quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Espertos!... :-) Sobre o arroz comprado aos camponeses timorenses pelo Governo

"É dos livros" que algumas das relações mais interessantes de seguir num país em desenvolvimento são as que se estabelecem entre os agricultores familiares e o Estado.
Habituados que este não seja, propriamente, um seu "amigo do peito", os camponeses têm tendência a encontrar rapidamente estratégias de adaptação quando as relações com o Estado não são o que desejavam. Será que o mesmo está a começar a acontecer em Timor em torno da questão da compra do arroz local aos camponeses? Talvez. Ou, pelo menos, merece a pena estar atento ao fenómeno.

Assim, fui ontem ao mercado comprar arroz para comparar preços e deparei com um vendedor que tinha uma saca de arroz de Uato Lari (Viqueque) disponibilizado pelo Governo (a 15 USD a saca de 35kg) e que ele vende a 1 USD cada 5 latas, sensivelmente 1kg.

Ora, o arroz em questão é de baixíssima qualidade, de bago pequeno e muito partido, a meio caminho entre o arroz normal e o que chamamos de "trinca" de arroz. O que pode estar a acontecer é os camponeses ficarem com o arroz de melhor qualidade que produzem para venderem directamente no mercado a preço mais elevado que aquele a que o Governo lhes compra e vender a este o refugo da sua produção... Espertos!...

Como é que o Governo vai controlar a qualidade do arroz que lhe vendem? Mais outra dor de cabeça... Ai Maromak!... "E eu que julgava que governar o país é mais ou menos o mesmo que governar a minha casa!..."

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

De pequenino...

Cena no "Mercado dos Tais", em Dili


Taxa de inflação: 12,4%

Segundo números recentemente divulgados pela Direcção Nacional de Estatística, a taxa de inflação em Timor Leste (na verdade, na cidade de Dili, onde a informação é recolhida) foi de 12,4% em Julho passado comparativamente com Julho do ano anterior (2007) --- a chamada "taxa homóloga", neste caso de Julho.
Isto representa uma subida relativamente aos 11,6% do mês anterior.
As rubricas que mais influenciaram esta taxa foram as da alimentação (15,9%, por "culpa" principalmente dos 40,3% dos "cereais, raízes e seus produtos" --- leia-se, o arroz, etc), dos materiais de construção (23,1%) e dos transportes, principalmente os combustíveis (23,4%).

Com esta evolução parece difícil que se concretizem as estimativas de que a taxa anual de inflação em 2008 seria de cerca de 9%. Será que vamos a caminho dos 15% ou mais?

Considerando que durante o mês de Julho foram pagos valores muito significativos a vários grupos da população ("deslocados internos", "peticionários", pensões aos heróis da luta de libertação) vai ser interessante acompanhar o valor da inflação nos próximos meses para tentar determinar se aqueles pagamentos vão exercer pressão sobre os preços, "empurrando" a taxa de inflação para valores ainda mais altos.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Timor Leste em fotos: terraços de arroz perto de Baucau


A "teoria da banheira"

Lembram-se daqueles problemas irritantes que nos davam volta à cabeça e em que tínhamos de calcular quanto tempo levava a esvaziar-se uma banheira cuja torneira debitava "x" litros por segundo e cujo ralo escoava "y" litros?
Pois um amigo meu, talvez inspirado nesses problemas, descreveu a situação económica actual de Timor Leste como sendo parecida com a de uma banheira (ele chama-lhe, na verdade, a "teoria do bidé"...) para a qual a torneira do dinheiro do Mar de Timor despeja dinheiro mas em que uma parte significativa desse dinheiro sai pelo ralo, via importações, a caminho da Indonésia (cerca de metade das importações de TL) e de outras paragens, ficando (relativamente) pouca coisa no país. Pelo menos em termos produtivos, já que muito é "desperdiçado" em consumo.
Numa perspectiva de médio-longo prazo, d eestratégia de desenvolvimento, isto é preocupante e merece a atenção das autoridades económicas já que a revisão da política fiscal que foi feita, com redução das taxas alfandegárias a uns quase simbólicos 2,5%+2,5%, deixa o país relativamente "desarmado" para fazer face à invasão do mercado nacional com produtos importados, em prejuízo da possibilidade de desenvolver internamente algumas produções que satisfaçam, pelo menos, parte do mercado já existente.
Associando a isto a crescente inflação, pode estar (já está?) a criar-se uma situação próxima de uma "dutch disease" em que produzir internamente sai mais caro que importar (da Indonésia, p.ex.) e em que a abundância de dinheiro (do petróleo) torna fáceis/apetecíveis as importações. Com prejuízo do saldo da balança de pagamentos e, principalmente, da economia nacional e da capacidade de gerar empregos no país.
"À consideração superior"!...

Último relatório trimestral do Fundo Petrolífero

Foi divulgado na passada sexta-feira o relatório do Fundo Petrolífero relativo ao segundo trimestre de 2008 (Abril-Junho). Leia-o a partir do site do banco central de Timor-Leste (a ABP) aqui.
No mesmo local pode aceder aos relatórios trimestrais publicados desde a criação do Fundo, em Setembro de 2005, quando o seu capital era de cerca de 250 milhões USD (contra os 3200 mil milhões actuais). Aí está também disponível o relatório anual relativo ao ano fiscal 2005-06.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

OGE rectificado: despesas estimadas 2008-2011

O quadro acima indica as estimativas das despesas públicas contidas na proposta de Orçamento Geral do Estado rectificado para 2008 ainda em discussão no Parlamento Nacional.
Note-se:
a) a quebra de 31% entre 2008 e 2009, pouco consentânea com o princípio de uma estabilidade do crescimento. Refira-se, porém, que os números actuais são apenas uma porposta e como tal susceptíveis de fortes alterações no OGE de 2009;
b) os totais de gastos estimados no OGE aprovado inicialmente para 2008 (linha abaixo) e as diferenças entre as estimativas iniciais e as actuais;
c) a redução muito significativa das despesas correntes e o aumento das despesas de capital segundo o OGE rectificado, a confirmar ou não posteriormente

domingo, 27 de julho de 2008

Fomos às compras...de arroz

No passado dia 23 de Julho resolvemos correr os mercados de Dili (Taibessi, Comoro e Becora) para saber os preços do arroz.


Ainda que o facto de dizerem respeito a qualidades diferenciadas reduza a comparabilidade dos dados obtidos, achámos interessante publicar aqui os resultados da nossa "investida" naqueles mercados (que na maior parte dos casos corresponderam a compras efectivas depois pesadas e transformadas em USD/kg):

Note-se a grande variação dos preços do arroz "local", o facto de os preços em Taibessi serem os mais baixos e, por último mas não menos importante, o facto, já bem conhecido das estatísticas oficiais, de o preço do arroz "local" ser sistemática e significativamente superior ao do arroz importado.

As razões para tal facto, que, à partida, parece ser estranho à racionalidade económica "normal" (whatever it means...), serão várias e passam, nomeadamente, por alguma irracionalidade no comportamento dos agentes económicos, por algum tipo de "herança mental" dos preços do tempo da administração indonésia e, também por fim mas não por último, da dificuldade em marcar preços que não correspondam a fórmulas práticas muito simples de fazer as contas no uso do dinheiro (ex: 1 lata = 1 USD; 1 lata = 50 centavos; etc).

Este tema da racionalidade/irracionalidade económica de parte importante dos agentes económicos nacionais, nomeadamente dos que estão menos enquadrados na "economia moderna", é um tema interessante e merece uma investigação mais aprofundada. Parte da investigação terá de passar pelo processo de formação dos preços, nomeadamente pelo confronto entre os preços no mercado e os preços no produtor.

Quem dá um passo em frente?

PS 1 - a última coluna do quadro corresponde ou ao preço da saca (35kg) tal como nos foi pedido ou, na maioria dos casos, ao preço obtido por conversão do preço por quilo obtido na compra directa. É possível que a compra efectiva de uma saca se traduzisse num desconto "de quantidade" que na ocasião não foi determinado.

PS 2 - as compras foram efectuadas por colegas timorenses para evitar o conhecido fenómeno de subir os preços para os malais... :-)

Prospectiva dos preços do petróleo

A Energy Information Administration dos Estados Unidos publicou recentemente o seu relatório anual sobre a evolução dos mercados de energia.

Desse relatório (veja aqui) faz parte uma previsão sobre o comportamento dos preços do petróleo até 2030. O gráfico abaixo ilustra duas das hipóteses dessa evolução: a de base e a alta.

Na primeira (considerada mais provável) o preço do petróleo, depois de ter subido até aos níveis actuais, terá tendência a baixar até meados da próxima década (68 USD corrente/barril) mas voltará a subir até 2030, quando atingirá a média anual de 113 USD correntes por barril.

Na hipótese "alta", justificada nomeadamente por uma maior escassez do produto e por custos médios mais elevados da produção a realizar (p.ex., explorações a maior profundidade), o preço médio do barril em dólares correntes continuará sempre a aumentar até que em 2030 estará a uma média anual de cerca de 190 USD/barril.

2030 é "já ali"...

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O FMI e o Orçamento Rectificado

Parte de conclusões do comunicado do FMI (25JUN08) sobre o (então ainda projecto de) Orçamento Rectificado de Timor-Leste:

"The proposed MYBU [Middle Year Budget Update] reinforces concerns raised in the staff appraisal, including the need for well planned and managed spending to guard against waste. While the proposal reflects the government’s desire to respond to rising commodity prices, the scope is considerably larger than earlier plans for the rice subsidy. Given still undefined operational details, weak administrative capacity, and the timing, it is not expected that much of the ESF appropriation could be spent in the remaining half of the fiscal year. In addition, initial public reaction suggests the MYBU proposal will encounter significant opposition in Parliament."

"No comments...". O que já é, em si, um comentário...