to cover administrative costs and other expenses incurred in the implementation of the Loan Agreement."

Traduzindo "por miúdos" e do inglês:

capital do empréstimo: 12,3 milhões USD; período: 24 anos com 4 de "período de graça", i.e., em que só se pagam juros e não se amortiza capital; pagamentos semestrais, com o capital a ser amortizado em 40 prestações semestrais iguais; taxa de juro: 1,5%/ano; taxa de administração (para suportar custos vários): 0,5%/ano sobre o capital em dívida.

Com base nestas condições fizemos (com uma ajuda providencial que se agradece...) uma "brincadeirinha com os números" para estudar os custos de um empréstimo em condições semelhantes a Timor Leste para financiamento de várias infraestruturas. O "ensaio" que fizemos foi, porém, para um valor muito mais elevado de capital: 200 milhões USD.

O resultado dos cálculos efectuados é que, depois dos primeiros 4 anos em que só se pagariam os juros e a taxa de administração, Timor Leste teria de passar a pagar cerca de 6,22 milhões USD por semestre durante os 20 anos seguintes. No total e ao longo dos 24 anos do empréstimo, Timor Leste pagaria cerca de 260 milhões de USD pelos 200 milhões recebidos agora (ex: 1 de Janeiro de 2009)

Note-se que a taxa de juro de 1,5%/ano era, na época, muito favorável pois as taxas de juro no mercado internacional eram bem mais elevadas. Neste momento as taxas estão mais baixas. Por exemplo, a taxa "meta" dos títulos do Tesouro americano eram no início do ano de 4,25% e em Julho de 2%. Agora é de 1,5% e já se fala na sua baixa para 1% (o que vai afectar negativamente, a curto/médio prazo, o rendimento do Fundo Petrolífero).

Evolução da taxa "meta" para o Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos nos últimos 5 anos

Esta tendência à queda das taxas de juro aconselha a que eventuais empréstimos, a serem contraídos, o sejam o mais tarde possível... A taxa de 1,5% a que foi contraído o empréstimo parece, hoje, ser relativamente elevada ou, pelo menos, ter um elemento concessional muito menor que o expectável. Uma taxa negociada agora deverá ser mais baixa.

PS - Oops! Já depois de publicada esta "entrada" tive conhecimento de que a taxa de juro nos EUA baixou mesmo para 1%, uma queda de 0,5 pontos percentuais em relação à anterior e que era de 1,5% em resultado de uma redução verificada já em Outubro. Más notícias para o Fundo Petrolífero. Com os rendimentos em juros a baixar, as "retiradas" de dinheiro para o Orçamento tenderão a ser (ainda mais) do capital/riqueza... Ora, não convém matar tão cedo a galinha dos ovos de ouro... Ainda por cima quando ela já "pôs" mais ovos do que actualmente...

segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

"Que sera, sera" (whatever will be, will be...)


Lembram-se? Era uma das muitas músicas cantadas pela Doris Day.
Esta veio-me à memória quando li a notícia de que o Primeiro Ministro foi numa vista de dois dias ao Kuwait.
"Que sera" que ele foi lá fazer? "Whatever will be, will be" quando se virem as contas do financiamento do orçamento para 2009 numa época em que o petróleo está cada vez mais barato...
Será?
Cante mais uma vez, Doris!... "Que sera, sera, whatever will be, will be..."

Evolução da cotação do USD vs €uro

A imagem abaixo retrata a evolução da taxa de câmbio do dólar americano relativamente ao €uro. Por ele se pode ver que o USD começou a valorizar-se em Julho deste ano, quando bastavam apenas cerca de 0,63 euros para comprar um dólar. Agora há que pagar um pouco mais de 80 cêntimos do euro.
Trata-se de uma valorização significativa do USD que surge a par (e interligada) com a queda progressiva, iniciada na mesma época, do preço do petróleo expresso em dólares.

© 2008 by Prof. Werner Antweiler, University of British Columbia, Vancouver BC, Canada.
Time period shown in diagram: 28/Apr/2008 - 27/Oct/2008 / in http://fx.sauder.ubc.ca/plot.html

É a crise, estúpido!...

Toda a gente fala da crise, que a crise que nasceu como "apenas" financeira está já a converter-se em crise económica, que a crise vai durar 1 ou 2 anos ou, mesmo, mais (hoje alguém dizia que ela vai durar até 2011...).

Não sei --- ninguém sabe... --- quanto tempo ela vai durar ("ela" significa a crise económica, traduzida em abrandamento do ritmo do crescimento económico que, em alguns países, até pode ser negativo). Na verdade, ninguém sabe muito bem quanto tempo vai durar porque ninguém sabe exactamente o tamanho do "buraco" financeiro que os especuladores geraram na economia com a complacência de muitos governos e bancos centrais.

Na teoria económica quando se fala de crises é usual dizer que a sua duração pode ser representada por um "V", por um "U" ou por um "L", conforme a recuperação do ritmo de crescimento "usual" seja mais rápida ou mais lenta.
A imagem abaixo ilustra o que dizemos.
O curioso é que aquando da crise económica que afectou a Ásia Oriental em 1997-98 também toda a gente deitou as mãos à cabeça porque ela tinha vindo "para ficar" e os países da região levariam anos e anos a recuperarem os ritmos de crescimento anteriores. Afinal, a crise foi recuperada, na maior parte dos países, em pouco mais de um ano (crise em "V"). E olhem que ela foi bem mais "braba" que a actual: a Tailândia e a Malásia tiveram taxas negativas de crescimento de cerca de -8% entre 1997 e 1998 e a Indonésia bateu o recorde com -13%!...
Na ocasião também de verificou uma grande convulsão nos sistemas financeiros dos vários países que levaram à falência de alguns bancos e à fusão de outros. Tudo resultando, com a "ajuda" dos programas de estabilização conjuntural financiados/impostos pelo FMI, em fortes reduções do crédito à economia --- o que, reconhece hoje o próprio Fundo, produziu uma contracção económica mais forte do que o "necessário" para "endireitar" a economia real.

As medidas que têm vindo a ser tomadas nos países mais desenvolvidos têm vários pontos de contacto com as que então foram adoptadas na Ásia e beneficiam do facto de terem sido tomadas mais cedo do que naqueles países.

Tudo isto para chegar a que conclusão? À de que estou muito menos pessimista quanto à capacidade de recuperação das "economias reais" do que muitos observadores. Ingenuidade minha? Talvez. Mas a esperança tem que ser a última a morrer e fazem-me muita impressão os discursos dos profetas da catástrofe ao virar da esquina. É que pensamentos negativos atraem o mau olhado!... Virem essa boca p'ra lá!...

domingo, 26 de Outubro de 2008

Levante-se o réu (ou melhor: um dos réus)!...

"Cometi um erro ao confiar que o livre mercado pode regular-se a si próprio sem a supervisão da administração".

Alan Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal dos EUA, PÚBLICO, 24-10-2008

PS - outro réu? O Fundo Monetário Internacional, que teoricamente é (deveria ser...) o regulador do sistema financeiro internacional