sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

"Más ideias"

Do relatório referido nas duas entradas anteriores respigamos também o seguinte por nos parecer com interesse para a política económica de Timor Leste:

"Os debates ajudam a clarificar as boas ideias, sujeitando-as a análise e ao debate construtivo. Mas os debates também podem ser infectados por ideias más. Isto coloca dois tipos de dificuldades aos decisores políticos. Primeiro têm de identificar as ideias más, porque propostas destas podem aparentemente parecer prometedoras. Depois, precisam de evitar que elas sejam implementadas.
Uma lista ilustrativa de “más ideias” (que apesar disso são, muitas vezes, trazidas aos debates e a que se deve resistir) é apresentada abaixo. Devemos acrescentar desde já que, tal como as nossas recomendações sobre boas políticas devem ser tomadas com as devidas cautelas e adaptações à realidade de cada país, também a nossa lista de más políticas devem ser sujeitas aos mesmos cuidados.
Há situações e circunstâncias em que pode ser justificado adoptar temporariamente algumas das políticas abaixo mencionadas mas a maior parte da evidência sugere que tais políticas implicam grandes custos e que os seus objectivos declarados --- muitas vezes bons --- são melhor prosseguidos por outros meios.

· Subsidiar a energia excepto em casos muito específicos e dirigidos a sectores altamente vulneráveis da população.
· Lidar com o nível elevado de desemprego utilizando a Função Pública como “empregador de último recurso”. Isto é diferente dos programas de obras públicas tais como esquemas rurais de emprego, que podem constituir uma rede de segurança social importante
· (...)
· Impor controlos de preços para travar a inflação, a qual é muito melhor defrontada através de outras políticas macroeconómicas
· (...)
· Ignorar as questões ambientais nos estádios iniciais de crescimento com o argumento de que se trata de um “luxo insustentável” [para o país]
· Medir o progresso da educação apenas pela construção de infraestruturas escolares ou, até, pela maior taxa de matrícula em vez de focar a atenção na extensão da aprendizagem e na qualidade do ensino
· Pagar mal aos funcionários públicos (incluindo professores) comparativamente com os valores do mercado para qualificações semelhantes e combinar as baixas remunerações com promoções por antiguidade em vez de usar métodos credíveis de medição do desempenho dos funcionários e remunerá-los em função disso
· (...)
· Permitir a excessiva apreciação da taxa de câmbio antes que a economia esteja pronta para a transição para níveis mais elevados de produtividade, nomeadamente da indústria.

A lista acima é ilustrativa e não exaustiva. Cada país deve ter a sua própria lista de práticas que parecem desejáveis mas são ineficientes."

In The Growth Report: Strategies for Sustained Growth and Inclusive Development (vd link abaixo)

Sobre a agricultura no processo de desenvolvimento

in The Growth Report: Strategies for Sustained Growth and Inclusive Development
(Relatório da "Comissão Spence", pg 60)

"Há muitas e boas razões para investir na agricultura. Os ganhos podem ser impressionantes. A investigação agrária e a extensão rural têm taxas de retorno de cerca de 35% na África Sub-Saariana e de 50% na Ásia, de acordo com o último World Development Report [do Banco Mundial].
Além disso, em muitos países em desenvolvimento as áreas rurais são aquelas onde reside e trabalha a grande maioria dos pobres. Criar postos de trabalho para esta população na economia urbana levará várias décadas mesmo nas economias mais dinâmicas. (...)
As populações rurais são, muitas vezes, servidas deficientemente por serviços públicos, o que leva muitos a procurarem melhor educação ou saúde nas cidades.

A experiência sugere que o crescimento agrícola reduz a pobreza mais rapidamente que o crescimento da indústria ou dos serviços. Os Governos deveriam investir na agricultura até porque muitos desses investimentos se justificam por si próprios pelos seus méritos. ."

A propósito da possível emissão de moeda própria

Um dos problemas que há que defrontar quando se emite/passa a emitir moeda própria é o da definição da taxa de câmbio e, principalmente, do regime cambial em que se fará a gestão da taxa de câmbio.

John Williamson, o "pai" da expressão "Washington consensus/Consenso de Washington" disse nomeadamente:
“give [a country] an exchange rate suffi ciently competitive that its entrepreneurs are motivated to go and sell on the world market, and it will grow.
Give it too much easy money from oil exports, or aid, or capital infl ows, and let its exchange rate appreciate in consequence, and too many people with ability will be diverted from exporting to squabbling about the rents, and growth will be doomed.”

Traduzindo: "dêm [a um país] uma taxa de câmbio suficientemente competitiva para os seus empresários se sentirem motivados a venderem no mercado internacional e o país crescerá.
Dêm-lhe demasiado dinheiro fácil de exportações de petróleo, de ajuda ou de entradas de capital e deixem a sua taxa de câmbio apreciar-se em resultado disto e demasiadas pessoas com capacidade serão desviadas da exportação para a procura de "rendas" [nomeadamente como simples intermediários comerciais ou junto dos poderes públicos - AS] e o crescimento será afectado."

(in Williamson, John. 2003 Review of “Too Sensational” by Max Corden. Journal of Economic Literature 41(4): 1289–90)

quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

Cantoneiros, precisam-se!...

Já por mais de uma vez tenho chamado a atenção para a necessidade de fazer chegar dinheiro às zonas rurais através de vários mecanismos. Um deles seria a criação de um corpo semelhante ao dos "cantoneiros" existentes em Portugal e que têm a seu cargo a vigilância, manutenção e pequenas reparações da rede viária do país. Com tanto buraco por aí, trabalho não faltará...



Esta seria uma forma mais organizada (e, espera-se, mais eficiente) de continuar a campanha feita há algum tempo em que muitas pessoas foram envolvidas na limpeza das estradas mas que, infelizmente, não teve continuidade.

Uma forma complementar de fazer o dinheiro circular nas zonas rurais era apoiar a constituição de pequenas empresas locais que, devidamente apoiadas, se dedicassem a executar reparações um pouco maiores que as que podem ser executadas por uma só pessoa.

Claro que não é possível começar com um esquema deste tipo simultaneamente em todo o país. Mas por algum lado (1 ou 2 distritos) se tem de começar, retirando depois as lições a aprender antes de expandir o processo para o resto do país.

"À consideração superior"


PS: "Navegando" na net dei com esta 'entrada' de um blog em que se fala dos cantoneiros e do seu manual de comportamento mas também de instrução técnica para o desempenho das suas actividades: http://alentejanando.weblog.com.pt/arquivo/064798.html

terça-feira, 19 de Agosto de 2008

Do bom método para fazer política económica

Tenho para mim que um dos problemas principais que se colocam hoje à política económica que está a ser implementada em Timor Leste é o da... falta de método! Que deriva da falta de conhecimentos e da falta de estudo...

Na verdade, creio que muitos erros que se estão a cometer são derivados de não serem seguidos os bons princípios da metodologia da política económica, nomeadamente quanto ao chamado "processo de tomada de decisões".

Tinbergen, o holandês que foi o primeiro prémio Nobel da Economia por ter sido exactamente o pai da metodologia da política económica, ensinava que no processo de tomada de decisões há, no mínimo, seis fases diferentes. A saber:

1ª fase: conhecimento da realidade (diagnóstico);
2ª fase: análise das divergências entre a realidade e o desejável;
3ª fase: estimativa dos efeitos de políticas económicas alternativas;
4ª fase: escolha e decisão sobre a política económica a executar;
5ª fase: execução da política económica escolhida;
6ª fase: avaliação dos resultados

Isto é: as medidas de política económica devem ser previamente preparadas com cuidado (o "planeamento" da política económica), nomeadamente através de um bom conhecimento da realidade e do estudo dos efeitos de medidas alternativas (construção de cenários). E para saber determinar estes efeitos é preciso estudar, saber quais são as ligações (os 'linkages') existentes entre variáveis e agentes económicos (sim, isto da economia é como um cesto de cerejas...). Só depois é possível actuar. Decisões mal informadas são, quase sempre, más decisões... E dá-me a sensação que há por aí muita gente que não está a fazer o TPC (trabalho de casa) como deve ser...

Um exemplo é o da decisão de comprar arroz no mercado internacional e distribuí-lo a preço subsidiado.
Dá a impressão que só se pensou no (muitíssimo) curto prazo e não se tomaram em consideração os efeitos a médio e longo prazo. E ainda menos se estudou a possibilidade de existência de medidas alternativas e com menores custos.
Subsidiar um preço de um bem importado tem como consequência que os produtores nacionais são prejudicados, principalmente se, como é o caso em Timor, eles tendem a vender o seu arroz a preços mais altos que o arroz importado e vendido no mercado sem subsídio.
O resultado é que os produtores nacionais estão a queixar-se de que têm dificuldade em escoar o arroz que produzem devido ao facto de o mercado (quase) só absorver arroz subsidiado pelo Governo.
Não havia alternativas? Claro que havia e com menos custos. Por exemplo a de distribuir a cada família uma certa quantia de dinheiro (transferência em dinheiro; cash advance) que ela usaria para adquirir o que quisesse, particularmente o arroz. Os cerca de 15 USD que constituem o subsídio por saca poderiam ter sido entregues mensalmente, em dinheiro, a cada família timorense. Na prática isto constituia uma redução do preço do arroz mas o consumidor ficava com a opção de comprar arroz importado ou arroz nacional. E era bem bom se optasse por este último. Assim...

Outra alternativa era, se se queria subsidiar o consumo, faze-lo em menor grau do que foi feito para não prejudicar tanto os produtores nacionais e usar o diferencial para apoiar a agricultura nacional, nomeadamente os produtores de arroz. De facto e quase por princípio (que tem algumas excepções), devem ser evitados os subsídios ao consumo e a serem usados subsídios, devem se canalizados para a produção.

Um outro aspecto que não se teve em conta foi o das consequências a médio-longo prazo daquele subsídio. Para além de ter de haver, desde o início, não só uma estratégia de "entrada" no sistema de subsídios ao consumo mas também uma estratégia de "saída" (já pensaram nisso?), é necessário ter em consideração que o subsídio a um preço distorce a informação que este dá aos consumidores. Deixar subir o preço do arroz era uma mensagem aos consumidores de que têm de alterar o seu padrão de consumo, consumindo menos quantidade de arroz (nomeadamente importado) e maior quantidade de produtos alternativos/substitutos, de preferência de produção nacional.
E aqui somos levados a uma última referência (isto já vai longo...): a de que é necessário URGENTEMENTE definir uma política alimentar em perfeita articulação com a política agrícola e de desenvolvimento rural. A realidade é complexa e como tal tem de ser encarada; e isto exige estudo da situação (o diagnóstico da realidade) e a articulação de várias políticas entre si, em vez de se tomarem decisões mais ou menos avulsas, sem obedecerem a uma estratégia bem programada e melhor implementada.

segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

Até faz dó!...

Sábado passado fui para os lados de Maubara, visitar o "Vô Serra", o meu parente que vive em Timor desde 1965, há 43 anos! Uma vida!

E meteu-me dó o cada vez maior número de pilhas de lenha que se vêm um pouco por todo o lado à borda da estrada pronta para ser vendida ao primeiro viajante que a queira comprar. Nunca, em cerca de 8 anos que já "levo" de Timor Leste, tinha visto tanta lenha, símbolo do desmatamento que os timorenses estão a fazer, certamente a um ritmo muito maior que a capacidade de crescimento das árvores que têm sido plantadas.


É necessário encontrar uma solução urgente para esta verdadeira "razia" que se está a fazer na cobertura florestal do país e que não pode deixar de ter consequências graves em termos ambientais, fazendo o país ficar cada vez mais exposto aos riscos de degradação ambiental e de seca.

O que fazer? Não simpatizo (mesmo nada) com subsídios ao consumo mas há que ser realista e colocar a hipótese de se facilitar, através de um subsídio que faça baixar o seu preço ou através de esquemas de aproveitamento do gás que brota naturamente num ou noutro ponto do país (costa sul), a aquisição de petróleo ou de gás para uso doméstico. Sob risco de, se tal não for feito em tempo útil, a actual geração legar às próximas um Timor completamente "careca", seco, castanhão, em vez do Timor verde que todos apreciamos.

quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

Espertos!... :-) Sobre o arroz comprado aos camponeses timorenses pelo Governo

"É dos livros" que algumas das relações mais interessantes de seguir num país em desenvolvimento são as que se estabelecem entre os agricultores familiares e o Estado.
Habituados que este não seja, propriamente, um seu "amigo do peito", os camponeses têm tendência a encontrar rapidamente estratégias de adaptação quando as relações com o Estado não são o que desejavam. Será que o mesmo está a começar a acontecer em Timor em torno da questão da compra do arroz local aos camponeses? Talvez. Ou, pelo menos, merece a pena estar atento ao fenómeno.

Assim, fui ontem ao mercado comprar arroz para comparar preços e deparei com um vendedor que tinha uma saca de arroz de Uato Lari (Viqueque) disponibilizado pelo Governo (a 15 USD a saca de 35kg) e que ele vende a 1 USD cada 5 latas, sensivelmente 1kg.

Ora, o arroz em questão é de baixíssima qualidade, de bago pequeno e muito partido, a meio caminho entre o arroz normal e o que chamamos de "trinca" de arroz. O que pode estar a acontecer é os camponeses ficarem com o arroz de melhor qualidade que produzem para venderem directamente no mercado a preço mais elevado que aquele a que o Governo lhes compra e vender a este o refugo da sua produção... Espertos!...

Como é que o Governo vai controlar a qualidade do arroz que lhe vendem? Mais outra dor de cabeça... Ai Maromak!... "E eu que julgava que governar o país é mais ou menos o mesmo que governar a minha casa!..."

quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

De pequenino...

Cena no "Mercado dos Tais", em Dili


Taxa de inflação: 12,4%

Segundo números recentemente divulgados pela Direcção Nacional de Estatística, a taxa de inflação em Timor Leste (na verdade, na cidade de Dili, onde a informação é recolhida) foi de 12,4% em Julho passado comparativamente com Julho do ano anterior (2007) --- a chamada "taxa homóloga", neste caso de Julho.
Isto representa uma subida relativamente aos 11,6% do mês anterior.
As rubricas que mais influenciaram esta taxa foram as da alimentação (15,9%, por "culpa" principalmente dos 40,3% dos "cereais, raízes e seus produtos" --- leia-se, o arroz, etc), dos materiais de construção (23,1%) e dos transportes, principalmente os combustíveis (23,4%).

Com esta evolução parece difícil que se concretizem as estimativas de que a taxa anual de inflação em 2008 seria de cerca de 9%. Será que vamos a caminho dos 15% ou mais?

Considerando que durante o mês de Julho foram pagos valores muito significativos a vários grupos da população ("deslocados internos", "peticionários", pensões aos heróis da luta de libertação) vai ser interessante acompanhar o valor da inflação nos próximos meses para tentar determinar se aqueles pagamentos vão exercer pressão sobre os preços, "empurrando" a taxa de inflação para valores ainda mais altos.

terça-feira, 12 de Agosto de 2008

Timor Leste em fotos: terraços de arroz perto de Baucau


A "teoria da banheira"

Lembram-se daqueles problemas irritantes que nos davam volta à cabeça e em que tínhamos de calcular quanto tempo levava a esvaziar-se uma banheira cuja torneira debitava "x" litros por segundo e cujo ralo escoava "y" litros?
Pois um amigo meu, talvez inspirado nesses problemas, descreveu a situação económica actual de Timor Leste como sendo parecida com a de uma banheira (ele chama-lhe, na verdade, a "teoria do bidé"...) para a qual a torneira do dinheiro do Mar de Timor despeja dinheiro mas em que uma parte significativa desse dinheiro sai pelo ralo, via importações, a caminho da Indonésia (cerca de metade das importações de TL) e de outras paragens, ficando (relativamente) pouca coisa no país. Pelo menos em termos produtivos, já que muito é "desperdiçado" em consumo.
Numa perspectiva de médio-longo prazo, d eestratégia de desenvolvimento, isto é preocupante e merece a atenção das autoridades económicas já que a revisão da política fiscal que foi feita, com redução das taxas alfandegárias a uns quase simbólicos 2,5%+2,5%, deixa o país relativamente "desarmado" para fazer face à invasão do mercado nacional com produtos importados, em prejuízo da possibilidade de desenvolver internamente algumas produções que satisfaçam, pelo menos, parte do mercado já existente.
Associando a isto a crescente inflação, pode estar (já está?) a criar-se uma situação próxima de uma "dutch disease" em que produzir internamente sai mais caro que importar (da Indonésia, p.ex.) e em que a abundância de dinheiro (do petróleo) torna fáceis/apetecíveis as importações. Com prejuízo do saldo da balança de pagamentos e, principalmente, da economia nacional e da capacidade de gerar empregos no país.
"À consideração superior"!...

Último relatório trimestral do Fundo Petrolífero

Foi divulgado na passada sexta-feira o relatório do Fundo Petrolífero relativo ao segundo trimestre de 2008 (Abril-Junho). Leia-o a partir do site do banco central de Timor-Leste (a ABP) aqui.
No mesmo local pode aceder aos relatórios trimestrais publicados desde a criação do Fundo, em Setembro de 2005, quando o seu capital era de cerca de 250 milhões USD (contra os 3200 mil milhões actuais). Aí está também disponível o relatório anual relativo ao ano fiscal 2005-06.

quarta-feira, 30 de Julho de 2008

OGE rectificado: despesas estimadas 2008-2011

O quadro acima indica as estimativas das despesas públicas contidas na proposta de Orçamento Geral do Estado rectificado para 2008 ainda em discussão no Parlamento Nacional.
Note-se:
a) a quebra de 31% entre 2008 e 2009, pouco consentânea com o princípio de uma estabilidade do crescimento. Refira-se, porém, que os números actuais são apenas uma porposta e como tal susceptíveis de fortes alterações no OGE de 2009;
b) os totais de gastos estimados no OGE aprovado inicialmente para 2008 (linha abaixo) e as diferenças entre as estimativas iniciais e as actuais;
c) a redução muito significativa das despesas correntes e o aumento das despesas de capital segundo o OGE rectificado, a confirmar ou não posteriormente

domingo, 27 de Julho de 2008

Fomos às compras...de arroz

No passado dia 23 de Julho resolvemos correr os mercados de Dili (Taibessi, Comoro e Becora) para saber os preços do arroz.


Ainda que o facto de dizerem respeito a qualidades diferenciadas reduza a comparabilidade dos dados obtidos, achámos interessante publicar aqui os resultados da nossa "investida" naqueles mercados (que na maior parte dos casos corresponderam a compras efectivas depois pesadas e transformadas em USD/kg):

Note-se a grande variação dos preços do arroz "local", o facto de os preços em Taibessi serem os mais baixos e, por último mas não menos importante, o facto, já bem conhecido das estatísticas oficiais, de o preço do arroz "local" ser sistemática e significativamente superior ao do arroz importado.

As razões para tal facto, que, à partida, parece ser estranho à racionalidade económica "normal" (whatever it means...), serão várias e passam, nomeadamente, por alguma irracionalidade no comportamento dos agentes económicos, por algum tipo de "herança mental" dos preços do tempo da administração indonésia e, também por fim mas não por último, da dificuldade em marcar preços que não correspondam a fórmulas práticas muito simples de fazer as contas no uso do dinheiro (ex: 1 lata = 1 USD; 1 lata = 50 centavos; etc).

Este tema da racionalidade/irracionalidade económica de parte importante dos agentes económicos nacionais, nomeadamente dos que estão menos enquadrados na "economia moderna", é um tema interessante e merece uma investigação mais aprofundada. Parte da investigação terá de passar pelo processo de formação dos preços, nomeadamente pelo confronto entre os preços no mercado e os preços no produtor.

Quem dá um passo em frente?

PS 1 - a última coluna do quadro corresponde ou ao preço da saca (35kg) tal como nos foi pedido ou, na maioria dos casos, ao preço obtido por conversão do preço por quilo obtido na compra directa. É possível que a compra efectiva de uma saca se traduzisse num desconto "de quantidade" que na ocasião não foi determinado.

PS 2 - as compras foram efectuadas por colegas timorenses para evitar o conhecido fenómeno de subir os preços para os malais... :-)

Prospectiva dos preços do petróleo

A Energy Information Administration dos Estados Unidos publicou recentemente o seu relatório anual sobre a evolução dos mercados de energia.

Desse relatório (veja aqui) faz parte uma previsão sobre o comportamento dos preços do petróleo até 2030. O gráfico abaixo ilustra duas das hipóteses dessa evolução: a de base e a alta.

Na primeira (considerada mais provável) o preço do petróleo, depois de ter subido até aos níveis actuais, terá tendência a baixar até meados da próxima década (68 USD corrente/barril) mas voltará a subir até 2030, quando atingirá a média anual de 113 USD correntes por barril.

Na hipótese "alta", justificada nomeadamente por uma maior escassez do produto e por custos médios mais elevados da produção a realizar (p.ex., explorações a maior profundidade), o preço médio do barril em dólares correntes continuará sempre a aumentar até que em 2030 estará a uma média anual de cerca de 190 USD/barril.

2030 é "já ali"...

sexta-feira, 25 de Julho de 2008

O FMI e o Orçamento Rectificado

Parte de conclusões do comunicado do FMI (25JUN08) sobre o (então ainda projecto de) Orçamento Rectificado de Timor-Leste:

"The proposed MYBU [Middle Year Budget Update] reinforces concerns raised in the staff appraisal, including the need for well planned and managed spending to guard against waste. While the proposal reflects the government’s desire to respond to rising commodity prices, the scope is considerably larger than earlier plans for the rice subsidy. Given still undefined operational details, weak administrative capacity, and the timing, it is not expected that much of the ESF appropriation could be spent in the remaining half of the fiscal year. In addition, initial public reaction suggests the MYBU proposal will encounter significant opposition in Parliament."

"No comments...". O que já é, em si, um comentário...

Documentação sobre o Orçamento Rectificado

O La'o Hamutuk apresenta no seu site vasta documentação (incluindo comentários próprios) sobre o Orçamento Rectificado. Veja aqui.

quinta-feira, 24 de Julho de 2008

O "verdadeiro" preço do barril de petróleo

O Asia Economic Monitor do BAD/ADB referido na 'entrada' anterior debate, numa interessante "caixa" nas pgs 29 e 30, a situação do mercado mundial do petróleo: "Record oil prices: are they justified?".
Depois de apresentar algumas das razões mais divulgadas para justificar a presente situação de preços muito altos (especulação, medo de falhas no abastecimento, aumento da procura por parte de alguns países em desenvolvimento, queda do USD), termina dizendo:

"Mas muitos especialistas da indústria [do petróleo] dizem que o verdadeiro preço do petróleo bruto --- tal como resultante dos fundamentals da oferta e da procura --- deveria estar entre os 60 e os 70 USD/barril. Um relatório do governo japonês mostra que o "preço de acordo com os fundamentos [da oferta e da procura no mercado] do petróleo era de 60 USD/barril na segunda metade de 2007."

Como se sabe ele está actualmente a cerca de 130-140 USD/barril. E esta, hem?!... Quem está a beneficiar desta diferença entre o preço "verdadeiro" e o preço de mercado? De quem é a culpa desta situação? Quem deixa/contrtibui para que isto aconteça?

quarta-feira, 23 de Julho de 2008

"Asia Economic Monitor", Julho 2008

O Banco Asiático de Desenvolvimento acaba de publicar o número de Julho do seu Asia Economic Monitor.
Devido ao interesse que alguns dos pontos salientados nessa publicação podem ter para o estudo da evolução futura da economia de Timor Leste atrevemo-nos a transcrever parte desses pontos. Vai em inglês e tudo por ser mais rápido... :-)

"Asia Economic Monitor 2008, July 2008 (vd http://aric.adb.org )

Highlights
Recent Economic Performance
• Stronger-than-expected economic growth in emerging East Asia during the first 3 months of 2008 gave way to moderation in the second quarter, as slower growth in industrialized economies began to impact the region.
• Even as economic growth showed signs of moderation in the second quarter, headline inflation rose sharply as global oil and food prices surged, with a rise in core inflation indicating that second-round effects may be underway.
• Across much of the region, monetary policies are increasingly focusing on controlling inflation.
Outlook, Risks, and Policy Issues
• The external economic outlook for emerging East Asia has dimmed amid prospects for slower growth, tighter credit conditions, and higher inflation.
• Emerging East Asia is expected to see slowing yet solid growth as it weathers the current global economic headwinds relatively well—GDP growth is projected to reach 7.6% in both 2008 and 2009.
• The region’s solid growth outlook is vulnerable to several potentially harmful risks—including higher-than-expected inflation, a sharper or protracted economic slowdown in the US, and another bout of global financial turbulence.
• Heightened inflationary pressures will require more decisive tightening of monetary policies across much of emerging East Asia, and in economies with healthy fiscal positions, carefully-designed fiscal support—though avoiding artificial price-fixing and subsidies—can cushion the most vulnerable from the immediate effects of food and energy price increases.
• Other policy priorities could include (i) the required structural economic adjustment to accommodate the negative terms-of-trade shock; (ii) deeper and more comprehensive structural reforms to upgrade the investment climate in several emerging East Asian economies; (iii) nurturing more efficient and liquid financial markets to help channel capital into productive use and enable more effective management of capital flows and foreign exchange reserves; and (iv) measures to promote energy efficiency and conservation.
Dealing with Inflation: Policy Options for Emerging East Asia
• The current inflationary environment poses a dilemma for policymakers as controlling inflation depresses economic activity—forcing authorities to weigh the benefits of stabilizing prices against the costs of slowing growth.
• With monetary policy in many emerging East Asian economies behind the curve—there are growing signs that inflation expectations are beginning to drift, with second-round price effects beginning to burrow through the region’s economies.
• With the balance of risks tilted toward inflation, many of the region’s central banks need to be more decisive in tightening monetary conditions.
• Along with monetary tightening, selective use of fiscal measures can relieve the regressive tax effect of rising food and energy prices on the poor without necessarily undermining price stability.
• Enhancing the credibility of monetary authorities is an important challenge for many of the region’s central banks. "

sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Efeito da evolução a taxa de câmbio do USD sobre o valor do Fundo Petrolífero

O Fundo Petrolífero de Timor Leste é, naturalmente, contabilizado em moeda nacional --- ou "nacional" porque "emprestada".

Esta forma de contabilizar esta parte da riqueza do país pode ainda considerar-se como natural a grande maioria das despesas que ela permite financiar, nomeadamente através das suas contribuições para o financiamento do Orçamento Geral do Estado, ser efectuada em dólares americanos por ser essa a moeda de pagamento de muitas das importações efectuadas por Timor Leste.

Como exercício podemos, no entanto, tentar medir a riqueza do país em outra moeda ou, mesmo, num cabaz de moedas. O que se representa abaixo é o resultado do cálculo do valor do capital do Fundo em USD e em Euros em cada um dos finais de trimestre para que há relatórios publicados (de Setembro de 2005 até ao presente). A taxa de câmbio euro/USD foi a da data de final do trimestre respectivo.
Medida em Euros a riqueza é menor que em USD havendo, devido à desvalorização da moeda amercicana face ao Euro (e a outras moedas internacionalmente utilizadas), um crescente desfasamento entre as duas curvas representadas..