domingo, 5 de Outubro de 2008

Três importantes documentos...

... sobre a evolução dos preços internacionais do petróleo e dos alimentos, nomeadamente o arroz:

ADB Asian Development Outlook 2008 Update

BP Statistical Review of World Energy 2008

FAO Rice Market Monitor, July 2008

Os mais interessados devem dar uma olhada...

Previsão da evolução do preço do petróleo

Preços da gasolina e do diesel na Ásia

Fonte: ADB Asia Development Outlook 2008 Update

Evolução histórica dos preços das matérias primas

O World Economic Outlook publicado há poucos dias pelo FMI inclui, a páginas tantas, o gráfico abaixo sobre a evolução, numa perspectiva histórica, dos preços internacionais das matérias primas, nomeadamente das de natureza alimentar e o petróleo.


Quanto ao segundo, vê-se bem que estamos hoje em dia com preços reais semelhantes (até um pouco superiores) aos que se verificaram aquando do segundo choque petrolífero, no final dos anos '70, início dos anos '80 do século passado. Mais, dá para perceber que esta subida se verificou ao longo dos últimos 8-9 anos porque no final do século estavamos com preços que eram sensivelmente 1/6 do que são hoje!

Quanto aos produtos alimentares, o que de mais fundamental há a realçar é o facto de, tal como prediziam muitos especialistas desde há muitos anos, o seu preço real ter caído muito desde que, na época do primeiro choque petrolífero e um pouco "à boleia" dele, os preços atingiram um pico.
Melhorias significativas da produtividade agrícola (mas não só) foram responsáveis por uma evolução em que os preços conheceram uma grande degradação, que terá ultrapassado os níveis do "aceitável" --- nomeadamente em termos de comparação com os preços de outras matérias primas e dos produtos industriais e com os preços (normais?) da década de 60.
Assim sendo, a subida recente dos preços dos alimentos (e de outros produtos agrícolas) é entendida por alguns como uma reacção a essa diminuição histórica dos seus preços e, por isso, estes terão tendência a manter-se elevados face ao passado recente --- mas ainda baixos se vistos em contraste com o seu passado hitórico, nomeadamente o pré-1º choque petrolífero.
Preparemo-nos para a nova realidade... Sim, que o mundo já não é o que era...

sábado, 4 de Outubro de 2008

"Fundos da Riqueza Nacional" (Sovereign Wealth Funds)

Uma das principais alterações verificadas nos últimos anos no panorama financeiro internacional foi a proliferação e aumento de importância relativa dos chamados Sovereign Wealth Funds (SWF), que poderemos traduzir por Fundos da Riqueza Nacional já que, à semelhança do que acontece com o Fundo Petrolífero de Timor Leste, acumulam recursos financeiros resultantes principalmente da exploração de recursos naturais não renováveis (caso do petróleo e outros recursos minerais). Alguns resultam apenas de uma política de gestão do acumular de saldos positivos excepcionais da balança de pagamentos do país, como é o caso da China.

O último relatório do Fundo Monetário Internacional sobre o World Economic Outlook (WEO) disponibiliza informações sobre o número e valores acumulados por este tipo de fundos financeiros bem como sobre a estrutura das suas aplicações (nomeadamente em termos das moedas em que elas são denominadas). No caso de Timor Leste, como se sabe, todos os recursos (que já ultrapassaram os 3 mil milhões de USD ou, à inglesa, 3 biliões de USD) estão, em resultado do determinado na Lei do Fundo Petrolífero mas também por opção do Governo, aplicados em títulos do Tesouro dos Estados Unidos --- o que significa que estão todos aplicados em USD apesar de a Lei permitir que um montante de até 10% possa ser aplicado noutras moedas.

Os dois gráficos abaixo (clique neles para os aumentar e tornar legíveis) dão o essencial da informação que consta daquele WEO sobre os SWFs.
Como se pode verificar, nos anos decorridos desde o início da presente década o número de Fundos aumentou significativamente. Graças, principalmente, ao grande aumento dos preços do petróleo (a principal fonte de redimentos dos vários Fundos), o valor total por eles gerido cresceu também muito, situando-se hoje em dia em cerca de 800 mil milhões de USD --- dos quais 3 são do FP...

Vale também a pena salientar a composição, em moedas, da riqueza dos Fundos . Repare-se, por exemplo, que o Fundo de Pensões da Noruega tem cerca de 1/3 do seu valor aplicado em USD, outro terço em Euros e o 1/3 restante em outras moedas, nomeadamente em libras (inglesas) e em ienes (japoneses). Esta estrutura prende-se com opções da gestão do Fundo a que não é alheia a estrutura do comércio externo do país.
Na "pizza" de baixo está ilustrado o que poderá considerar-se como uma estrutura típica das aplicações de vários fundos: mais de um terço aplicados em USD, montantes aproximadamente iguais aplicados em Euros e Libras e depois em Ienes e noutras moedas.

sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

Já provou o café mais caro do mundo? Quer provar? Mesmo depois de ler isto?!... :-)

Esta é apenas uma curiosidade para amenizar a conversa "séria" habitual: há um tipo de café que é considerado o mais caro do mundo e que é produzido principalmente na Indonésia.
Hoje vi-o numa montra da "Baixa" de Lisboa ao preço de... 600 euros/Kg (sim! não há nenhum zero a mais nem a menos... 120 'contos' antigos; cerca de mil USD/kg).

É considerado o único "café animal" do Mundo... Ora então veja aqui do que falo...

O Banco Asiático de Desenvolvimento e a economia asiática

O BAD publicou recentemente (Setembro passado) o Update do seu exame anual à economia da Ásia-Pacífico. É un documento que vale sempre a pena consultar e por isso deixamos aqui o link para o texto onde ele realça os aspectos principais da evolução recente da economia asiática.
Pelo sim, pelo não, permitimo-nos deixar aqui a transcrição (em inglês...) de alguns parágrafos que podem ser mais importantes para Timor Leste. No InfoTimorlinks para informações sobre Timor Leste

Sobre o petróleo e seu preço:
"While oil prices have come down from their peaks of $147 per barrel in July 2008, they will stay high in the long run. Inflationadjusted oil prices will remain well above $100 per barrel until about 2020, according to research commissioned by the Asian Development Bank.
The price runup in oil has been driven mostly by the fundamentals of demand and supply. Surging global demand and the inability of global supply to keep pace have relentlessly generated upward price pressures.

In the future, global oil prices will continue to be determined by fundamentals. Global demand growth will be increasingly driven by demand from developing Asia and the Middle East. The growing appetite for transportation fuel will be of particular importance. On the supply side, the near-term peaking of output from oil producers who are not members of the Organization of the Petroleum Exporting Countries (OPEC), and constraints on the expansion of OPEC’s output capacity in the medium term, will put severe strains on meeting incremental global oil demand."

Sobre o arroz e seu preço:
"The price of rice—the basic food staple for billions of Asians— has fallen from peak levels reached earlier this year yet remains more that twice as high as it was at the start of 2008. The surge in prices of rice and other staple foods reverses a decades-long decline in real prices.
The causes of this runup are complex, but have four fundamental drivers.
First, rapid economic growth in emerging economies, particularly the People’s Republic of China and India, has put
upward pressure on prices of a range of commodities, including food. Demand has simply outpaced supply.
Second, a sustained decline in the dollar since 2004 has added to upward price
pressure on dollar-denominated commodities—particularly on crude oil—and this has fueled a search for hedges against a weak dollar.
Third, the combination of high oil prices and legislative
mandates to raise production of biofuel substitutes for gasoline and diesel fuel has established a price link between feedstocks, such as corn and vegetable oils, and fuel prices.
Fourth, to some
degree at least, financial speculation arising from low interest rates has motivated commodity price changes."

quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

O zero à esquerda

Toda a gente anda preocupadíssima com a crise financeira dos Estados Unidos devido aos efeitos de contágio que ela poderá ter quer para os sistemas financeiros de outros países --- principalmente da Europa e do Japão --- quer pelos efeitos que, mais tarde ou mais cedo, ela não deixará de ter sobre a chamada "economia real", i.e., o emprego, a produção e o consumo das populações de quase todo o mundo, ainda que com intensidades diferentes.
Ora, o que tenho achado curioso é que a instituição internacional que foi criada para vigiar o sistema financeiro internacional, o FMI, tem estado quase calado --- ou, pelo menos, ninguém dá importância ao que ele diz ou deixa de dizer. É o autêntico "zero à esquerda"! Não aquece nem arrefece...

Curioso é também o facto de este acaba por ser mais um "prego no caixão" de uma instituição que tem feito tudo para se descredibilizar a ela própria ao longo dos anos, principalmente dos últimos dez verdadeiros "anos horribilis" para ela.
Depois de ter atingido o pico da sua importância na década de 80 do século passado, quando foi necessário "apagar fogos" nos países que se tinham deixado enredar na armadilha da excessiva dívida externa, as coisas começaram a correr mal com a crise asiática de 1997-98.
A primeira "machadada" foi dada pelo "impertinente" Mahatir Mohamad, primeiro ministro da Malásia, ao recusar aplicar um programa de estabilização sugerido pelo Fundo e... "ousar" ter sucesso, com muitos menos custos sociais do que os que tiveram de suportar países como a Indonésia, que aplicaram o "pacote do Fundo" de políticas económicas. Mais tarde o próprio FMI veio a reconhecer que a sua gestão daquela crise tinha sido errada.
Depois foi a chamada "crise argentina", desencadeada por um Ministro das Finanças do país ("o cavalo do Cavallo") que, ex-colaborador do Fundo, resolveu "ser mais papista que o papa" e arrastou o seu país para uma situação de profunda crise de que entretanto está a sair --- em boa parte por estar a aplicar políticas bem diferentes das sugeridas pelo Fundo...
Depois foi a queda significativa dos rendimentos da própria instituição em resultado da queda dos empréstimos que concede --- em parte porque não são necessários, em parte porque países como a China e a Venezuela estão a "dar cabo do negócio" ao emprestarem aos países necessitados com condições muito melhores que as impostas pelo Fundo nos empréstimos que concede.
Finalmente, esta crise que, tal como a de 1997, não foi verdadeiramente antevista pelo FMI e perante a qual ninguém se preocupa em saber o que ele pensa ou não. Por isso anda por aí muita gente a perguntar "e não se pode exterminá-lo"?
Há dias em que não se pode sair de casa...

terça-feira, 30 de Setembro de 2008

Isto é que vai cá uma crise!...

A coisa parece estar feia!... E o mais interessante disto é que a História repete-se mas o Homem (na verdade determinados homens...) parece não aprender nada!...
A que me refiro? Ao facto de esta crise ser QUASE tirada a papel químico da que atingiu a Ásia e depois outros países (Rússia, Brasil) em 1997. Há, naturalmente, diferenças mas ambas começaram pelo sector imobiliário e por ambas foi responsabilizada a especulação e ganância de uns e a falta de supervisão e regulação por outros...
Tenho para mim que muito teria sido evitado --- esperemos que agora aprendam porque o mal lhes bateu à porta... --- se os bancos centrais tivessem uma visão mais equilibrada dos seus dois principais objectivos. Refiro-me ao facto de, nomeadamente por influência de concepções liberais (carreadas, por exemplo, pelo FMI), a maior dos bancos centrais apresentar como seu objectivo central a estabilidade dos preços, a luta contra a inflação. O objectivo de assegurar um funcionamento estável do sistema monetário-financeiro de um país tende a surgir algo subalternizado.
Ora, parece-me necessário reequilibrar a importância relativa destes dois objectivos fundamentais de qualquer banco central. Isto implicará, certamente, uma maior atenção (e limitação!) às famosas "engenharias financeiras" e aos "novos produtos estruturados" que não são mais que uma versão moderna de esquemas especulativos como o da famosa "D. Branca" do Portugal de há cerca de 20 anos!
No fundo e como disse Cavaco Silva a certa altura --- com consequências desastrosas para a Bolsa portuguesa e o bolso de muitos portugueses --- anda por aí muita muita gente a comprar gato por lebre à sombra de esquemas especulativos que, tal como o da D. Branca, não podem durar sempre. Até porque muito dinheiro que nele está envolvido é "virtual" e quando chega o momento de alguém o querer transformar em "real", o "lençol" não chega para tapar os pés e a cabeça ao mesmo tempo. E depois dizem que é um problema de falta de liquidez. Uma ova!...

domingo, 28 de Setembro de 2008

Sobre as funções do dinheiro: em geral e em Timor Leste

Num comentário à minha "teoria" sobre a rigidez dos preços dos bens "nacionais" em Timor Leste e o significado deste facto em termos de comportamento dos agentes económicos timorenses uma amiga minha escreveu-me uma mensagem em que fala a certa altura de algumas das suas experiências pessoais (está há mais de 3 anos no país e tem calcorreado este de lés a lés por necessidades profissionais, incluindo aqueles lugares "onde o diabo perdeu as botas"). Com a sua autorização aqui fica parte da mensagem:

"Sabe que a sua teoria dos preços é "mais ou menos" verdadeira. Os preços dos produtos agrícolas nas áreas rurais têm pouca variabilidade (exceção feita a esse maná dos deuses, o arroz). Por ex, se eu comprar quatro abóboras em Ermera, o preço é 1 dólar, tal como em 2005. O peixe em Behau é 25 centavos, a catupa é 10 centavos, e tal. Na minha lógica de ignorante em economia, o preço é imutável porque o dinheiro não existe: vigora a troca directa, o "bartering". Porém, o seu exemplo - o preço do táxi - varia sim: costumava ser de 50c a 1 dólar, em 2005 (para os timorenses) e agora é de 1 a 1,50 (também para eles). Quanto às coisas serem herança dos tempos da Indonésia, algumas são mesmo: em Manatuto, compra-se peixe em "dólar-rupia": pergunto o preço e respondem-me "tiga ribu rupiah", três mil rupias....E a cotação da rupia em Díli é 10.000-1 dólar (no câmbio paralelo, com gente de Oecussi). Imutável.
Um dos problemas é a falta de capacidade de muitas das pessoas para pensarem em termos de decimais e, pior ainda, em fazerem contas com valores acima de 10. Já me ocorreu uma situação surreal no mercado de Taibesi: a minha compra estava acima de 20 dólares, e a vendedora não sabia contar acima disso. Eu paguei o valor correcto porque fiz a conta por ela. Outra coisa surreal: numa edição de 2007, fizemos um pré-teste com um jogo que mostrava notas e moedas de vários valores. Apenas a nota de 1 dólar era conhecida, e ainda assim com dificuldade (o pré-teste foi feito em regiões remotas de Bobonaro e Covalima, com crianças de 9 a 14 anos). As crianças pequenas conheciam apenas as moedas.
Outra coisa: numa região remota de Ainaro, no início de 2007, fomos comprar feijão de uma senhora que o estava carregando ao longo de uma estrada rural (os meus colegas aproveitam as viagens para encherem a despensa, exactamente porque os preços são muito mais baratos no distritos). A senhora recusou-se a vendê-lo por dinheiro - queria arroz em troca....
[...] Se tudo é por troca, o dinheiro, seja ele qual for, faz diferença apenas para aqueles que vivem nas vilas. Isso é algo que mudaria radicalmente caso se pudesse chegar a essas regiões através de boas estradas. "


Passe algum exagero "caricatural" para sublinhar os aspectos mais importantes bem como a generalização que se possa estar a fazer de um conjunto de acontecimentos do dia a dia, o que fica acima é muito interessante e sugere até uma investigação mais aprofundada sobre o tema.
Na verdade parece que muita coisa se passa como se o dinheiro (a moeda) desempenhasse apenas uma das suas conhecidas funções (veja aqui um texto do falecido Prof. Pereira de Moura sobre o assunto) : a de meio de pagamento ou, melhor, de intermediário nas trocas. "Dá-me 1 USD porque não tens as bananas que quero e com esse dólar vou comprá-las ali adiante...". Isto é característicos de sociedades pré-desenvolvidas, em que o que predomina é a troca directa de produtos entre produtoes de bens diferentes MESMO QUE, como é o caso para boa aprte da população do país (e não necessariamente apenas nas zonas rurais...) INTERMEDIADA PELO USO DA MOEDA.

A procura de dinheiro para "acumulação" de forma a assegurar que se tem amanhã mais do que se tem hoje através, nomeadamente, da sua aplicação em investimento económico, é algo estranho à sociedade timorense em geral. Esta, por estar em muitos casos ao nível da sobrevivência (ou pouco mais), preocupa-se fundamentalmente com esta. Daí a maior importância dada ao investimento social (barlaque, festas pelo casamento, festas pelo baptizado e, pasme-se, até na hora da morte...) relativamente ao investimento económico. Aquele é fundamentalmente de grupo (nomeadamente da família alargada) para aassegurar a redistribuição do que existe enquanto que este tende a ser essencialmente privado ou, quando muito, da família nuclear e procura aumentar o que existe e não apenas a redistribuir o que já está produzido como no investimento social.

Só há aqui um "probleminha": é que DESENVOLVIMENTO É ACUMULAÇÃO, é investimento económico, é "reprodução alargada" e não "reprodução simples" dos recursos...
Como passar do investimento social ao investimento económico? O que, até pelo que se disse, implica uma autêntica "revolução cultural" na sociedade e na forma como ela se organiza e como interagem os seus membros.
Ora, isto vai levar tempo. Nós é que temos a mania de que "Roma e Pavia se fizeram num dia"... Mentira! Já vi as duas e "aquilo" levou tempo a erigir, sim!... Um tempão!...