quinta-feira, 5 de Junho de 2008

E esta, hem?!...

"Once upon a time", na sequência do primeiro contacto com colegas timorenses em 2000, ofereceram-me esta salenda .

Uso-a sempre em "cerimónias" mais oficiais, como sejam a participação em júris de mestrado ou doutoramento...

quarta-feira, 4 de Junho de 2008

Umas (poucas) palavras sobre o caso "Timor Telecom"

Estamos longe de estar suficientemente "por dentro" do "dossier Timor Telecom" e do que é a realidade do negócio das telecomunicações para que possamos aqui fazer uma análise aprofundada do problema sem grande margem de erro, risco que vamos correr...

Por princípio e como já referido noutro local, não sou partidário da existência de monopólios, particularmente os que resultam de negócios entre o Estado e privados --- já bastam os que, por deficiência do funcionamento do mercado ou outras razões acabam por acontecer na prática.
O caso da Timor Telecom não será, portanto e em princípio, uma excepção. Mas apenas em princípio...
De facto, no caso da TT a situação de monopólio foi, em boa parte, resultado do tipo de negócio que o Estado (o Governo na época) propôs e que teve como "contrapartida" que no final dos 15 anos de contrato toda a infraestrutura a montar reverterá a favor do Estado a custo zero. Esta não é, de forma alguma, a situação normal quando se trata de um negócio feito no quadro de uma concorrência perfeita.
Daí que a mudança da situação actual para uma de concorrência não possa ser efectuada sem que a TT seja ressarcida de muitos custos em que incorreu para satisfazer o "caderno de encargos" e que, se estivesse em livre concorrência, não suportaria. Duvido muito se a "voz do mercado" fosse (e seja no futuro) suficientemente forte para convencer alguém a investir no sector em Timor que não seja para se ficar por Dili e, eventualmente, Baucau. O resto será "paisagem", quase de certeza... Tal como o era no tempo da Telstra, embora esta se tenha instalado no país num quadro jurídico, político e económico completamente diferente do actual.

Admito, portanto, que se se vier a concretizar o fim do actual monopólio a situação que lhe sucederá pode não ser tão diferente da actual como isso... É que tenho as minhas dúvidas se, nessas condições, o negócio será suficientemente rentável para atrair outros investidores. Claro que não há como "pagar (muito?) para ver"... E é isso que o Governo actual parece querer fazer.
Mas... e se depois de pagar (muito) ficar tudo na mesma, com um ou dois operadores? Será que as pessoas estão convencidas que neste caso vai haver verdadeira concorrência? Huuummmmm!...

Neste processo, porém, o que mais me chamou a atenção foram outros aspectos que não o fim (anunciado ou, pelo menos, pretendido) do monopólio actual.
O que me mais me chamou a atenção foi, em primeiro lugar, o facto de, aparentemente, numas coisas o Governo se mostrar um paladino da concorrência e de dar voz ao mercado e noutras (caso do arroz e do seu preço, pelo menos) "silenciar" completamente a referida "voz do mercado".
Mais, penso que uma sequência normal num processo deste tipo seria, primeiro, debater com a empresa actualmente concessionária alguns dos aspectos que são mais criticados (justa ou injustamente, nem sei ao certo), nomeadamente o preço das chamadas telefónicas e a qualidade de preço do serviço de internet. É para estas situações que existem entidades reguladoras: para se informar correctamente sobre como funciona um determinado sector, estudar se há ou não alternativas e colocá-las em cima da mesa numa conversa "de pé de orelha" com o operador para encontrar uma solução que melhor satisfaça o interesse público (e do público). Só numa segunda fase se passaria para a solução, mais radical, de tudo questionar e mudar o regime... Para quê uma revolução de resultados desconhecidos se com uma boa reforma se conseguir o que se pretende?!...
Até porque --- e este é um terceiro aspecto que chamou a minha atenção pelo pouco cuidado com que aparentemente foi tratado --- se há coisa que os investidores, nomeadamente os estrangeiros, não gostam é de um Estado (eles não podem andar ao sabor dos Governos...) que hoje diz e faz uma coisa e amanhã --- mesmo que esse amanhã seja daqui a 5 anos... --- diz e faz outra. Esta não é, seguramente, a melhor forma de atrair o tão necessário investimento estrangeiro. Assim como não é boa estratégia "falar grosso" com as empresas estrangeiras...

terça-feira, 3 de Junho de 2008

Ainda sobre o preço do arroz em Timor Leste

A cotação de hoje do arroz (tailandês) no mercado internacional foi de 900 dólares (USD) por tonelada colocada a bordo do navio (na Tailândia).
Se, por hipótese, suposermos que é esse o preço a que o arroz chega a Dili, isso significa que cada quilo custa 90 cêntimos, custando os 35kg de uma saca 31,5 USD.
Partindo do princípio que é esse o valor a que o Governo o está a pagar (os intermediários devem ganhar alguma coisa, não?), isto significa que o Governo está a comprar por 31,5 USD o que vende aos comerciantes internos por 15 USD/saca para que eles a vendam a 17 USD/saca. Isto é: o Governo está a receber menos de metade do preço a que compra.
Trata-se de um subsídio por quilo muito significativo que reforça ainda mais as questões que se têm levantado aqui sobre a conveniência ou não de manter tal política por um prazo aparentemente sem fim à vista.

O banco central de Timor Leste escolhe o JPMorgan como "banco de custódia" do Fundo Petrolífero

A Autoridade Bancária e de Pagamentos de Timor-Leste, o banco central 'de facto' do país, publicou ontem ums nota de imprensa anunciando que, na sequência de um processo de escolha entre vários candidatos a um concurso aberto para esse fim, escolheu o banco JPMorgan, um dos mais conceituados a nível mundial, para seu 'parceiro' no processo de gestão do Fundo Petrolífero na qualidade de "banco de custódia" dos valores do mesmo.
Esta decisão enquadra-se na busca de uma cada vez melhor rentabilidade dos recursos do Fundo e de crescente melhoria dos recursos humanos da ABP nesta área já que o JPMorgan desempenhará igualmente um papel importante na transmissão de conhecimentos especializados para os funcionários da ABP encarregues de gerirem o FP no seu dia-a-dia.

Do comunicado de imprenasa destaquem-se as seguintes passagens:

"O que é uma empresa/banco de custódia?
Uma empresa/banco de custódia é uma instituição financeira responsável por salvaguardar os activos financeiros de uma empresa ou indivíduo. O papel deste tipo de empresas é: deter e salvaguardar activos como acções de empresas e títulos de Tesouro, organizar as operações necessárias à compra e venda desses títulos, reunir informação sobre e cobrar o rendimento de tais activos (dividendos no caso de acções e juros no caso de títulos de Tesouro [bonds]), fornecer informação sobre as empresas de que se detêm acções e suas reuniões gerais anuais, gerir as
transacções de dinheiro, executar, se necessário, transacções em moeda estrangeira e apresentar regularmente aos seus clientes relatórios sobre as suas actividades, incluindo sobre o cumprimento pelos gestores externos dos respectivos mandatos de investimento.

Sobre a Autoridade Bancária e de Pagamentos de Timor-Leste
A Autoridade Bancária e de Pagamentos de Timor-Leste é o futuro banco central de Timor-Leste e no quadro da Lei do Fundo Petrolífero (Lei nº 9/2005) tem a responsabilidade da gestão operacional do Fundo.
A ABP é uma instituição pública autónoma com responsabilidade legal pela regulamentação e supervisão do sector financeiro e do sistema de pagamentos do país. A ABP também age como banqueiro do governo, emite moeda nacional sob a forma de Centavos e monitora a economia de Timor-Leste.
Mais informações sobre a ABP estão disponíveis em www.bancocentral.tl

Sobre o JPMorgan Chase Bank NA
O JPMorgan Chase Bank é uma subsidiária de J.P. o Morgan Chase & Co. (NYSE: JPM). O banco é uma importante empresa de serviços financeiros globais com activos de 759 mil milhões de USD e operações em mais de 50 países. A empresa é uma líder em investment banking, gestão de activos, private banking, capital privado de empresas, serviços de custódia e de transacções bem como de serviços financeiros de retalho e de nível intermédio.
Componente do Dow Jones Industrial Average, o banco JPMorgan está sediado em Nova Iorque e serve mais de 30 milhões de clientes as principais empresas mundiais bem como clientes institucionais e governamentais.
Informação sobre o banco JPMorgan está disponível na Internet em www.jpmorganchase.com
"

Ainda sobre a subida dos preços agrícolas e a política económica a adoptar

O IFPRI-International Food Policy Research Institute, uma das instituições de pesquisa mais conceituadas sobre as questões da agricultura e desenvolvimento, publicou recentemente (Abril passado) um documento sobre as políticas a adoptar em resposta ao recente aumento dos preços dos produtos agrícolas.
Do texto traduzimos uma parte que, devido ao seu interesse, transcrevemos abaixo:

"Muitos países estão dando passos para tentarem minimizar os efeitos de preços mais altos nas suas populações. (...)

Quão eficazes serão as medidas tomadas? Controles de preços e mudanças nas políticas de importação e de exportação podem começar a fazer face aos problemas dos consumidores pobres, os quais acabam por se ver numa situação de não poderem dispor de uma dieta adequada para uma vida saudável. Porém, é provável que algumas destas políticas sejam contraproducentes ao fazerem estreitar e tornar mais volátil o mercado internacional. Controlos de preços reduzem o preço que os agricultores recebem pelos seus produtos agrícolas, reduzindo assim o incentivo para produzirem mais bens alimentares. Qualquer estratégia a longo prazo para estabilizar preços dos alimentos precisa de incluir um aumento da produção agrícola mas os controlos de preços não enviam aos agricultores a mensagem adequada para os encorajar a produzirem mais.

Além disso, ao beneficiar todos os consumidores --- incluindo aqueles que têm possibilidade de suportarem os preços mais altos dos bens alimentares ---, as medidas que representem um controlo dos preços de mercado divergem recursos para ajudar pessoas que realmente não precisam disso. Restrições às exportações e subsídios à importação têm efeitos negativos nos agentes económicos dependentes das importações e desincentivam os agricultores ao reduzirem a dimensão do seu mercado potencial. (...)

Medidas eficazes de política para os curto e longo prazos

Os aumentos dos preços dos alimentos têm um papel dominante no aumento da taxa de inflação em muitos países. Seria errado fazer face a estas causas específicas da inflação [o aumento do preço dos bens alimentares] com instrumentos macroeconómicos gerais. De facto, o que é preciso é adoptar medidas específicas de política para lidar com as causas e consequências de preços altos dos alimentos. Embora a situação actual coloque desafios de política em várias frentes, há medidas eficazes e coerentes que podem ser tomadas no curto prazo para ajudar as pessoas mais vulneráveis enquanto se trabalha para estabilizar os preços agrícolas através do aumento da produção agrícola no longo prazo.

Primeiro, no curto prazo, os países em desenvolvimento deveriam expandir os programas de protecção social (i.e., programas de redes de segurança como transferências de comida ou de rendimento e programas de nutrição focados nas crianças jovens) dos mais pobres quer das zonas urbanas quer das zonas rurais. Algumas das pessoas mais pobres nos países em desenvolvimento não estão bem integradas no mercado e, por isso, sentirão relativamente pouco os efeitos directos da subida dos preços internacionais mas os preços mais altos podem significar um sério sofrimento para milhões de consumidores urbanos e rurais pobres, que são os compradores líquidos de comida líquidos. Estas pessoas precisam de ajuda directa. Alguns países, como a Índia e a África do Sul já têm programas de protecção social e podem utilizá-los, expandindo-os, para fazerem face às novas (actuais) necessidades.

Países que não têm tal tipo de programas não os podem criar rapidamente e em tempo útil para fazer face, no curto prazo, aos problemas mais imediatos derivados da subida dos preços dos produtos alimentares. Podem, por isso, ter de recorrer a medidas mais “cruas” como a proibição de exportações e a concessão de subsídios às importações destes produtos [de aplicação generalizada].

(…)

Em quarto lugar, para conseguir um crescimento agrícola no longo prazo, os governos dos países em desenvolvimento deveriam aumentar os investimentos de médio e longo prazos na investigação e na extensão agrarias, nas infraestruturas rurais e no acesso ao mercado pelos pequenos agricultores. Os investimentos rurais foram extremamente negligenciados nas décadas mais recentes mas agora é a altura apropriada para inverter esta tendência. Os agricultores em muitos países em desenvolvimento estão a actuar num ambiente de infra-estruturas inadequadas, tais como estradas, electricidade e comunicações; terras pobres; falta de capacidade de armazenamento e de processamento dos produtos agrícolas; e pequeno ou nenhum acesso a tecnologias agrícolas que poderiam aumentar os seus lucros e melhorar as suas condições de vida.

Os recentes momentos de instabilidade social que se verificaram em vários países e que provocados pelo aumento dos preços dos alimentos podem influenciar os políticos a colocar os interesses de consumidores urbanos acima dos interesses dos que vivem nas zonas rurais, incluindo os agricultores mas esta atitude seria míope e de efeitos contraproducentes.

Dada a escala de investimentos necessários, os doadores de ajuda devem também aumentar o seu apoio à agricultura, serviços rurais e ciência e tecnologia [aplicáveis na produção agrícola]. "


O penúltimo parágrafo refere-se exactamente à adopção de políticas que, de uma forma mais ou menos permanente, constituam um controlo sobre o preço dos produtos alimentares importados.

segunda-feira, 2 de Junho de 2008

Há que contar com isto...

Quando, em entradas anteriores, alertámos para a necessidade de ter cuidado na concessão de subsídios, particularmente ao consumo de arroz, porque isso poderia constituir um ónus importante para o futuro o que quisemos foi alertar para o facto de a actual subida do preço internacional ter vindo para ficar. E os subsídios e a prática de ser o Governo a comprar e, por intermédio de comerciantes, vender também vão continuar? Será que o Estado deverá ter este tipo de funções a não ser em casos de emergência (o que não é o caso)?
É que as estimativas de evolução do preço internacional são as que estão no gráfico abaixo:

Isto é: os preços podem vir a subir ainda um pouco mais antes de (eventualmente) descerem. Mas pelo menos até 2010 há que contar com a subida dos preços. E com a manutenção dos subsídios? E quanto é que isso vai custar ao Orçamento? E em perda de incentivo para os produtores nacionais diversificarem/aumentarem a sua produção.

Dois (ou três) pensamentos...

As medidas que têm vindo a ser anunciadas pelo Governo de Timor Leste na área económica fazem-me alinhar dois (ou três) pensamentos sobre as principais linhas de força do que tem sido feito:

1 - parece existir uma nítida preferência por uma política de concessão de subsídios e similares à esquerda e à direita muito influenciada por aquilo que foi a vivência de muitas pessoas em Timor durante a administração colonial indonésia. A política então seguida --- mas que, genericamente falando, a Indonésia já pôs de parte há alguns anos, nomeadamente desde a crise de 1997-98 --- de prática de preços subsidiados e outras formas de enviesamento dos preços de mercado parece ser o grande quadro de referência de muitas das opções recentes de política económica;

2 - curiosamente, esta opção "casa" bem com uma outra linha de força que parece evidente: a de que se está perante uma política económica mais influenciada pela "economia política" do funcionamento da família alargada do que pelos ditames modernos da economia e da "boa governação". De facto, fica-se com a ideia de que o Estado está a assumir cada vez mais o papel do "pai" de família que tem a algibeira a transbordar de dinheiro e que vai dando umas notas aos filhos, aos primos, aos primos dos primos, aos cunhados da avó do primo, etc.
Note-se que este processo cria uma dependência em relação ao Estado que, para além de, a prazo, não ser nada salutar, faz, mais uma vez, lembrar o "racionale" da colonização indonésia: à falta de empregos efectivamente produtivos o Estado indonésio escancarou as portas da administração pública aos timorenses numa tentativa de, tornando-os dependentes dele, "comprar" a sua "solidariedade" com o colonizador.

3 - não menos preocupante parece ser uma certa linha de continuidade em relação ao passado recente e ao que está, desde há muito, identificado como tendo ocorrido e estando a ocorrer em muitos outros países: um certo (elevado?) nível de urban bias, isto é, de enviesamento da política económica a favor das cidades e em detrimento das zonas rurais porque determinada essencialmente por "urbanos" com pouca sensibilidade para os problemas do mundo rural --- até porque não serão os "rurais" que irão atirar pedras no próximo momento de instabilidade. A política de subsidiar o arroz é um exemplo desse urban bias (quem são os principais consumidores de arroz subsidiado? Quem são os principais prejudicados por não se deixar o aumento do preço do arroz reflectir-se na alteração dos padrões de consumo a favor de bens agrícolas nacionais como o milho, a batata e outros?)

PS - nesta linha há alguma coisa a dizer sobre a recente polémica suscitada pelo Governo por causa da Timor Telecom. Fica para depois.

domingo, 1 de Junho de 2008

Variação do preço internacional e dos preços nacionais do arroz

Em documento de Maio passado intitulado "Soaring food prices: response to the crisis" o Banco Asiático de Desenvolvimento ("ADB" como é mais conhecido) publicou informação sobre a evolução dos preços do arroz no mercado internacional e os preços no consumidor, por kg, em vários países asiáticos.

Segundo o ABD o preço no mercado mundial aumentou 98% entre Março de 2007 e Março passado (2008). Este valor pode ser comparado com a alteração que se verificou no preço ao consumidor em vários países da região.
Assim, no Bangladesh e no Camboja o aumento do preço no consumidor naquele mesmo período foi de 100%, o que significa que o aumento do preço verificado no mercado internacional foi inteiramente repercutido para os consumidores.

No extremo oposto dos aumentos temos a China, a Índia e a Indonésia, que viram o preço no consumidor aumentar apenas 6%, 9,3% e 8,7%, respectivamente.

O Vietname, grande produtor e exportador do cereal, aumentou os seus preços internos em 17% e as Filipinas em 40% enquanto que o Sri Lanka aumentou 55%.

Timor Leste tinha um preço do kilo de arroz em Abril de 2007 de 0,45 cêntimos (dados da Direcção Nacional de Estatística). Este valor deve ser comparado com outros dois: o de 0,486 cêntimos/kilo que está a ser praticado na venda de arroz importado pelo Governo (que resulta da venda a 17 USD de cada saca de 35 kg) e o de 0,714 cêntimos/kilo que resulta do preço "de mercado" do arroz, aqui representado pelo preço do arroz importado directamente pelos comerciantes e que é de 25 USD/saca.

Se olharmos para estes valores em percentagens, temos que o preço que está a ser praticado na venda do arroz "governamental" representa um aumento de 8% face ao preço de Abril de 2007 e que o preço "de mercado" representa um aumento de cerca de 59%.
Embora não seja esse o verdadeiro custo suportado pelo Governo para praticar tal política de subsisdiar o preço do arroz, o diferencial entre os dois preços referidos é actualmente, para o consumidor, de cerca de 8 USD/saca. O que, se uma família consumir cerca de 1,25 sacas de arroz por mês significa uma poupança de 10 USD/mês. Trata-se de um verba importante para níveis de rendimentos tão baixos como muitos e muitos timorenses têm mas:

a) a manterem-se, como se prevê que venha a acontecer, os actuais níveis de preços internacionais, qual vai ser a reação do Governo? Vai manter mais ou menos eternamente a prática de importar directamente e vender a preço mais baixo que o do mercado (e, acredita-se, que o próprio preço de custo pago pelo Governo)? Quais os custos orçamentais dessa prática? E os custos macroeconómicos?
b) a extensão a todo e qualquer consumidor, independetemente do seu nível de rendimento, do benefício de comprar arroz a breço bonificado vai continuar ou vai-se "afinar" a política de modo a beneficiar apenas e só aqueles que verdadeiramente precisam desse benefício para assegurar um mínimo de consumo alimentar?
c) quais as consequências do prolongamento do tempo deste "enviesamento do sinal do mercado" que é a concessão de um subsídio ao preço sobre o possível aumento da produção interna, que se tornaria viável com um aumento mais substancial do preço de mercado mas que se torna inviável aos preços actuais?
d) o que se pensa fazer para ir convencendo os consumidores timorenses de que não é possível continuarem a consumir as mesmas quantidades de arroz que consomem e a que foram habituados no tempo da administração indonésia por o arroz ser então um alimento barato devido aos fortes subsídios? Os "sinais de mercado" vão agora no sentido de a dieta alimentar ter de se adaptar, consumindo menos arroz e mais milho, mandioca, batata, etc, produtos essencialmente da agricultura nacional e cujo aumento da procura poderia ser uma "benção do céu" para os agricultores timorenses, tão necessitados de realizarem dinheiro vendendo para o mercado. Mas se esse mercado for só (ou principalmente) de produtos importados estarão (continuarão a estar) condenados...

Pense-se nos vários prós e contras das medidas adoptadas e actue-se em conformidade. Por vezes é necessário tomar decisões mais difíceis... mas inevitáveis.

sábado, 31 de Maio de 2008

Se é verdade que o melhor do mundo são as crianças...

... porque não riem todas como esta? Culpa nossa, claro!

sexta-feira, 30 de Maio de 2008

Notícias breves (com comentários semi-breves)

Nosa últimos dias três factos/notícias chamaram a minha atenção quanto à economia e à política económica de Timor Leste:

a) a existência de um "Memorando de Entendimento" com uma empresa indonésia dando direitos exclusivos para a exploração de cerca de 100 mil ha para plantação de cana de açúcar.

Comentário: este é um tipo de solução que foi vulgar noutros tempos, nomeadamente na Indonésia, mas hoje, em que estão mais que reconhecidas por (quase) todos as vantagens da economia de mercado, não parece fazer muito sentido a existência de monopólios ou de "companhias majestáticas"

b) foi anunciado que serão concedidos subsídios aos produtos petrolíferos de modo a fazer baixar o seu preço

Comentário: pessoalmente não simpatizo com subsídios que beneficiem TODOS os agentes económicos, aceitando-se que alguns sejam beneficiados por serem especialmente vulneráveis devido ao facto de serem (ainda mais) pobres.
Há, pois, que esperar para ver que tipos de produtos petrolíferos vão ser subsidiados e quem vai beneficiar dessa redução (artifical) dos preços. A Indonésia, por necessidades fiscais e para não preverter os (fundamentais!) "sinais do mercado", eliminou há alguns anos os subsídios que mantinha à maioria dos produtos petrolíferos (de que, ainda por cima, era produtora), mantendo apenas um subsídio ao kerosene com um duplo objectivo: (i) proteger as camadas sociais mais pobres, as grandes utilizadoras do referido combustível para cozinharem; e (ii) para ajudar à protecção ambiental pois a alternativa era, como acontece em Timor Leste, as pessoas passarem a utilizar intensamente a lenha, provocando um verdadeiro desastre ambiental.

c) o Governo substiuiu-se parcialmente ao mercado fazendo importação directa de arroz e entregando-o aos comerciantes a um preço mais baixo que o do mercado (15 USD por saca de 35 kgs) a fim de ser vendido a 17 USD/saca. O resultado é que os comerciantes que importaram directamente e têm sacas de arroz no mercado a 25 USD/saca não conseguem escoar o cereal importado directamente.

Comentário
: tal como dito anteriormente, não parece razoável que o benefício do subsídio que é a compra de arroz mais barato seja extensível a todos, independentemente dos seus rendimentos. Não é essa normalmente a "boa prática" noutros locais. Compreende-se, porém, a solução adoptada considerando a dificuldade de organizar um processo mais selectivo para chegar apenas a grupos específicos de agentes económicos. Mas será difícil compreender que ela se torne mais prolongada no tempo que o estritamente necessário para organizar um processo mais "equitativo".
Alerta-se, no entanto, para o perigo que pode constituir uma solução destas se, como tudo parece indicar, o preço do arroz, tal como o de outros alimentos, se mantiver alto no futuro. Há que estar preparado para , a seguir-se a mesma lógica, se eternizar a política de subsidiar "universalmente" o preço do arroz.
Não está em causa apenas o custo orçamental de tal procedimento; está também em causa a filosofia de deturpação dos sinais do mercado que essa política implica. Por exemplo, a baixa artifical do preço do arroz pode prejudicar o aumento da produção interna do mesmo e a eventual substituição (parcial) do arroz por outras culturas alimentares essencialmente de produção nacional, como o milho e a batata, por exemplo. Assim se manterá a dependência alimentar em relação ao exterior, que importaria diminuir.
É, pois, importante que aquilo que poderá ser uma solução temporária, de recurso, não se "instale" como solução permanete, definitiva. É que se for necessário terminar com ela vai ser muito difícil explicar às pessoas a redução/eliminação dos subsídios.

Ainda sobre o aumento do preço do petróleo (parte 2)

Concluimos aqui a apresentação da tradução do texto de Michael Masters iniciado na entrada com o título semelhante [parte 1] apresentada mais abaixo

"Na imprensa popular a explicação dada para a maioria da subida do preço do petróleo é o aumento da procura de petróleo pela China. De acordo com a DOE a procura de petróleo pela China aumentou de 1,88 para 2,8 mil milhões de barris/ano, um aumento de 920 milhões de barris/ano. Durante o mesmo período de cinco anos a procura pelos “Especuladores nos Índices” quase igualou a da China.

De facto, os “especuladores nos índices” acumularam, através do mercado de “futuros”, o equivalente a 1100 milhões de barris de petróleo, aumentando 8 vezes a sua acumulação desta commodity (...).

Vejamos agora o que se passa nos preços dos alimentos, os quais aumentaram muito nos últimos seis meses.

Quando solicitados a explicarem esta dramática subida dos preços, os economistas respondem, em geral, com a reafectação de uma parte substancial da colheita de milho para a produção de etanol. O que eles esquecem é que os investidores institucionais compraram mais de 2000 milhões de bushel [1 bushel = 35,2 litros) nos últimos 5 anos. Neste momento os Especuladores nos Índices acumularam em “futuros” de milho o necessário para alimentar a indústria de produção de etanol dos Estados Unidos durante um ano. Isto oequivale a produzir 5,3 mil milhões de galões de etanol, o que faria dos EUA o maior produtor mundial de etanol.

Em relação ao trigo, em 2007 os americanos consumiram 2,2 bushels de trigo per capita. Com os actuais 1300 milhões de bushels acumulados pelos Especuladores nos Índices é suficiente para alimentar todos os cidadãos americanos com o pão, as massas e os produtos similares durante os próximos dois anos.

As características da procura dos especuladores dos índices.

A procura de contratos de “futuros” só pode vir de duas fontes: os reais consumidores dos produtos e os especularoes. Este último grupo inclui dos “especuladores tradicionais” e os “especuladores nos índices”. Há cinco anos atrás estes últimos eram uma fracção muito pequena dos mercados de “futuros” das commodities. Hoje, em muitos destes mercados eles são, de longe, os principais operadores. (...)

A procura destes especuladores é muito diferente da dos especuladores tradicionais; ela resulta apenas e só das suas decisões quanto à afectação de recursos para constituição da sua carteira de títulos. Quando um Investidor Institucional decide afectar 2% do seu dinheiro para investir em “futuros” de commodities, por exemplo, ele apresetna-se no mercado com um determinado volume de dinheiro. Não estão preocupados com o preço unitário do bem; irão comprar tantos contratos de “futuros” quantos os que precisarem, seja a que preço for, até que todo o dinheiro que têm disponível para a operação esteja “a trabalhar”. A sua insensibilidade ao preço multiplica o seu impacto nos mercados de matérias primas.

Além disso, os mercados de “futuros” são de muito menor dimensão que os mercados de acções e obrigações; assim sendo, qualquer afectação de muitos milhões de dólares aos mercados de commodities terão um efeito muito maior sobre os preços. Em 2004 o valor total dos contratos de “futuros” existentes para todas as 25 mercadorias do “índice de mercadorias” era de cerca de 180 mil milhões de dólares. Compare-se isto com os cerca de 44 triliões de dólares dos mercados bolsistas a nível mundial, que é 24º vezes a dimensão do de “futuros” de mercadorias. Nesse ano os “Especuladores nos Índices” investiram neste mercado 25 mil milhões, um montante equivalente a 14% do mercado total.

O gráfico acima mostra a dinâmica do que está a acontecer. À medida que o dinheiro é investido nestes mercados de “futuros” de commodities, acontecem duas coisas simultaneamente: os mercados expandem-se e os preços aumentam. Um aspecto particularmente preocupante da procura dos “Especuladores nos Índices” é o de que ela aumenta à medida que os preços aumentam [o que é o inverso da “lei da oferta e da procura”]. Isto explica a taxa cada vez maior a que aumentam os preços dos contratos de “futuros” das commodities (e, por arrastamento, os preços das próprias matérias primas). Preços mais altos atraem cada vez mais “Especuladores nos Índices”, cuja tendência vai ser investir cada vez mais à medida que os preços vão aumentando [e, com isso, provocar novos aumentos de preços, num processo que se “autoalimenta”]. (...)

Pode verificar no quadro acima que os preços aumentaram ainda mais dramaticamente no primeiro trimestre de 2008. Calculamos que os “Especuladores nos Índices” tenham invadido os mercados com 55 mil milhões de dólares apenas nos 52 dias de operação dos mercados que leva o ano desde o seu início. Isto é um aumento de um pouco mais de mil milhões por dia.

Não será plausível que um aumento da procura nos mercados de “futuros” desta dimensão pode justificar muito do grande aumento de preços que se verificou desde o início deste ano?”

Evolução dos preços do petróleo e do café nos últimos 3 anos

E de quem é a culpa?

"Quem está a inflacionar a 'bolha' no mercado de petróleo? O principal culpado é o FED [banco central americano] ao reduzir a taxa de juro dos seus títulos em 325 pontos base [= 3,25 pontos percentuais] para uma taxa real negativa de -2% após ajustamento pela taxa de inflação [dos EUA] e ao expandir a oferta monetária no país em 16,5% desde há um ano atrás, num esforço desesperado para parar o declínio do sector bancário americano, que entretanto se vai afundando [por causa da crise do mercado habitacional e na sub-prime].
Ao empurrar as taxas de juro para terreno tão nitidamente negativo, o FED encoraja a especulação nos mercados de commodities e empurra também o dólar para baixo [face ao Euro, p.ex.], o que, por sua vez, está a empurrar para cima o preço em dólares das matérias primas, tais como o petróleo bruto e o ouro."

in SirChartsAlot, 28/Maio/2008

Querem ver como os "investidores institucionais" fazem especulação com o petróleo? É assim...

O blog Econbrowser explica tudo direitinho numa entrada de 17 de maio passado. Daí respigamos apenas a primeira parte para a traduzir para português mas aconselhamos a leitura do texto completo clicando aqui.

Aí se diz o seguinte:

"Como é que a especulação pode estar a contribuir para as mais recentes alterações dos preços do petróleo.

Uma importante tendência recente na gestão dos fundos de pensões e similares é o aumento do uso de dólares para o investimento na especulação com as matérias primas [commodities]. Talvez a forma mais simples de o fazer é comprar, digamos, um contrato de "futuro" de petróleo para Julho próximo. Se comprar esse contrano na sexta-feira terá a possibilidade de o petróleo lhe ser entregue efectivamente (...) algures em Julho a 126 USD/barril. Enquanto fundo de pensões ou similar você não quer receber, de facto, esse petróleo [pois não o vai 'consumir' efectivamente] e por isso, no início de Junho, você vai procurar vender esse contrato a alguém e usar a receita para comprar um contrato de "futuros" para Agosto. Se o preço do petróleo aumentar entretanto vai poder vender o contrato [de Julho] por mais que os 126 USD/barril que pagou por ele, obtendo assim um lucro. Assim, fazendo "rolar" desta forma os contratos de "futuros" a curto-prazo o seu "investimento" obterá um rendimento que acompanhará a tendência de evolução do preço do petróleo".


Nota final: claro que com este procedimento os fundos financeiros alimentam continuamente o processo e fazem subir cada vez mais os preços pois é a única maneira de continuarem a ganhar dinheiro --- aliás, muito dinheiro.

quinta-feira, 29 de Maio de 2008

Está aí o terceiro choque petrolífero?!...

O BES- Banco Espírito Santo acaba de publicar o seu boletim "Economia Global", de Maio/08.
O editorial fala do 'terceiro choque petrolífero' (a somar aos dos anos 70 do século passado), que considera ser já hoje uma realidade (ou quase). A não perder.

A evolução do preço do arroz nos mercados internacionais

A FAO publica regularmente informações sobre a evolução dos mercados internacionais de matérias primas (commodities) alimentares.
Do número de Junho do seu Food Outlook constam os seguintes quadros do relativos ao mercado internacional do arroz.

Por ele se pode verificar que o grande aumento do preço do arroz se verificou desde o final de 2007, tendo o preçoo da tonelada passado de um pouco menos de 400 USD para cerca de 900 mais recentemente. Uma mais que duplicação em cerca de 5 meses!
Naturalmente, tal como se passa nos mercados de outras commodities, esta evolução tem muito pouco que ver com a das condições de produção ou do comércio internacional do cereal.
De facto, a produção deve aumentar de 2007 para 2008.
No entanto, as exportações em 2008 vão tender a ser mais baixas que em 2007 porque alguns países decidiram restringir as suas vendas ao exterior a fim de assegurarem o abastecimento do mercado interno.
Assim sendo e tal como já referido noutro local, os grandes culpados destas subidas em flecha dos preços do arroz são os "investidores institucionais" mencionados noutra 'entrada' deste blog, mais abaixo, a propósito da evolução do preço do petróleo.
É o capitalismo financeiro, estúpido!...

Sobre a situação do mercado mundial de arroz veja-se também o Rice Market Monitor de Abril/2008.

Evolução do preço internacional do café (Nova York)

(clicar na imagem para aumentar o seu tamanho)

Evolução do preço do petróleo e dos bens alimentares

Em documento da FAO (a organização especializada das Nações Unidas para a agrultura e a alimentação) está publicado este gráfico interessante por fazer salientar um certo paralelismo do comportamento dos preços do petróleo e dos alimentos a partir de 2003, quando a presença dos "investidores institucionais" referidos na entrada abaixo passou a ser determinante nos mercados das commodities. ('clique' na imagem para a aumentar)


Por ele se pode verificar que o preço médio dos bens alimentares duplicou desde 2003 e que o petróleo viu o seu preço mais que triplicado desde essa data, sendo que 1/3 deste aumento se deu no último ano. Uma das características destes últimos 12-15 meses é exactamente o crescimento muito rápido dos preços --- bem mais rapidamente que até ao fim de 2006.

Ainda sobre o aumento do preço do petróleo (parte 1)

"Navegando" na net dei com um documento que reproduz uma intervenção recente de um especialista (Michael Masters) numa das comissões do Senado dos Estados Unidos. O documento pode ser consultado na íntegra (e aconselho a que quem se interessa por estas coisas o faça mesmo) clicando aqui.
Para facilitar a leitura dos que dominam menos bem o inglês aqui vai uma tradução parcial (para português... Tetum lahia... :-) ) do texto. Em próximas entradas apresentaremos o resto das partes mais relevantes. O que se segue é, pois, do autor dos comentários (M.Masters) e não do 'bloguista'...

"Fez-me a pergunta "estão os Investidores Institucionais a contribuir para a inflação dos preços dos alimentos e da energia?” A minha resposta inequívoca é "SIM". Neste testemunho eu irei explicar que os Investidores Institucionais são um, se não os principais, factores que afectam hoje os preços das commodities [matérias primas]. Evidentemente, há muitos factores que contribuem para a determinação dos preços nos mercados de commodities; o que eu vou aqui realçar é um factor em rápido crescimento --- e no entanto, negligenciado --- e que representa um problema que pode ser rapidamente corrigido através de legislação e políticas apropriadas.

Os preços das commodities, no conjunto, aumentaram nos últimos cinco anos que em qualquer outro período da história dos EUA. Vimos picos de subidas de preços das mercadorias ocorrerem no passado em consequência de crises de oferta, tal como durante o embargo árabe ao petróleo de 1973. Hoje, porém e ao contrário do que nos episódios anteriores de subidas dos preços, a oferta é suficiente: não há filas nas bombas de gasolina e há muita comida nas prateleiras.

Se a oferta é adequada --- como foi aqui demonstrado por outros que testemunharam perante este Comité --- e os preços continuam a subir então é porque a procura está a aumentar. Mas como se pode explicar um aumento contínuo da procura quando os preços das commodities duplicaram ou triplicaram nos últimos cinco anos? [o normal é a procura baixar quando os preços aumentam – AS]

[Tal acontece porque] O que estamos a sofrer é um choque da procura vinda de uma nova categoria de participantes nos mercados de futuros das commodities: os Investidores Institucionais. Esta designação abrange os Fundos de Pensões das empresas e públicos, os Fundos Soberanos [Sovereign Wealth Funds; ex: o Fundo Petrolífero de Timor Leste], fundos das Universidades e outros investidores institucionais. No seu conjunto, estes investidores representam hoje, em média, uma parte muito mais importante dos contratos de futuros das matérias primas do que quaisquer outros participantes nos respectivos mercados.

Estes agentes, a quem chamarei “especuladores dos índices”, afectam uma parte das suas carteiras de recursos a “investimentos” nos mercados de futuros das commodities e comportam-se de uma maneira muito diferente da dos especuladores tradicionais que semrpe existiram em todos os mercados. Refiro-me a eles como especuladores de “Índices” por causa da sua estratégia de investimentos; eles distribuem uma parte dos seus recursos em dólares pelos cerca de 25 mercados de futuros existentes e de acordo com Índices conhecidos --- o Standard & Poors – Goldman Sachs Commodity Index e o Dow Jones – AIG Commodity Index.

Gostaria de dar alguma informação complementar sobre como apareceram este tipo de “investidores”.

No início da presente década alguns investidores institucionais, que sofreram perdas significativas com a crise das bolsas de 2000-2002, começaram a olhar para os mercados de “futuros” de commodities como uma nova categoria de “activos” susceptíveis de serem utilizados para investimento. Embora estes mercados sempre tivessem tido alguns especuladores, nunca tinham tido como agentes a participar nas suas operações grandes instituições de investimento [financeiro] que os consideravam como susceptíveis de serem objecto de investimento em larga escala. As commodities pareciam atractivas {a estes investidores] porque tinham estado historicamente “não correlacionadas”, querendo isto dizer que tinham um funcionamento autónomo face ao comportamento usual dos mercados de acções e de Títulos de Tesouro [que “dançam” em conjunto].Os principais consultores financeiros, que aconselham as grandes instituições financeiras quanto às suas estratégias de afectação de recursos, sugeriram pela primeira vez que estes investidores poderiam “comprar e manter” “futuros” de commodities da mesma forma que até aí tinham tido apenas acções e bonds [obrigações].

A procura pelos “Especuladores nos Índices” está a tornar os preços cada vez mais altos

Hoje os “Especuladores nos Índices” estão a colocar biliões de dólares nos mercados de “futuros” das matérias primas, especulando em que os preços irão aumentar ainda mais. O gráfico abaixo mostra que os activos aplicados nas transacções de commodities subiram de 13 biliões [mil milhões] no fim de 2003 para 260 biliões em Março de 2008 e os preços das matérias primas que compõem os índices subiram uma média de 183% nestes cinco anos!


De acordo com a CFTC [US Commodity Futures Trading Comission] e participantes nos mercados de compra e venda no curto prazo [spot markets] os preços dos “futuros” das commodities são o padrão [benchmark] para os preços de matérias primas e por isso quando os Especuladores nos Índices empurram os preços para cima os efeitos são sentidos imediatamente nos preços para entregas a curto prazo das mercadorias físicas e à economia real. Isto é: há uma ligação directa entre os preços de “futuros” das commodities e os preços que os vossos eleitores estão a pagar por bens essenciais." [continua]

quarta-feira, 28 de Maio de 2008

Sobre a evolução recente do preço do petróleo bruto

O FMI-Fundo Monetário Internacional publicou recentemente um dos seus working papers em que aborda a questão da evolução dos preços do petróleo desde o ano 2000. Aconselhamos vivamente a sua leitura --- pelo menos do seu "palavreado", já que ele consta também de um tratamento matemático de valores que não está ao alcance da generalidade dos leitores.

Para facilitar a divulgação das suas principais conclusões resolvemos transcrever (abaixo, devidamente traduzido para português) as partes mais importantes do texto, da autoria de Noureddine Krichene.

Noureddine Krichene

Crude Oil Prices: Trends and Forecast

IMF Working Paper WP/08/133

http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2008/wp08133.pdf


I. INTRODUÇÃO

Mantendo uma subida persistente desde o início de 2003 e tendo batido um novo recorde de 120 USD/barril em Abril/2008, os preços do petróleo bruto mantêm-se sob grande pressão e parece não terem limites; o seu ritmo rápido de crescimento pode-se tornar inflacionista por levar ao aumento dos outros preços e pode provocar uma desaceleração do crescimento económico mundial.

Ainda mais preocupante, as recentes subidas do preço dos preços do petróleo estão a ocorrer no meio de uma tendência para a subida dos preços das restantes matérias primas, de instabilidade no mercado habitacional, das bolsas de valores e dos mercados de crédito e de depreciação das taxas de câmbio [do dólar americano].

O rápido crescimento dos preços das matérias primas [commodities], incluindo o petróleo, pode ser visto como um efeito atrasado das políticas monetárias excessivamente expansionistas do período 2001-04, quando as principais taxas de juro foram empurradas para baixo até níveis nunca vistos desde a II Grande Guerra. Tal política expansionista levou a um crescimento económico mundial rápido e, consequentemente, a um aumento da procura por petróleo e pelas commodities não-petrolíferas. Dado que a oferta de petróleo e de outras matérias primas é rígida ou cresce a um ritmo inferior ao da procura, o excesso de procura resultou em inflação dos preços. Com as taxas de juro reais a tornarem-se baixas ou negativas, a pressão na procura real e, por consequência, no mercado do petróleo pode não abrandar. O “relaxamento” da política monetária no período de Agosto 2007 a Março de 2008 desencadeou imediatamente uma nova espiral de subida dos preços das matérias primas e de depreciação da moeda [do dólar].

(…)

II. EVOLUÇÃO RECENTE DOS PREÇOS DO PETRÓLEO

No nosso estudo analisámos os dados sobre o preço do petróleo light nos mercados de futuros desde 4 de Janeiro de 2000 até 29 de Outubro de 2007, os quais estão representados no gráfico abaixo.

O comportamento dos preços mostra claramente dois padrões diferentes: uma relativa estabilidade durante o período desde o início de Janeiro de 2000 até Abril de 2003, com uma média de cerca de 27 USD/barril; e uma subida forte dos preços desde aquela última data até ao final do período analisado (i.e., Maio/2003 a Outubro/2007), com os preços a subirem progressivamente até aos 96 USD/barril em Outubro/2007 e não mostrando qualquer tendência a estabilizarem em torno da média.

Esta tendência de aumento tornou-se previsível e na subida mais longa de preços do pós-Guerra [II Grande Guerra]. As subidas anteriores duraram em média dois a três anos mas a actual já ultrapassou os 4 anos.


VIII. CONCLUSÕES

Este texto demonstrou que entre o início de 2000 e Abril de 2003 os preços do petróleo evoluíram num sentido ligeiramente negativo com uma procura de petróleo moderadamente crescente. Tal cenário poderá ser restaurado desde que seja adoptada uma política monetária de contenção. (...) Se a oferta de petróleo se tornar regressiva, o crescimento económico será impedido e a pressão sobre o preço do petróleo irá acelerar-se.

Restaurar a estabilidade no mercado do petróleo é essencial para um crescimento económico durável e para a estabilidade de preços. O ímpeto para o crescimento dos preços vem do lado da política monetária. Esta não pode ser utilizada como panaceia para todos os males. Diferentes tipos de problemas económicos deverão ser defrontados com instrumentos bem definidos e soluções apropriadas. Por exemplo, défices da balança de pagamentos poderão ser melhor e mais rapidamente resolvidos através do enfoque monetário da balança de pagamentos que consiste da redução do financiamento dos défices público e privados através da fixação de limites ao crédito.

Da mesma forma, a competitividade externa pode ser alcançada de uma forma mais duradoura através de ganhos de produtividade, redução de custos e inovação tecnológica e não através da redução da taxa de câmbio nominal [depreciação]. A depreciação da moeda pode não restaurar a competitividade externa no contexto de uma política monetária expansionista. Para ser eficaz, a depreciação da moeda tem de ser apoiada por uma política monetária restritiva. Uma condução correcta e segura da política monetária é um pré-requisito para um crescimento económico estável.

Em resumo, o preço do petróleo é uma das principais variáveis económicas. (...) uma política monetária prudente pode ser necessária para alcançar a estabilidade dos preços do petróleo no longo prazo.